31 março 2014

Programa Rádio Sim nº 227 - 31 Março 2014

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No site da Rádio Sim

Tanta coisa...
Podia ter dito tanta coisa… Optei por falar com ideias claras sobre o que, pelos vistos, nos esperava. OH!, QUANDO TERMINEI, TODOS ESTAVAM CIENTES DA LOUCURA. Contudo, não havia nada a fazer, estávamos todos também conscientes disso. Talvez por essa razão, cada um partiu numa direcção diferente, começando a construir o seu próprio destino dentro da loucura. O meu, traçara-o há muito – iria ter contigo. Queria que pudéssemos, nestes últimos dias antes de tudo desaparecer, estar juntos.

Margarida Fonseca Santos, 52 anos, Lisboa
(exercício retirado do livro “Escrita em Dia”, de MFS, Clube do Autor, 2013)
Desafio nº 42 – frase com 5A, 5E, 5O, 3I e 3U, que dá o mote

Sem ar

Sem ar o rapaz parou.
Parou para, silencioso, retirar a pistola do bolso.
O bolso onde a mão tremia, e o suor tornava o punho escorregadio
Escorregadio como o caminho que escolhera e por onde se perdera.
Perdera bens, esperança e não havia quem lhe estendesse a mão.
Mão que determinada agarrava a pistola pronta a pôr termo a tudo.
Tudo parecia perdido até se ver refletido nas águas do rio, então sem ar o rapaz parou.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

A Festa do Circo

Está o circo na cidade, há uma enorme alegria
Há uma enorme alegria. Leões, macacos e ursinhos
Leões, macacos e ursinhos, acrobatas e palhaços
Acrobatas e palhaços, tudo em perfeita harmonia
Tudo em perfeita harmonia, meninas nos cavalinhos
Meninas nos cavalinhos e a dama de muitos laços
E a dama de muitos laços, destros cães, tigres de felpa macia
Tigres de felpa macia. Está o circo na cidade
Está o circo na cidade, há uma enorme alegria.

Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

Um talento nasceu

Num domingo pluvioso, ao ver o cartaz à janela, hoje karaoke, decidimos para entrarmos no bar.
No bar com escassa luz pairava sobre as mesinhas uma fumaça grossa.
Uma fumaça grossa e azul que mesmo na tela turvou as palavras que dançavam no ritmo de fado do Camané.
O Camané imitador sabia cantar, no meio do fumo azul, entoou a canção tão persuasivo que os amadores de karaoke aplaudiram espontaneamente, e um talento nasceu, num domingo pluvioso.

Theo De Bakkere, 60 anos, Antuérpia Bélgica

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

Será...?

“Aaaaaatchiim!”
“Santinho! Vejo que não estás melhor…“
“Nada. Entre ácaros e primavera estou completamente apanhado, receio que me caiam as folhas com tanto espirro.”
“Que ironia! Um livro alérgico…”
“Se ao menos nos limpassem o pó!”
“A que ali vem não era a miúda que estava sempre a ler-te? Está crescida.”
“Fez-se uma mulher, não me vai querer pegar…”
“Enganas-te, vem na tua direcção, vai ler-te que é uma limpeza!”
“E atrás dela uma criança. Será que…?”

Carla Flores, 44 anos, Aveiro/Lisboa

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Discrepâncias de ideias

– Que saudades da senhora – lamentou o relógio
– Pois eu acho que estamos melhor – rematou o candelabro
– Como melhor?! Como podes dizer tal barbaridade?! Aqui estamos largados nesta prateleira cheia de pó na qual nem o sol bate.
– Já fizemos muito, é hora de descansar! Foram 80 anos.
– Qual descansar! Já começo a sentir-me enferrujar. Se ao menos viessem dar-me corda como fazia a velha senhora.
– Isso é idade.
– Estás a insinuar que estou velho?
– Eu? Que ideia.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

30 março 2014

Diário

Saio de casa antes do dia amanhecer. Antes do dia amanhecer é de noite e está escuro.
De noite está escuro e os pensamentos confundem-se nessa negritude.
Nessa negritude passa uma imensidão de sentimentos, desde o rancor ao mais profundo desprezo.
O mais profundo desprezo por o pensamento não compreender o corpo. O corpo que já não obedece, que teima em ficar encolhido, quebrado. Encolhido, quebrado por tanta idade e tão inútil medicina, saio de casa.

Alda Gonçalves, 46 anos, Porto
Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…


Imóveis

– E continuamos imóveis.
– Aqui deixámos de sentir o tempo.
– O tempo apagou-se.
– Deixou de arrefecer.
– O pó vestiu-nos.
– Somos passado?
– Presente sem esperança?
– Faltam -me o vermelho das copas e dos ouros.
– Perdi torres de resistência e peões combatentes.
– Somos jogos nunca mais jogados?
– Seremos jogos reinventados.
– Um novo jogo onde incompletos se complementarão.
– Ainda seremos futuro?
– Basta sermos descobertos pelo poeta.
– Quando se ouvirem risos de crianças.
– E os poetas e as crianças existem.


Maria da Conceição Gralheiro, 57 anos, Aveiro
Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Podia acontecer

Fiquei descalça, ao sentar-me à beira mar naquela tarde primaveril.
Naquela tarde primaveril  tudo que se relacionasse com lazer, era apelativo.
Era apelativo ler,  pegar a paleta, pincéis, desenhar... e sonhar!
Desenhar e sonhar , bem, desenhar não desenhei, mas sonhei com sereias, adamastores, pois adormeci, embalada pela canção do mar.
Embalada pela canção do mar,  pelo aquecimento reconfortante dos raios de sol.
Raios de sol que se retiraram, a maré subiu levou-me os sapatos e...  fiquei descalça

Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

Desconfiança

Quando ia a casa da avó Ana subia num banco e ficava muito sossegada junto á prateleira cheia de pó e esperava.
– Ela está a ouvir-nos – disse a travessa
– Não sejas desconfiada, é apenas uma criança – respondeu a terrina
– Tu não sabes que as pessoas puras de coração são as únicas que nos ouvem?
– Isso são balelas.
– Vais ver. Um dia vai por aí contando o que dizemos.
– Se pensas assim é melhores calares-te.
E assim fizeram. 

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Mulher

Quando nascemos mulheres, a tradição obriga-nos a casar, ou sou preconceituosa?
Quando somos família, vizinhos ou amigos devemos emitir juízos de valor?
Quando casamos deve ser por amor, respeito ou espírito de aventura?
Quando nos tornamos mães, os nossos filhos são o maior presente…
Quando amamos os nossos filhos, não há contratempos, a esperança persiste…
Quando somos mães por convicção, superamos todos os obstáculos e conflitos…
Quando enfrentamos o silêncio, pânico e indiferença, como transmitir a mensagem?

Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra

Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida

A caneta e a folha de papel

Numa noite de tempestade, uma folha de papel e uma caneta, esquecidas numa prateleira cheia de pó:
– Que tristeza! Acabar os meus dias amarela, esquecida, virgem… – queixa-se a folha de papel, sentindo-se profundamente desanimada.
– Como eu gostaria de acariciar o teu papel com o meu bico suave… – diz a caneta com ar sonhador.
– Se um relâmpago avariasse o computador, o acto consumava-se… – sorri a folha de papel, cheia de esperança.
E, talvez por vontade divina, assim aconteceu!

Margarida Leite, 45 anos, Cucujães

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Quem nos quer?

Era o 19, tão só na velha arca, e a boneca de trapos, tão debotada.
Ela reparou nos traços luzidios do 19 e perguntou:
– A quem pertencem as tuas memórias?
– Sou da fórmula 1, azul metálico, com faróis que iluminam o mundo, uma memória do João no autódromo dos corredores da casa da avó. E tu, a que mundo pertences?
– Venho do tempo terno da avó, o seu único brinquedo.
Somos memórias à espera de outras mãos.

Fátima Veríssimo, 53 anos, Seixal
Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Conversas ao pó

Um dia, numa prateleira cheia de pó, numa biblioteca antiga, muito sossegada, vivia um livro muito sabichão e uma caneta elegante. Passavam a vida a conversar sobre o novo livro de Margarida, que falava sobre reciclagem, “O Boião Mágico”.
Eles estavam a conversar quando de repente…
A gaveta abriu-se e… apareceu uma amiga que a caneta há um tempo não via: a borracha rechonchuda, que apagava tudo o que via.
A gaveta fechou-se e a história acabou-se!…

Diogo Neves, Daniel Cobileac, José Maria Reis, 3.º ano, Colégio Andrade Corvo, professora. Carla Veríssimo

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Desavença

Tadeu rapaz teimoso e traquina aparece tempestivamente no terreiro, seguindo-se Teodora gritando:
– Tu és...
– Trapaceiro? – pergunta troçando
– Sim, trapaceiro, mentiroso, traidor...
– Ei!? Traidor não!
– TRAIDOR SIM. Traíste-me.
– Eu?
– Tu contaste-lhe tudo...  – Lágrimas teimosas fluem
Tadeu para. Talvez se tenha excedido. Timidamente abraça Teodora.
– Sabes? Tens razão. Tato, falta-me tato. Desculpa.
Teodora sorri, Tadeu envergonha-se. Tal como tinha começado termina a tempestade.
Os treze anos têm destes tormentos aterradores.  Tréguas feitas, tempestade ultrapassada Tadeu e Teodora partem tagarelando.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 61 – palavra sim, palavra não começada por T

Desafio nº 63

Já descansámos dez dias, está na hora de mais um quebra-cabeças. Preparados?

Proponho-vos o seguinte:
Construam um texto sabendo que:
·         O fim de uma frase será sempre o início da seguinte (com alguma liberdade);
·         O fim do texto corresponde ao início, completando o círculo.

Vamos a um exemplo meio tonto, para não influenciar demasiado:

Como não podia deixar de ser, o fumo que saía do escape tornava o ar irrespirável.
O ar irrespirável dava náuseas medonhas a Belinha,
que estava indisposta desde manhã.
Desde manhã que a mãe a enchia de conselhos e frases de aviso.
As frases de aviso, agora aos gritos dentro da cabeça de Belinha, punham em causa a ideia do passeio.
A ideia do passeio nascera na cabeça tonta de Tonico, como não podia deixar de ser.

Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa

28 março 2014

Programa Rádio Sim nº 226 - 28 Março 2014

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Terno paraíso 
A Tempestade amainou. Tudo ficou tranquilo. Aquele templo de telhas velhas, torcidas, aparentemente tenebroso, cujo território acolhia transeuntes perdidos  talvez, na travessia da terra prometida , transcendeu expectativas.
Treparam à torre. Ouviram tocar as trindades.
Avistaram terrenos de trigais dourados. Termas, águas translúcidas. Ar tépido. As terras precisando trabalho.
Testemunharam maravilhas, tesouros escondidos, trechos musicais, tons de trompete. 
Flores, tulipas no terraço.
Telas pintadas, trechos poéticos, trovas antigas, trocadilhos.
Um talismã urdiu tudo, sonhou.
Terapia espiritual.
Terno paraíso!

Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo
Desafio nº 61 – palavra sim, palavra não começada por T

27 março 2014

Programa Rádio Sim nº 225 - 27 Março 2014

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Parti
Quando procuro por ti não te encontro, nem sempre estás lá.
Quando estás presente, nem sempre estás inteira, sinto que vagueias demoradamente.
Quando encontro os teus olhos, os meus brilham. Os teus não.
Quando o coração pulsa por ti, o desejo desperta. Pura imaginação.
Quando te dou o melhor de mim, não te é suficiente.
Quando procuro agradar-te, fazendo-te as vontades, desdenhas logo do que faço.
Quando reparaste no quanto te dei, já não estava lá. Parti.

Paulo Renato, 38 anos, Maia.
Publicado aqui: http://estorias-curtas.blogspot.pt/2014/03/parti.html
Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida

26 março 2014

Programa Rádio Sim nº 224 - 26 Março 2014

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With love, by Alda
Sempre tricotara e tinha mãe talentosa que transmitia conhecimentos, truques e ternura. De tudo criava tesouros fantásticos. Todavia, ela, tímida, poucos trabalhos mostrava. Treinava pontos tenazmente. Teve um telefonema da tal amiga. Tudo mudou. Tinha de tricotar vestuário: teria desfile. Temia fazer trapalhada. Contudo, tricotou ousadia: treze vestidos tinham rendas trabalhadas. Em tudo revelava talento. De todos recebeu tantos elogios… Tomou coragem, telefonou e teve reuniões. Talento e trabalho. Hoje, tem lojas! Talvez porque tricota com ternura…

Margarida Leite, 45 anos, Cucujães
Desafio nº 61 – palavra sim, palavra não começada por T

Na inquietude destas palavras

Naquela noite estrelada, quando olhei o céu, vi-te refletido em todas as estrelas. Senti o teu toque no beijo lento da brisa suave. E, na penumbra, daquele meio-tom, percebi que nunca te pertenci, que aquilo que julguei ter acabou no precipício da loucura.
Encontro-me dilacerada, angustiada, corrompida, trespassada no meio de um oceano de desilusões.
E, agora, o reflexo de cada estrela toma em si a inquietude destas palavras e reorganiza as peças soltas do meu coração.

Ana Sofia Cruz, 16 anos, Porto
(sem desafio)

Campeão mundial de nódoas

– Olá, principiante.
Seja bem-vindo a este sótão poeirento.
Apresento-me "sou um tinteiro". "Campeão mundial de nódoas."
... Infelizmente, após séculos de dominância, fui derrotado pela esferográfica.
– Quem és, sei eu. Imprimi já tinteiros com maior beleza que tu. Quase não acredito, mas somos parentes. Evidentemente, sou um mais sofisticado utensílio.
– Está reformado?
– Não, tinha um defeito, e substituíram-me por outra impressora nova, bem vê, era mais barata.
– Ó impressora! Se quiser, emprestar-lhe-ei a si uma pena e tinta.

Theo De Bakkere, 60 Anos, Antuérpia Bélgica

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Par

A lembrança de um belo par de sapatos que constituíram, não passava de uma mera memória. Antes eram uma equipa, agora resvalavam cada um para seu canto. O direito culpava o esquerdo, fazendo menção de lho recordar com frequência.“A culpa é tua deste nosso abandono, se não tivesses quebrado o teu tacão devido a ficares pasmado olhando o sapato alheio, terias visto o buraco que pisaste.” “É sempre a mesma conversa, eu já sarei, tu continuas quebrado.”

Paulo Renato, 38 anos. Maia

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

25 março 2014

Programa Rádio Sim nº 223 - 25 Março 2014

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Tudo se transforma
Tratavas a treta da tua vida também por tu. Convenceste-nos! Tudo que tu dizias tinha sempre timbre certeiro. Todo o tanto que trazias para tantos parecia tão corajoso. Teimosamente perfeito! Transparecia força!
Teimoso o tempo passou... Trouxe-te desespero! Tenra confiança tinhas afinal! Ténue, muito ténue! Não transmites já tamanha assertividade tão elogiada! Todavia, no término de tudo, a teoria que teima em transparecer: nem tudo é tudo que tende aparentar.
 “Tudo se transforma” – outra tendência também comprovada!

Vera Viegas, 30 anos, Lisboa/Penela da Beira
Desafio nº 61 – palavra sim, palavra não começada por T

Até o pó assentar as memórias

Na penumbra do quarto, esvaziado de vida, o pó ia cobrindo todo o resto. Numa prateleira do toucador, um pequeno espelho reflectia a sua tristeza.
– Sinto falta do seu rosto.
A escova, a seu lado lamentou-se.
– Conheci-lhe cabelos de prata até ficarem como neve.
– As maças do seu rosto foram ficando como a terra lavrada. O seu olhar sempre foi doce, mesmo quando perdeu a alegria de me olhar.
Assim recordavam, até o pó assentar as memórias.

Paulo Roma, 50 anos, Lisboa

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Sonho desfeito

Recordo bem, na inocência dos 14 anos, planeando nosso futuro através das revistas de decoração da tua mãe. Tínhamos a aprovação dela mas não da minha.
Quando estávamos a só, sonhando uma vida a dois, teu apelido usava.  Mas minha mãe descobriu e mandou-me viver com uma tia. Teu pai adoeceu e partiram. Assim me contaram quando regressei, chorei lágrimas sem fim, Assim o apelido ficou preso no arame farpado, o sonho acabara. Agora resta a recordação.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Sem volta atrás

Olhou-se no espelho. Tinha os olhos brilhantes pelas lágrimas.
Nunca pensara ter de tomar uma decisão destas. 
Seu namorado já decidira por um ponto final  mas a última palavra era dela.
Riso de crianças brincando na rua levaram-na à janela e, colocando uma mão sobre a barriga, chorou de novo.
Decidir se um ser merece viver não se pode tomar de ânimo leve.
Pesa demais na consciência.
Não é como escolher que vestir ou comer.
É irreversível. 

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas
(história sem desafio)

24 março 2014

Programa Rádio Sim nº 222 - 24 Março 2014

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A Isabel não tropeçou neste desafio!
Tropecei na tua vida
tropecei por tropeçar
ao tropeçar distraída
tropecei no teu olhar..
Tropecei no teu caminho
tropecei no teu cantar
tropecei no teu carinho
tropecei para te amar..
Tropecei na tua lua
tropecei no teu sorriso
tropecei na tua rua
tropecei no teu sentido...
Tropecei na tua luz
tropecei no teu brilhar
tropecei na tua cruz
tropecei  para te amar..
Tropecei no teu calor
tropecei no teu sonhar
tropecei no teu Amor
tropecei por tropeçar...

Isabel Lopo, 68 anos, Alentejo
Desafio nº 61 – palavra sim, palavra não começada por T

Incertezas

Ser mãe é gratificante ?
Talvez sim, talvez não...
Relação de amor/ódio, ternura/revolta, lágrimas e frustrações...
Nuns dias alegre, tolerante e meigo.
Noutros, triste, agressivo e inconveniente.
Sentimentos contraditórios, recomeços dolorosos.
Aonde é que errámos?
Transmitimos os mesmos valores, as personalidades são tão diferentes...
Serei culpada? Mas, culpada porquê?
Por te ter desejado tão desesperadamente?
Ou por subverter as dúvidas e as incertezas?
O teu apelido deveria ter ficado preso no arame farpado?Quero acreditar que NÃO...

Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

23 março 2014

Campo de batalha

No campo de batalha, o fuzileiro ficou enganchado no arame farpado, entre duas trincheiras inimigas. Caído na terra de ninguém, e, nem os irmãos de armas, nem os inimigos, arriscavam as suas vidas para lhe dar uma cova decente.
A guerra arrastou-se quatro anos e nada dos seus restos mortais fazia pensar no fuzileiro jovem. Só o apelido ficou preso no arame farpado.
"Fui Pedro".
Caído, onde as papoilas crescem em terra esgaravatada.
Há cem anos passados.

Theo De Bakkere60 anosAntuérpia, Bélgica 
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Recordações

Recordações! Olho-as sem as ver.
Percorreram quilómetros dentro de uma mala de viagem e chegaram a uma prateleira que as recebeu e na qual permanecem, lado a lado. A Tour Eiffel e a casinha madeirense, de Santana.
Limpando a prateleira empoeirada, ouço os seus lamentos.
– Que saudades da minha Ilha, da natureza, do Oceano!
– E eu, do Sena, de Notre Dame, da vida parisiense!
Resolvo mudá-las de sítio. Quiçá, ao lado da televisão se sintam mais confortadas.

Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Massacrado!

Sentia-se massacrado...! Os toques contantes nos seus botões, por mãos alheias, irritavam-no.
O Comando TV vivia reclamando... apaziguando a sua dor...!
Em redor, observava livros em prateleiras cheias de pó... mas, ao seu lado, encontrava-se um livro que  cobiçava a forma como era tratado... delicadeza!
– Não há direito! Carrega; carrega...! Estou a falar contigo, ó livro sortudo!
– Já percebi... estás irritado!? Compreendo a tua revolta... Pensa assim: sou preciso... sou útil, sou feliz...!
– Vou procurar sê-lo, Livro!

Prazeres Sousa, 50 anos, Lisboa

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Finalmente, o sol

A primavera tinha chegado e entravam os primeiros raios de sol pelas frinchas das portadas de madeira envelhecida. O naperon, um artista especial que tinha desenhado na prateleira estrelas e flores de pó, respirava fundo.
– Finalmente está aí o sol e o calor!
– Mais uns dias e temos a criançada a correr à nossa volta e a deitar tudo abaixo – resmungou a terrina de loiça de Sacavém.
– Ai, que saudades de quando havia vida todo o ano!

Cláudia Mourato Fandango, 36 anos, Oeiras

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam