28 fevereiro 2013

Harmonia


– Mas que ideias tão extravagantes! Deles tudo se pode esperar – critiquei.
– É bom ser-se livre. – A minha irmã sempre foi liberal.
Havia uma quantidade de coisas que poderia ter dito, mas limitei-me a um:
 – Estou a ver.
Ela emitiu um riso abafado como sepor alguma razão inconfessável, estivesse satisfeita. Depois ficou a olhar Laskell e aquele figurino indubitavelmente excêntrico. Mas, assim que Elsa se atracou ao estrangeiro e saíram de braço dado, perdeu o luminoso sorriso.

Quita Miguel, 53, Cascais

D. H. Lawrence, in St, Mawr e Outros Contos – “A Harmonia” - E Elsa Laskell ficou satisfeita por se ver livre deles.




Dei-te a Mão!


Enquanto eu for eu, e tu fores tu, espero curar-me de ti; do que sinto e não sei nomear; da necessidade de te ver.
Que estamos a fazer?! Sabê-lo-emos?
Seduziste-me. Inicialmente não percebi. Quando suspeitei, perguntei-te. Subtilmente, disseste o que não queria ouvir. Delicadamente, respondi: não.
Afastámo-nos. Ficaria a amizade.
Há dias surgiste. O amigo, a quem inocentemente dei a mão. Inesperadamente, desse toque emergiram sentimentos.
Onde ficou o tempo da ausência? Naqueles que esperam por nós.

Isabel Pinto, Setúbal 

Robert Browning, in "Amo-te" [Uma Antologia Poética], ed. 101 noites. pág 50
Paula Raposo, in "A Poesia nos Blogs", ed. Apenas Livros, LDA, pág.36

Magoada



Claro! Agora que a distância e a ausência marcaram a lucidez dos acontecimentos, percebo o teu objectivo. Ligarei, ainda, de com a certeza, do engano, me convencer da mentira. Fazê-lo para me refugiar também da dor. Sempre recordarei as tuas palavras. As mesmas que me transportaram à ilusão do "amor". Se quiseres, podes pedir desculpa.
Não sei como ou se seguirei em frente. Pouco importa! Não magoei. Fui magoada. Sofrimento que cicatrizará com o tempo. Sim. Esquecerei! 

Isabel Pinto, Setúbal

“Claro, ligarei de certeza. Podes fazê-lo também sempre que quiseres..." – Vítor Burity da Silva, "Rua dos Anjos", Porto Editora, pág. 77

Desconhecemo-nos

Pousa as mãos nos meus olhos, com carinho. Entre nós um abismo separa-nos; um sentimento une-nos.
Não nos conhecemos. Tentámos, com palavras, dizermos,  delicadamente, as emoções vividas.
Fugi! Pensar no acontecido. A distância física, tornará lúcida a amizade que fingimos?
Percebeste o espanto no meu rosto?! Meses depois: surpresa e incredulidade!
Hoje, senti a tua falta. O teu silêncio. Simboliza afastamento, desistência? Entendeste a impossibilidade da relação, desejada (?!), sem alterares a tua vida? Será tudo mesmo assim?

Isabel Pinto, Setúbal

"Eu Não Sou de Ninguém", Florbela Espanca, Literatura portátil,pág.17

"Poemas Escolhidos" António Gedeão, Edições João Sá da Costa, pág.19

desafio nº 36


Depois do sucesso que teve o desafio anterior, fiquei com vontade de vos pedir um que também acho extraordinário.

Peguem, desta vez, num livro de contos.
Procurem a última frase de um dos contos.
Nota: A razão para escolhermos contos é que, normalmente, as frases finais são mais enigmáticas, ou mais abertas, ou mais profundas; além disso, como são vários, têm mais escolha!

Essa frase será escrita de trás para a frente no vosso texto, polvilhando a vossa história em 77 palavras de onde em onde. A distância entre palavras é livre.

Não se esqueçam de enviar a frase original e, se puderem, pôr em bold as palavras.
E digam-nos de que livro retiraram a frase, queremos todos saber!


Aqui fica o meu:

Luísa Costa Gomes, in Contos Outra vez – “O Pico de Furcht”
Tudo o que é meu, guardo-o fechado num armário pequeno.

Pareceu-me demasiado pequeno o mundo que reservaras para mim. Acabavas de me enfiar num armário, teu, num espaço de ninguém. Aquele nem sequer era um mundo verdadeiro. Era um espaço fechado ao exterior, esse exterior de mim onde te encontras e onde encontras a tua vida. Este passou a ser eu. Guardo-o. Sei que é só meu porque não mais te vais lembrar de quem sou. É o que sei, que o tudo, o nosso, nunca regressará.

Margarida Fonseca Santos, 52, Lisboa

Dilema


Para seres grande, sê inteiro, rematou com autoridade.
Tinha a cabeça ligeiramente levantada, olhos fixos no horizonte.
– Isso é muito bonito, mas todas as ajudas são poucas lá em casa! Tempos difíceis...
… Combinamos dividir as gorjetas ao fim do dia, mas caramba! nós sacamos mais que elas todas juntas!...  façam pela vida!
– Choninhas, nem dão por nada!!
– Ensinamo-las a falar! A serem simpáticas, a desapertarem mais a blusa… sei lá!
– Sei que não vou por aí!

Luís Marrana, 52, Oliveira do Douro

Para seres grande, sê inteiro – Fernando Pessoa - Odes de Ricardo Reis
Sei que não vou por aí! – José Régio - Cântico Negro


27 fevereiro 2013

Entardecer


Está no pensamento como ideia enraizada que não desaparece. Torna-se turbulenta como a força da natureza. Aquela vontade imensa de percorrer o mundo sobre a terra e sobre o mar na busca do ser e do infinito. Na paz do silêncio, o murmúrio das ondas, o canto das gaivotas. O horizonte longínquo e o abraço do tempo a chamar por mim. Os passos do meu coração que se arrastam até o apertar daquela hora sagrada dum entardecer.

Maria Jorge

Camões, Rimas. - Está no pensamento como ideia.
+
Florbela Espanca, Livro das Mágoas, As minhas ilusões (1919) - Hora sagrada dum entardecer.

Poisando devagar


A noite vem poisando devagar e a leve brisa traz-me a sensação de ti, a vontade imensa de respirar os gestos e os dizeres que te pertencem. Sinto ainda os teus lábios nos meus e o calor do teu abraço. Só os meus olhos não vêem os traços do teu rosto, o respirar do teu dormir. Mas ouço ainda o riso largo da felicidade e as palavras esgotam-se, agora, que o silêncio é um mar sem ondas.
A noite vem poisando devagar - Noite de Saudade - Florbela Espanca
agora, que o silêncio é um mar sem ondas - Súplica - Miguel Torga

Sandra Évora, Loures

Tinha fugido do céu


De todos os cantos do mundo, trouxe aquilo que me pertencia. Procurei e cravei na alma as memórias de uma vida. O cheiro, o mar salgado, a procura pela liberdade, os pés descalços na areia quente. Perdi-me nessa vontade insaciável de ir mais além, mais longe de mim mesma. Sobrava o mundo, e dele, queria tudo. A luz, o medo, a cor, o frio da brisa de quem vive livre. Tudo o que tinha fugido do céu.

De todos os cantos do mundo – Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen
Tinha fugido do céu – Num meio-dia de fim de primavera, Alberto Caeiro

Inês Costa, 19 anos, Portugal

26 fevereiro 2013

Na areia branca


Na areia branca, onde o tempo começa, o sol brilha!
O mar azul e salgado salpica os meus pés… e eu fico feliz! O barulho das ondas acalma os meus pensamentos e eu permaneço, ali, a olhar para o infinito.
O que será que há para lá da linha do horizonte? Um tesouro? Uma ilha fantástica, com animais extraordinários?
Haverá, de certeza, tudo o que a minha imaginação quiser. E hoje, apetece-me ver amores-perfeitos de muitas cores…

3º B da EB1 nº 3 de Viseu – Massorim (professora Filipa Duarte)

Na areia branca, onde o tempo começa, in As Palavras Interditas, de Eugénio de Andrade
Amores-perfeitos de muitas cores, in Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles

De Pessoa a Lispector


O poeta é um fingidor que chega a fingir que é dor.
Que finge estar bem para agradar a alguém.
Que se mostra sorridente quando não está contente.
O poeta comete erros como qualquer comum mortal.
Mas tenta esconder para que não lhe desejem mal.
É alguém que em folha branca se expressa.
Mas os defeitos não podem ser evitados nem devem ser escondidos.
Porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Tatiana Leal, 15 anos, Portugal


Fernando Pessoa - “O poeta é um fingidor que chega a fingir que é dor”
Clarice Lispector – “Porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

25 fevereiro 2013

MEMÓRIAS


Guardo a memória do tempo
Alegria, Tristeza, Felicidade
Feliz por ter nascido
Amada por madrinha e mãe

Depois…
O Terror e a Revolta
A vítima tem o direito e a obrigação
De denunciar a agressão
Para proteger outras mulheres

De Dia ou Noite
O medo de sair à rua

Da Revolta …
Tristeza Profunda
Ir à luta e vencer
Lutar e ultrapassar obstáculos

Tenho direito à Felicidade
Marido, Filha e Filho maravilhosos
Tudo na minha vida é intenso

Cristina Lameiras

Ana Paula Tavares do poema intitulado “Origens” in Dizes-me coisas amargas como os frutos
Luísa Vaz Tavares do poema intitulado “ De mim, apenas” in Doçuras e Amarguras

23 fevereiro 2013

Como tu, já fui menina


Como tu, filha, também já fui menina. Saltei à corda e ao elástico, corri por entre ervas e pinhais, joguei às escondidas, como se a vida fosse uma brincadeira sem fim.
Os anos passaram, céleres. Olho o espelho. Não me reconheço, não te reconheço.
Da minha janela espreito o relógio da igreja na esperança que me devolva o tempo perdido para que esse tempo me devolva a memória. Hoje, não sei quem sou. O universo ficou vazio.

Ana Paula Oliveira

Ana Luísa Amaral, do poema intitulado “Como tu”, in Como tu (2012)
Cecília Meireles, do poema “No meio do mundo faz frio”, in Mar absoluto (1945)

Milagre


A maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si próprio.
Assim pensava Lourdinha ao ver um motoqueiro atropelado na rua.
As pessoas pararam em silêncio e movidas pela curiosidade, sem ajudar.
Até ela se viu paralisada diante do acidente.
Esqueceu-se dos seus problemas.
Mas um fato deixou Lourdinha com mais esperança na humanidade: um menino correu acudir!
Por essa ela não esperava!
Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

Anne Lieri, Brasil
1ª frase de Albert Einstein, a última de Guimarães Rosa

Pelo sonho é que vamos


Pelo sonho é que vamos onde queremos. Alegres e felizes perante o sol radiante e esplendoroso.
O sonho é como o sol que se esconde, mas nunca pára de brilhar.
Sonhamos em acabar com a fome, a guerra e a tristeza.
Sonhamos com um mundo melhor e mais justo, onde todos tenham um emprego decente e onde todos os sonhos se poderão concretizar.
Os sonhos mágicos das crianças vão subindo para os astros como um grito puro.

Texto coletivo – EB Veiros – 3º /4º ano, professora Carmo Silva

“Pelo sonho é que vamos” – Poema “Pelo sonho é que vamos”, de Sebastião da Gama
“Subindo para os astros como um grito puro.” – Poema “ Mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Mentira

Ai quem me dera uma feliz mentira
para que meus dias fossem felizes
Pudesse sorrir, ser feliz
Pudesse sorrir à vida, a mim mesma
E encontrar-me,
Encontrar-me
A mim e a ti
Que perdi
Mas encontro-te dentro e fora de mim
Quem me dera uma mentira
uma feliz mentira
Para que com essa feliz mentira 
O meu coração descanse enfim e te encontre
Mesmo sabendo que já te perdi
E quanto mais te perco mais te encontro


Ana Mestre, 36 anos, Portugal

Ai quem me dera uma feliz mentira – Florbela Espanca in Mensageira de violetas
E quanto mais te perco mais te encontro – Manuel Alegre in Obra Poética

Não tenhas medo do amor


Não tenhas medo do amor
Pois no mar das colheitas
e na contemplação dos dias
vivo ansioso pelo calor dos teus lábios,
Sinto o prelúdio dessa melodia 
Que ganha forma e cresce como o trinado 
Do rouxinol na madrugada
Sonho para que o amanhã regresse 
E antecipe a primavera
Como primícias no veludo do teu corpo...
Encontrar essa fonte desejo
Quando nas tuas mãos desertas
Me deste a conhecer
O sol e o vento no teu coração!

 Alda Gonçalves, Porto

 Não tenhas medo do amor - in Poesia Reunida (2012),  Maria do Rosário Pedreira 
O sol e o vento no teu coração -  Poema Orgasmo in Diário V,  Miguel Torga

MEU GRITO


Desfalecida a flor desprende as folhas
Que caem indefesas ao sabor do vento
O jardim ficou assim mais triste, mais pobre
Deixando-as distanciar sem um lamento.
 
Desiludida a mãe abre os braços num adeus
Seus olhos são fontes, são rios de água salgada
Os filhos partiram em busca doutra vida
E ela ali tão só, tão desamparada
 
Aqui estou eu, exclama, olhando o prado,
As árvores despidas, a chuva, mas tudo
Indiferente à raiva do meu brado.

Rosélia Palminha, Portugal

1º  Verso: Alexandre Herculano – Poema: A  Rosa
 +
2º Verso: Pedro Homem de Melo – Poema: Remorso


22 fevereiro 2013

Tantas vozes fora de nós!



Tantas vozes fora de nós! Parecem-se connosco e talvez sejamos nós. Enchem o sentido das letras gordas com volumes histéricos. Estão prontas para carregarem raivas que vagueiam na minha pele. A pele que é minha carrega os ruídos que me confundem, que se alimentam do espaço que deixo livre. Depois existes tu, silêncio. Tu que te esforças por descansar cá dentro, enroscado num canto, à espera que me lembre de ti. Faltas tu a levar o tempo.

Clara, 36, Lisboa

Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999) - Tantas vozes fora de nós!
+
José Luís Peixoto, Morreste-me (2000) - Faltas tu a levar o tempo.

A flor da primavera



Do seu longínquo reino cor-de-rosa, todos os dias chegava a todas as casas uma fada mágica que estava sempre disposta a ajudar as pessoas.
Um dia, durante o seu voo encantado, no meio de um jardim abandonado, viu algo brilhante a aparecer.
– Que bonita que és! O teu brilho chamou por mim… – disse a fada.
– Obrigada! Eu sou a primeira flor da primavera e agora também sou a flor mais feliz… assim por te ter tão perto!

3ºA da EB 1 Feira nº 2 de Santa Maria da Feira, professora Cátia Silva

Do seu longínquo reino cor-de-rosaA fada das crianças – Fernando Pessoa
assim por te ter tão perto!Podes ser in Sentimentos in Versos – Carlos Nuno Granja


21 fevereiro 2013

A fuga do anjo


Base, fuste ou capitel?, perguntava-se o anjo Gumercindo, admirando a coluna que sustentava o templo, imaginando onde atar a corda e zarpar. 
Cansara-se da vida no Olimpo e sabia-se preparado para ajudar os humanos. Ansiava por emoção, pelo corrupio louco dos mortais, pelo inesperado de cada dia. Mas como fazer?
Um trovão anunciou que Zeus se zangara. Com ele? Não saberia dizer, mas, pelo sim pelo não, aproveitou a tempestade e desceu pelo primeiro raio que apanhou."

Quita Miguel - Cascais

Manuel Freire, Pedra Filosofal – Base, fuste ou capitel
+
Fernando Pessoa, Menino Jesus – E desceu pelo primeiro raio que apanhou

Mensagem que amanhece


Subsiste uma palavra, uma sílaba de vento 1
Dentro do silêncio que a noite traz
É simples e plena em verdade
Transporta em si o tanto de que sou capaz.
Devolve-me a força e a esperança
Soletra-me o sorriso que mais feliz me faz
Ilumina o caminho para um dia audaz!
Vai ficando... meus sonhos moldando...
Na intensidade de um fogo posto
E nessa chama imensa vai queimando
Todos os fantasmas que acordam
Quando a noite perde o rosto2

Vera Viegas, 29 anos, Lisboa

1 In “Nós somos “ de António Ramos Rosa

2 In “Há palavras que nos beijam “ de Alexandre O’neill


Sonho ou Mar?


SONHO OU VELO?  QUE IMAGEM LUMINOSA
A brisa corre e a seara ondeia
Persiste o milho farto que se enleia
Por dentro da ventania caprichosa
Do trabalho moço e da coragem
É feito o sóbrio pão do alimento
Que difícil e mau grado o mau momento
Dos dias, se faz ceifar a voragem.
Estilizando em mil formas a verdade
A beleza que se entrevê é tamanha
Que faz inquirir da realidade:
MAR OU CÉU, VALE OU MONTANHA?

Elisabeth Oliveira Janeiro, Lisboa

Citações:  'Sonho ou velo? Que imagem luminosa' - Bocage in "À Memória de Ulina" e 'Mar ou céu, vale ou montanha?' - António Gedeão in "Que de mim?"


20 fevereiro 2013

Corpo e Alma



Sentir tudo de todas as maneiras, não deixar um poro da pele, um fragmento da alma, sem respirar o encantamento do prazer, numa espécie de orgia moderna.

Os corpos oferecem-se, despudorados, na mesa do tempo; só a gula dos dias os pode salvar da tempestade que o espelho, teimoso, devolve.

As almas vendam os seus deuses - cegos esperarão - e deixam-se seduzir pelo esplendor da festa; fingem-se eternas ainda que desfeitas, como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

Bau Pires, Porto

Peguei no verso "Sentir tudo de todas as maneiras" do poema "Passagem das horas" do Álvaro de Campos, liguei-o com uma prosa atabalhoada minha e fechei com "como recém-saídas de um naufrágio de sangue" do poema "Aurora de Nova Iorque" do Garcia-Lorca.

Não me digas adeus

Que impressão por dentro do meu sentir cego 
por medo das artes de ignorar…
Não me digas adeus, ó sombra Amiga que Sorris!
Não porque te Gosto. 
Não porque confesso das Saudades, 
da falta que Sinto do teu cuidado e de um Tempo Nosso que nunca existiu. 
Inventa comigo um qualquer Futuro: 
de Sorrisos, de Silêncios em Palavras, Rabiscos, Caminhadas… de Abraços.
Estou Grata por ter comigo o Teu Sorriso.
Não me digas adeus, ó sombra Amiga 

Rita, 36 anos, Carcavelos 
---------

Citações:

“Que impressão por dentro do meu sentir cego” in Ana Ventura (2009). «Paralelo». Tracejado. Editora Inverso da Capa. 
“Não me digas adeus, ó sombra amiga” in Florbela Espanca (2002). «Espera…». Florbela Espanca: Sonetos. Bertrand Editora.

A Magia do Olhar


A mais bela ponte construída no planeta
é a distância entre um olhar e outro
É feito doce e leve voar de borboleta
pousando nas flores de cor violeta

É um sagrado e ímpar momento
tudo em sua volta deixa de existir
Feito magia e puro encantamento
os olhos brilham e começam a sorrir
 
Os corações em pleno esplendor
fascinantes melodias estão a entoar
As mais lindas palavras de amor
são ditas no silêncio de um olhar

Majoli Olibeira, Brasil

Publicado aqui:


A mais bela ponte construída no planeta
é a distância entre um olhar e outro.
( Leonardo da Vinci)
+
As mais lindas palavras de amor
são ditas no silêncio de um olhar.
(Mario Prata)  

EXEMPLOS - desafio nº 35

Sobre o verde mar, parece que vejo minha alma feliz a pairar.
Ali unida à ela, consigo ser inteira, completa em perfeita sintonia.
Tão bela é essa visão!
Tanta alegria em meu coração!
Ondas vão, outras vêm e lá me sinto tão bem!
Fico aqui a me perguntar, já a resposta sabendo:
É o mar, a imensidão, toda a grandeza que me emociona e faz bem ao coração,
o que lá no fundo pulsa e me acalma.
Chica, Brasil
Sobre o verde mar (versos de Tunin- Daqui) e O que lá no fundo pulsa e me acalma. ( Verso de ToninhoDaqui)

Viajar! Perder países!
Perder-me para sempre
Pelos espaços vazios que no céu rasgam
Pela minha alma viajar
Viajar com o corpo, viajar com a mente!
Simplesmente pela vontade de partir
Pela vontade de ser gente
Gente em qualquer lugar,
Não importa onde vou parar
Importa sim não agarrar raízes
Não ter medo de ir, de cortar com a corrente
Voltar diferente do que estava quando saí
Sentir a coragem de dizer
Sei que não vou por aí!
Alexandra Rafael
A primeira frase é de um poema de Fernando Pessoa “Viajar! Perder Países” e a última é do “Cântico Negro” de José Régio.

A poesia é incomunicável, por isso ela escrevia prosa.
Contava histórias alegres, usando sempre palavras simples, para que todos a compreendessem.
Os críticos apontavam o vocabulário pobre, a narrativa prosaica, a psicologia rudimentar.
Mas ela não se ralava. Pelo menos, comunicava.
E ninguém lhe tirava o gozo de tornar as pessoas – aquelas comuns, como as suas personagens – felizes.
E sábias, como crianças.
Afinal, toda a gente sabe que a sabedoria da criança é não saber que morre.
 Rita Bertrand, Lisboa, 40 anos
Versos: “A poesia é incomunicável”, de Carlos Drummond de Andrade, in “Segredo” e
“a sabedoria da criança é não saber que morre”, de Ruy Belo, in “Algumas Proposições sobre Crianças”

SONHO OU VELO?  QUE IMAGEM LUMINOSA
A brisa corre e a seara ondeia
Persiste o milho farto que se enleia
Por dentro da ventania caprichosa
Do trabalho moço e da coragem
É feito o sóbrio pão do alimento
Que difícil e mau grado o mau momento
Dos dias, se faz ceifar a voragem.
Estilizando em mil formas a verdade
A beleza que se entrevê é tamanha
Que faz inquirir da realidade:
MAR OU CÉU, VALE OU MONTANHA?
Elisabeth Oliveira Janeiro, Lisboa
Citações:  'Sonho ou velo? Que imagem luminosa' - Bocage in "À Memória de Ulina" e 'Mar ou céu, vale ou montanha?' - António Gedeão in "Que de mim?"

Subsiste uma palavra, uma sílaba de vento 1
Dentro do silêncio que a noite traz
É simples e plena em verdade
Transporta em si o tanto de que sou capaz.
Devolve-me a força e a esperança
Soletra-me o sorriso que mais feliz me faz
Ilumina o caminho para um dia audaz!
Vai ficando... meus sonhos moldando...
Na intensidade de um fogo posto
E nessa chama imensa vai queimando
Todos os fantasmas que acordam
Quando a noite perde o rosto. 2
 Vera Viegas, 29 anos, Lisboa
 1 In “Nós somos “ de António Ramos Rosa
 2 In “Há palavras que nos beijam “ de Alexandre O’neill

"Base, fuste ou capitel? Perguntava-se o anjo Gumercindo, admirando a coluna que sustentava o templo, imaginando onde atar a corda e zarpar. 
Cansara-se da vida no Olimpo e sabia-se preparado para ajudar os humanos. Ansiava por emoção, pelo corrupio louco dos mortais, pelo inesperado de cada dia. Mas como fazer?
Um trovão anunciou que Zeus se zangara. Com ele? Não saberia dizer, mas, pelo sim pelo não, aproveitou a tempestade e desceu pelo primeiro raio que apanhou."
Quita Miguel - Cascais
Manuel Freire, Pedra Filosofal – Base, fuste ou capitel +
Fernando Pessoa, Menino Jesus – E desceu pelo primeiro raio que apanhou

Falaram-me os homens em humanidade!
Crueza de palavra proferida em nossos dias, em que continuamente se coloca em causa a Universalidade dos Direitos Humanos. Neste mundo iníquo, parcial, perversamente regredindo, na nossa existência humana.
Pobreza envergonhada, onde a fraqueza timidamente se vai instalando e onde as bocas ávidas de sustento se saciam de gratidão.
Defraudados, vamos vivendo, sustentando-nos de solidariedades alheias.
A terceira miséria é esta, a de hoje, a de quem já nem ouve nem pergunta…
Graça Pinto – Almada
1ª frase Alberto Caeiro (Heterónimo de Fernando Pessoa) in "Fragmentos" - Humanidade
2ª frase Hélia Correia - 3ª Miséria (hoje premiada com o pémio Casino da Póvoa)

Tantas vozes fora de nós! Parecem-se connosco e talvez sejamos nós. Enchem o sentido das letras gordas com volumes histéricos. Estão prontas para carregarem raivas que vagueiam na minha pele. A pele que é minha carrega os ruídos que me confundem, que se alimentam do espaço que deixo livre. Depois existes tu, silêncio. Tu que te esforças por descansar cá dentro, enroscado num canto, à espera que me lembre de ti. Faltas tu a levar o tempo.
 Clara, 36, Lisboa
Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999) - Tantas vozes fora de nós!
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José Luís Peixoto, Morreste-me (2000) - Faltas tu a levar o tempo.

Do seu longínquo reino cor-de-rosa, todos os dias chegava a todas as casas uma fada mágica que estava sempre disposta a ajudar as pessoas.
Um dia, durante o seu voo encantado, no meio de um jardim abandonado, viu algo brilhante a aparecer.
– Que bonita que és! O teu brilho chamou por mim… – disse a fada.
– Obrigada! Eu sou a primeira flor da primavera e agora também sou a flor mais feliz… assim por te ter tão perto!
3ºA da EB 1 Feira nº 2 de Santa Maria da Feira, professora Cátia Silva
Do seu longínquo reino cor-de-rosa – A fada das crianças – Fernando Pessoa
assim por te ter tão perto! – Podes ser in Sentimentos in Versos – Carlos Nuno Granja

Desfalecida a flor desprende as folhas
Que caem indefesas ao sabor do vento
O jardim ficou assim mais triste, mais pobre
Deixando-as distanciar sem um lamento.

Desiludida a mãe abre os braços num adeus
Seus olhos são fontes, são rios de água salgada
Os filhos partiram em busca doutra vida
E ela ali tão só, tão desamparada

Aqui estou eu, exclama, olhando o prado,
As árvores despidas, a chuva, mas tudo
Indiferente à raiva do meu brado.
Rosélia Palminha, Portugal
1º  Verso: Alexandre Herculano – Poema: A  Rosa
 +
2º Verso: Pedro Homem de Melo – Poema: Remorso

A mais bela ponte construída no planeta
é a distância entre um olhar e outro
É feito doce e leve voar de borboleta
pousando nas flores de cor violeta

É um sagrado e ímpar momento
tudo em sua volta deixa de existir
Feito magia e puro encantamento
os olhos brilham e começam a sorrir

Os corações em pleno esplendor
fascinantes melodias estão a entoar
As mais lindas palavras de amor
são ditas no silêncio de um olhar
Majoli Olibeira, Brasil

A mais bela ponte construída no planeta
é a distância entre um olhar e outro.
(Leonardo da Vinci)
+
As mais lindas palavras de amor
são ditas no silêncio de um olhar.
(Mario Prata)  

Que impressão por dentro do meu sentir cego 
por medo das artes de ignorar…
Não me digas adeus, ó sombra Amiga que Sorris!
Não porque te Gosto. 
Não porque confesso das Saudades, 
da falta que Sinto do teu cuidado e de um Tempo Nosso que nunca existiu. 
Inventa comigo um qualquer Futuro: 
de Sorrisos, de Silêncios em Palavras, Rabiscos, Caminhadas… de Abraços.
Estou Grata por ter comigo o Teu Sorriso.
Não me digas adeus, ó sombra Amiga 
Rita, 36 anos, Carcavelos 
“Que impressão por dentro do meu sentir cego” in Ana Ventura (2009). «Paralelo». Tracejado. Editora Inverso da Capa. 
“Não me digas adeus, ó sombra amiga” in Florbela Espanca (2002). «Espera…». Florbela Espanca: Sonetos. Bertrand Editora.

Sentir tudo de todas as maneiras, não deixar um poro da pele, um fragmento da alma, sem respirar o encantamento do prazer, numa espécie de orgia moderna.
Os corpos oferecem-se, despudorados, na mesa do tempo; só a gula dos dias os pode salvar da tempestade que o espelho, teimoso, devolve.
As almas vendam os seus deuses - cegos esperarão - e deixam-se seduzir pelo esplendor da festa; fingem-se eternas ainda que desfeitas, como recém-saídas de um naufrágio de sangue.
Bau Pires, Porto
Peguei no verso "Sentir tudo de todas as maneiras" do poema "Passagem das horas" do Álvaro de Campos, liguei-o com uma prosa atabalhoada minha e fechei com "como recém-saídas de um naufrágio de sangue" do poema "Aurora de Nova Iorque" do Garcia-Lorca.

Ai quem me dera uma feliz mentira
para que meus dias fossem felizes
Pudesse sorrir, ser feliz
Pudesse sorrir à vida, a mim mesma
E encontrar-me,
Encontrar-me
A mim e a ti
Que perdi
Mas encontro-te dentro e fora de mim
Quem me dera uma mentira
uma feliz mentira
Para que com essa feliz mentira 
O meu coração descanse enfim e te encontre
Mesmo sabendo que já te perdi
E quanto mais te perco mais te encontro
Ana Mestre, 36 anos, Portugal
Ai quem me dera uma feliz mentira – Florbela Espanca in Mensageira de violetas
E quanto mais te perco mais te encontro – Manuel Alegre in Obra Poética

Não tenhas medo do amor
Pois no mar das colheitas
e na contemplação dos dias
vivo ansioso pelo calor dos teus lábios,
Sinto o prelúdio dessa melodia 
Que ganha forma e cresce como o trinado 
Do rouxinol na madrugada
Sonho para que o amanhã regresse 
E antecipe a primavera
Como primícias no veludo do teu corpo...
Encontrar essa fonte desejo
Quando nas tuas mãos desertas
Me deste a conhecer
O sol e o vento no teu coração!
Alda Gonçalves, Porto
Não tenhas medo do amor - in Poesia Reunida (2012),  Maria do Rosário Pedreira 
O sol e o vento no teu coração -  Poema Orgasmo in Diário V,  Miguel Torga

Pelo sonho é que vamos onde queremos. Alegres e felizes perante o sol radiante e esplendoroso.
O sonho é como o sol que se esconde, mas nunca pára de brilhar.
Sonhamos em acabar com a fome, a guerra e a tristeza.
Sonhamos com um mundo melhor e mais justo, onde todos tenham um emprego decente e onde todos os sonhos se poderão concretizar.
Os sonhos mágicos das crianças vão subindo para os astros como um grito puro.
Texto coletivo – EB Veiros – 3º /4º ano, professora Carmo Silva
“Pelo sonho é que vamos” – Poema “Pelo sonho é que vamos”, de Sebastião da Gama
“Subindo para os astros como um grito puro.” – Poema “Mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen

A maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si próprio.
Assim pensava Lourdinha ao ver um motoqueiro atropelado na rua.
As pessoas pararam em silêncio e movidas pela curiosidade, sem ajudar.
Até ela se viu paralisada diante do acidente.
Esqueceu-se dos seus problemas.
Mas um fato deixou Lourdinha com mais esperança na humanidade: um menino correu acudir!
Por essa ela não esperava!
Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.
Anne Lieri, Brasil
1ª frase de Albert Einstein, a última de Guimarães Rosa

Como tu, filha, também já fui menina. Saltei à corda e ao elástico, corri por entre ervas e pinhais, joguei às escondidas, como se a vida fosse uma brincadeira sem fim.
Os anos passaram, céleres. Olho o espelho. Não me reconheço, não te reconheço.
Da minha janela espreito o relógio da igreja na esperança que me devolva o tempo perdido para que esse tempo me devolva a memória. Hoje, não sei quem sou. O universo ficou vazio.
Ana Paula Oliveira
Ana Luísa Amaral, do poema intitulado “Como tu”, in Como tu (2012)
Cecília Meireles, do poema “No meio do mundo faz frio”, in Mar absoluto (1945)

Aguarda sozinha a secreta manhã, enquanto a silenciosa noite, trabalha espalhando escuro por toda a parte. A noite, como é costume, fica envergonhada e esconde-se nas estrelas. Já a manhã chega toda vaidosa com o sol nos seus cabelos. A manhã e a noite às vezes não se dão bem, mas, quando fazem as pazes, a noite com um regador molha o sol que a manhã usa, formando um arco-íris. Lá se foi a chuva toda apressada
Marilyn (9 anos) – EB1 de Lamas1 (professora Conceição Ferreira)
1º Verso: Maria Rosa Colaço – Poema “Quando vem a noite”
2º Verso: António Mota – “Canção de Natal”

Guardo a memória do tempo
Alegria, Tristeza, Felicidade
Feliz por ter nascido
Amada por madrinha e mãe

Depois…
O Terror e a Revolta
A vítima tem o direito e a obrigação
De denunciar a agressão
Para proteger outras mulheres

De Dia ou Noite
O medo de sair à rua

Da Revolta …
Tristeza Profunda
Ir à luta e vencer
Lutar e ultrapassar obstáculos

Tenho direito à Felicidade
Marido, Filha e Filho maravilhosos
Tudo na minha vida é intenso
Cristina Lameiras
Ana Paula Tavares do poema intitulado “Origens” in Dizes-me coisas amargas como os frutos
Luísa Vaz Tavares do poema intitulado “De mim, apenas” in Doçuras e Amarguras

Na areia branca, onde o tempo começa, o sol brilha!
O mar azul e salgado salpica os meus pés… e eu fico feliz! O barulho das ondas acalma os meus pensamentos e eu permaneço, ali, a olhar para o infinito.
O que será que há para lá da linha do horizonte? Um tesouro? Uma ilha fantástica, com animais extraordinários?
Haverá, de certeza, tudo o que a minha imaginação quiser. E hoje, apetece-me ver amores-perfeitos de muitas cores…
 3º B da EB1 nº 3 de Viseu – Massorim (professora Filipa Duarte)
Na areia branca, onde o tempo começa, in As Palavras Interditas, de Eugénio de Andrade
Amores-perfeitos de muitas cores, in Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles

O poeta é um fingidor que chega a fingir que é dor.
Que finge estar bem para agradar a alguém.
Que se mostra sorridente quando não está contente.
O poeta comete erros como qualquer comum mortal.
Mas tenta esconder para que não lhe desejem mal.
É alguém que em folha branca se expressa.
Mas os defeitos não podem ser evitados nem devem ser escondidos.
Porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
Tatiana Leal, 15 anos, Portugal
Fernando Pessoa - “O poeta é um fingidor que chega a fingir que é dor”
Clarice Lispector – “Porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

De todos os cantos do mundo, trouxe aquilo que me pertencia. Procurei e cravei na alma as memórias de uma vida. O cheiro, o mar salgado, a procura pela liberdade, os pés descalços na areia quente. Perdi-me nessa vontade insaciável de ir mais além, mais longe de mim mesma. Sobrava o mundo, e dele, queria tudo. A luz, o medo, a cor, o frio da brisa de quem vive livre. Tudo o que tinha fugido do céu.
Inês Costa, 19 anos, Portugal
De todos os cantos do mundo – Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen
Tinha fugido do céu – Num meio-dia de fim de primavera, Alberto Caeiro

A noite vem poisando devagar e a leve brisa traz-me a sensação de ti, a vontade imensa de respirar os gestos e os dizeres que te pertencem. Sinto ainda os teus lábios nos meus e o calor do teu abraço. Só os meus olhos não vêem os traços do teu rosto, o respirar do teu dormir. Mas ouço ainda o riso largo da felicidade e as palavras esgotam-se, agora, que o silêncio é um mar sem ondas.
Sandra Évora
A noite vem poisando devagar - Noite de Saudade - Florbela Espanca
agora, que o silêncio é um mar sem ondas - Súplica - Miguel Torga

Era pedra e sobre essa pedra um homem em pé, estático, parecia esculpido em pedra.
De repente, um soluço estranho, estrangulado e muito, muito angustiante, soltou-se do seu peito. O ruído daquele soluço sufocante afastou uma ave que ali pousara. Folhas de árvores caíam, docemente, sobre a pedra, comungando daquela dor acre e profunda.
O homem continuou ali, ainda por algum tempo, rosto fechado e contraído por insuportável dor.
E eu paro a murmurar: Ninguém o viu”.
Dorinda Oliveira, 72, Arrifana, Santa Maria da Feira
Do poema “Até ao fim do mundo”, Natália Correia
Do poema “Em busca do amor”, Florbela Espanca

Está no pensamento como ideia enraizada que não desaparece. Torna-se turbulenta como a força da natureza. Aquela vontade imensa de percorrer o mundo sobre a terra e sobre o mar na busca do ser e do infinito. Na paz do silêncio, o murmúrio das ondas, o canto das gaivotas. O horizonte longínquo e o abraço do tempo a chamar por mim. Os passos do meu coração que se arrastam até o apertar daquela hora sagrada dum entardecer.
Vanda Pinheiro
Camões, Rimas. - Está no pensamento como ideia. +
Florbela Espanca, Livro das Mágoas, As minhas ilusões (1919) - Hora sagrada dum entardecer.

Dei-te a Mão!
Enquanto eu for eu, e tu fores tu, espero curar-me de ti; do que sinto e não sei nomear; da necessidade de te ver.
Que estamos a fazer?! Sabê-lo-emos?
Seduziste-me. Inicialmente não percebi. Quando suspeitei, perguntei-te. Subtilmente, disseste o que não queria ouvir. Delicadamente, respondi: não.
Afastámo-nos. Ficaria a amizade.
Há dias surgiste. O amigo, a quem inocentemente dei a mão. Inesperadamente, desse toque emergiram sentimentos.
Onde ficou o tempo da ausência? Naqueles que esperam por nós.
+
Desconhecemo-nos 
Pousa as mãos nos meus olhos, com carinho. Entre nós um abismo separa-nos; um sentimento une-nos.
Não nos conhecemos. Tentámos, com palavras, dizermos,  delicadamente, as emoções vividas.
Fugi! Pensar no acontecido. A distância física, tornará lúcida a amizade que fingimos?
Percebeste o espanto no meu rosto?! Meses depois: surpresa e incredulidade!
Hoje, senti a tua falta. O teu silêncio. Simboliza afastamento, desistência? Entendeste a impossibilidade da relação, desejada (?!), sem alterares a tua vida? Será tudo mesmo assim?
Isabel Pinto, Setúbal
"Eu Não Sou de Ninguém", Florbela Espanca, Literatura portátil,pág.17
"Poemas Escolhidos" António Gedeão, Edições João Sá da Costa, pág.19

Flora e a Vida...
Imitem as árvores do caminho.
Erguem-se no espaço, orgulhosas! Dão-nos, sem pedir nada em troca, os seus 
frutos, a sua sombra acolhedora e paz.
Algumas, oferecem-nos a sua casca "a cortiça", com que se fabricam objectos 
lindíssimos, para alem das suas outras utilizações..
Quando há incêndios, que desoladora sensação de perda. Foram seres vivos,
úteis e indispensáveis, que ficaram em carvão.
Chega o Inverno. Regra geral caem as folhas.
Poesia de inverno; poesia do tempo sem deuses.
Arminda Montez, 75 anos, Queluz
Primeiro verso – Obra Poética Completa 1º Volume de José Gomes Ferreira
Segundo verso – "Antologia" de Sophia de Mello Breyner Andersen

Nada que vale a pena é fácil. Perdi-te na rebeldia da vida e embora estivesses longe queria ter-te de novo aqui, ao meu lado. Todos os dias observava-te no virar da esquina com a esperança de que me visses. Frequentava o nosso café habitual e quando entravas pela porta corria ao teu alcance e tentava que escutasses palavras arrependidas. O meu erro tinha sido grande de mais, contudo a esperança de perdão prevalecia. Afinal, o perdão conquista-se.
Ana Sofia, 15 anos, Porto 
Nesta história, duas frases:
Nada que vale a pena é fácil – Nicholas Sparks
O perdão conquista-se – Lesley Pearse

Creio no Amor mesmo quando não o abraço porque me preenche o coração.
Creio na Amizade, mesmo se for traída, porque perdoo aqueles de quem gosto
Creio na vida, no Sol, na Lua, na força do Universo, na Magia...
Creio no poder dos Deuses quando acordo, e nos fantasmas que me atormentam a noite.
Creio nas palavras que escrevo porque me enchem de emoção
E creio que nenhum destes sonhos é meu embora eu os sonhe assim!
Isabel Lopo, Lisboa
1º verso – José Tolentino Mendonça, Estação Central
Último verso – Fernando Pessoa, Poesias inéditas

À hora X no café Portugal.
O aroma de café deixou-nos cair na tentação de bebermos um cafezinho.
Na montra estavam expostos, ao lado uns dos outros, salgados, bolos e outros doces sedutores. 
Ao vê-los começou-me a crescer água na boca.
Encomendei um bolo que já tinha provado antes. Era o Pão de Deus. Já o nome me leva em êxtase, tem a cor da manteiga e o sabor da amêndoa. Delicioso!
Este país te mata lentamente.
Mário Cesariny – rua 1°de dezembroà hora X no café Portugal
Sofia de Mello Breyner Andresen – Camões e a tença – este país te mata lentamente
Theo De Bakkere, 60 anos, Antuérpia, Bélgica

Quando eu me sento à janela:
penso em tudo o que não tenho e queria ter;
vejo tão bem a vida a passar,
não consigo agarrá-la como queria,
não consigo trincá-la como me apetecia!
É noite e o camião do lixo ensurdece os corações abandonados
trancados, apaixonados, conformados, desesperados…
Difícil mudar um ritmo que se enraizou,
a monotonia que se colou
numa voz que só quer gritar prá folha um verso:
E será um verso de amor…
Isabel Pereira da Costa, 46 anos, Paris, França
Versos: Fernando Pessoa, “Quando ela passa” (in Poesia I, 1902-1929, 3ª ed., Pub. Europa-América); Alexandre O’Neill, “Poesia e Propaganda” (in Poesias Completas, 1951/1986, INCM)

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, voltariam as borboletas e os passarinhos e desapareceria o inverno em que vivo. Não vês o quanto sofro? Não percebes o mal que me fazes? Preciso de sol, de calor e não desta escuridão sombria e fria que me congela o coração. Não sei mais viver, arrasto-me pela vida que um dia me sorriu. Devolve-me a esperança, faz-me renascer. Preciso que venhas, para em ti me encontrar e me perder.
Paula Fialho Silva, 34 anos, Badajoz
Florbela Espanca, “Se Tu Viesses Ver-me…”, Charneca em Flor (1931) - Se tu viesses ver-me hoje à tardinha
+
Manuel Alegre, “Teoria do Amor”, Obra Poética (1999) - para em ti me encontrar e me perder.

Pus o meu sonho num navio
Ao leme o meu coração
Na proa um desígnio
Para um mar infinito navegarão
Sem dor, sem mágoa,
Sem espírito de alienação
Mas com esperança e determinação,
Sabendo que um dia alcançarei
Com a força de tanto velejar
A liberdade, a segurança que sempre almejei
Harmonia, lealdade a não faltar
E por um lugar ao sol. Porque não lutar?
E noites mágicas, ao luar,
Sonho, magia?
Abençoado seja se lá chegar.
Carla Simões, 45 anos, Esch-sur-Alzette, Luxemburgo
“Pus o meu sonho num navio”, Cecília Meireles, poema "Canção"
“Abençoado seja se lá chegar”, Eugénio de Andrade," poema "Ver Claro"

Não vejo nada assim, enlouquecida
Nada faz sentido a meu ver
hoje estou mesmo aborrecida
Quem me dera encontrar um sentido para o meu viver.

Recordo-me da minha infância 
Quando nada era difícil
E não havia maldade nem ganância 
Diziam que era uma menina dócil 

Mas estou disposta a mudar
Cansada estou deste maldito desprezo
Devo deitar tudo fora, nada pode ficar,

até que finalmente fechei os olhos e sonhei
e tudo era possível era só querer !
Sandrina Barbosa, 17 anos, EPE Luxemburgo, prof. Carla Simões
1º verso – Florbela Espanca; último verso  – poema “E tudo era possível”,  Ruy Belo.

 Cerca de grandes muros quem te sonhas                             
Sonho momentos de tristeza, de melancolia
De alma, de corpo me entreguei
De olhos fechados nela confiei

Com a cabeça na parede bati
Ao perceber o desperdício
que foi confiar em ti

Hoje, começo a vida do inicio
Vou caminhando ao longo das estradas
Procurando afundar as minhas mágoas
  
sem perder esperanças de um dia voltar a amar
Sou de novo um sonhador
Em que soluço a delirar de amor 
Erika Ribeiro, 17 anos e Cláudio Magalhães, 18 anos, EPE Luxemburgo, prof. Carla Simões
1º verso – “Conselho” de Fernando Pessoa; último verso – Florbela Espanca 

Busca sem querer
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Nem sei se quero.
Maçã de pecado?
Tempo de agosto?
Ou rumba sem corpo?
Nem sei sequer se quero.
Mas procuro.
Laranja agreste em boca sem dor?
Outono verde em palha sem cor?
Dança cantada em tempo de amor?
Nem sei sequer se é isto que quero.
Fruto quadrado? Nuvem em linha? Redonda música?
Ou apenas o mundo?
Sei tudo. Sinto pouco. Faço nada.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
1º verso – Procuro-te, in As Palavras Interditas, Eugénio de Andrade
Último verso – Hora, in Dia do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen
Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa  

Sonhei ter sonhado
Que eras o meu lindo namorado

Estavas sempre ao meu lado
Sempre apaixonado

Apesar de te ter muito magoado
Nunca me tinhas deixado
Ó meu bem amado

Tu que ainda não estás casado
Ó pá, casa-te comigo
Protege-me do perigo

E escuta o que eu te digo
Ó meu bem amado

Quando acordei
Nada disso era igual
Pois quando te chamei
E te gritei
Só me lembrei 
Que o meu sonho é sempre igual
1º verso in «Tema e variações» de Manuel Bandeira
Último verso in «Ao passar o navio» de Miguel Ângelo e Fernando Cunha
Sophie Pinto, 13 anos e Jessica Gonçalves, 14 anos, Collège Pierre et Marie Curie, Section Portugaise, turma A, 8º ano, Le Pecq, França, prof. Isabel Pereira da Costa

Sonhei ter sonhado
Numa noite de verão
Nesse baile tão encantado
Encontrei esse ladrão
Que me roubou o coração

Sonhei ter sonhado

Numa noite de verão
Nossa dança interminável
Tanta imaginação me encheu o coração
Sonhei ter sonhado

Numa noite de verão
No mais profundo do meu coração
Sentir essa coisa assim
Que me atormentou em mim

Sonhei ter sonhado

Numa noite de verão ao passar a minha vida
Percebi
Que o meu sonho é sempre igual

1º verso in «Tema e variações» de Manuel Bandeira
Último verso in «Ao passar o navio» de Miguel Ângelo e Fernando Cunha
Alexandra Gonçalves e Mathilde Paranhos, 13 anos, Collège Pierre et Marie Curie, Section Portugaise, turma A, 8º ano, Le Pecq, França, prof. Isabel Pereira da Costa

Sê paciente; espera
A noite vai caindo
A lua vai subindo
A escuridão vai surgindo
Os homens vão dormindo
As mulheres vão rindo
As crianças vão sonhando
Os gatos vão miando
Os lobisomens vão uivando
Ai os passarinhos assobiando
Os cães ladrando
Com este poema vou fugindo e
os sonhos vão partindo
e com o Ronaldo a marcar
aquecidos por calor
Como a fé e como o amor.

1º verso in «Conselho» de Eugénio de Andrade
Último verso in «Curiosidades estéticas» de António Botto
Turma do 10º ano, da Secção Portuguesa do Liceu Internacional de Saint-Germain-en-Laye (30 alunos de 15 e 16 anos), Saint-Germain-en-Laye, França, prof. Isabel Pereira da Costa

Um dia num restaurante, fora do espaço e do tempo, pedi o prato do dia.
Enquanto saboreava a minha refeição, deparei-me com um cabelo no molho da francesinha. Chamei imediatamente o empregado de mesa, contei-lhe o sucedido. Logo vem o gerente à minha mesa para esclarecer o incidente. Explicou-me que tal situação era impossível no seu restaurante e recusou qualquer tipo de recompensa.
Irritada, dirigi-me novamente ao gerente e disse-lhe:
Lá nessa é que eu não caio!
Primeiro verso: Dobrada à moda do Porto, Fernando Pessoa    
Último verso: Impossível, Cesário Verde
Andreia Cavaleiro, 17 anos, Lycée de Garçons,  Esch-sur-Alzette, Luxemburgo, prof. Carla Simões

Mísero Destino
Os bons vi sempre passar,
com certo amor no olhar.
Evadidos em seus pensamentos
Muitas vezes revivendo momentos.

De um lábio tremido,
um pouco mordido
Depois de um beijo sentido
E certo tempo perdido.

Sorriem sem sorrir
Pensam sem pensar
naquelas memórias
que um dia vão relembrar.

Enquanto caminham
nem adivinham
a amargura que os acarinha.

Pois o amor
não perdura enquanto
eles pela calçada
Avançam
Sem razão, compreensão
da situação
do nosso grande e mísero Destino!
Sara Moreira, 16 anos, Lycée de Garçons-Esch-sur-Alzette, Luxemburgo, prof. Carla Simões
Desconcerto do Mundo – Luís de Camões
Voz que se cala – Florbela Espanca

Saudades! Sim…  talvez… e porque não?...
A distância que de tudo nos separa
Faz com que tudo vá em vão
Tal como as letras de uma canção

Talvez este amor permaneça
Assim por muitos anos e que seja eterno
Ou então simplesmente desapareça
Assim como as chuvas no inverno

Porque é tão dura esta amizade
Tudo o que nos resta é saudade
Já nem um pingo de felicidade
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Primeiro verso – Florbela Espanca, último verso –Luís de Camões
Ana Sofia Maia Maricato e Sílvia Ribeiro Monteiro, 16 anos, e Wendy Sousa Correia, 17anos, Lycée Athennée, Luxemburgo, prof. Carla Simões

É a hora!
O senhor diretor administrativo vem visitar-nos e nós jamais poderemos falhar. Se falharmos agora, nunca mais teremos ajudas financeiras da parte daquela agência bancária. Estamos prontos, a sala está arrumada e bem ordenada. A empregada está pronta para providenciar todas as necessidades físicas ao diretor.
Este acabara de chegar, quando a empregada de imediato lhe perguntou se ele queria beber alguma coisa. E ele respondeu-lhe de forma lacónica e calma:
– Não, não quero nada.
1º verso – Florbela Espanca; último verso – Fernando Pessoa
Daniel Coimbra, 16 anos e Pedro dos Santos, 17 anos, Lycée Athénée, Luxemburgo, profª Carla Simões

Não sei se é sonho, se realidade,
Será que estás a dizer a verdade? 
Ou não estarás a sonhar?
Mas que lindo luar, 
Que está no ar, 
Assim numa noite escura. 
Ai! Nesta vida tão dura. 
Dá-me a tua mão! 
Não sentes essa paixão, 
Que está no coração? 
Inocência ou mesmo resistência, 
onde lágrimas vivem eternamente. 
no teu amor ardente. 

Mas só há uma solução,
Para essa cura 
e amor é feito de alma e sempre dura.
Isto/Fernando Pessoa
Elegria a D. António de Noronha/Luís de Camões
Caroline Quiaios e André Nogueira, 16 anos, Jessy e Márcio Araújo, 17 anos, Lycée Athénée, Luxemburgo, profª Carla Simões

A chegada tão esperada
Foi um momento de muita espera que parecia não terminar. Há horas infinitas que aguardo por ti, minha querida filha. Dia e noite, os meus pensamentos giram à tua volta. Eu sei que nunca nos demos bem e que desde aquele dia nunca mais nos vimos ou falamos. Porém, ainda tenho a esperança que um dia nos possamos olhar, olhos nos olhos. E finalmente o meu sonho tão desejado realizou-se: És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!

Foi um momento / Fernando Pessoa / Isto p. 86
És tu! És tu! Sempre vieste, enfim! / Florbela Espanca / Sonetos p. 144
Catarina Mouriz, 17 anos, e Alexandre Ribeiro Fonseca, 16 anos, Lycée Athénée, Luxemburgo, profª Carla Simões

Cheio de horror e cheio de desordem
Assim o meu mundo se encontrava,
na hora em que partiste!
Devastada, sem reação,
que mais poderia fazer?
Os dias passam, mas continuo a recordar-me de ti!
Sei que irás estar sempre comigo
mas a mágoa jamais passará!
Naquele tempo era feliz,
apenas não o sabia.
Agora também o sou,
apenas não da mesma forma!
Tudo desvaneceu,
 mas tu aqui continuas,
inesquecível, grandioso,
perfeitamente imperfeito,
conhecido no mundo e nomeado.
Liliana Macedo, 15 anos, Ovar
"cheio de horror e cheio de desordem", obra poética I Assassinato de Simonetta Vespucci – Sophia de Mello Breyner
+ "Conhecido no mundo e nomeado", canto 2º Lusíadas - Luís de Camões 

Vagabundos
“Olhai o vagabundo que nada tem”
Como é triste não ter nada neste mundo
Sem casa, sem família sem um bem
Que desolação e sofrimento profundo

Irmão como é triste o teu destino
Vem comigo matar a sede à fonte
Como lamento que não tivesses sido menino
Dá-me a mão e vem olhar o horizonte

Eu ando nesta vida à procura dum amor
Também estou só à deriva, eu parti
“Tenho pena de mim… pena de ti…”
Maria Silvéria dos Mártires, 68 anos, Lisboa
O primeiro verso é de Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940
O último verso é de A Minha Piedade, Inéditos, os últimos poemas de Florbela Espanca

Eles não sabem que o sonho doí como a vida. O sonho, como a vida, traz-nos alegria, tristeza, êxtase, agonia, dor e sabor. Sonhar é uma forma de viver algo nunca vivido, ficando no limbo, mas sempre desejando viver. Não se arrisca, receando sofrer vivendo.
Sonhei com ela, entrelaçada no corpo do outro. Sofri dormindo, estremunhado, atónito acordei e no seio da lucidez continuei a sofrer. Verdade? Não sei! Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Eles não sabem que o sonho - "Pedra Filosofal” de António Gedeão
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. - "Tabacaria” de Fernando Pessoa
Fátima Fradique, 40 anos, Fundão

Não me importo com as rimas. Raras vezes há duas árvores iguais. Nem com os versos serem versos, prefiro as palavras em desalinho, como o vento. Como o voo de uma ave, sem começo e sem fim. Porque a poesia não se objeta, concretiza  ou deteta. Compreende-se pelo que se sente no seu todo e não se interpreta, Detesta o relógio do tempo, destrói-o e não o alimenta. Sem ontem nem amanhã. A poesia é o presente.

“Não me importo com as rimas. Raras vezes há duas árvores iguais” – Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) in "O Guardador de Rebanhos - Poema XIV"
“A poesia é o presente.” Ferreira Gullar, in 'Antologia Poética'
Constantino Mendes Alves, 56 anos, Leiria
Esta é a história – Manuel Alegre, livro A terceira rosa
+
O amor vence tudo – Sharon Mcgovern, livro Apavorada

Esta é a história de um amor cruel. Um amor que passa por mim sem me ver, sem me tocar, sem sequer existir. E, eu cá estou, parada e paralisada no dia em que me deixaste entregue ao mundo. Eu cá estou sem estar! Vivo por viver, e já nada faz sentido, apenas aquele punhal que me empurra, dia a dia, contra as grades. Não sou quem gostava de ser, mas acredito que o amor vence tudo.
Ana Sofia Cruz, 17 anos, Porto

Riso de paraíso
Era assim... O teu sorriso apagava a luz do dia. E tua existência preenchia a minha na total exatidão.
Ao toque invasivo de teus olhos: clarões, radiosas sensações.
E se respiravas bem próximo do meu cheiro, um quase morrer me acudia.
Navegava, náufraga por completo em te pertencer. E meu tempo, corpo, alma e pensamento pertenciam ao amar, perfeita inexata exatidão...
Tudo, porém foi efemeridade.
Como a pequena morte, o culminar. Se ao nos matar nos nasce... 
Textos:
O teu sorriso apagava a luz do dia - Fazes-me falta - Inês Pedrosa
Se ao nos matar nos nasce - Mulheres Eduardo Galeano
 Roseane Ferreira, Estado do Amapá, Macapá, Extremo Norte do Brasil

“Levando um velho avarento”
Umas notinhas na mão,
Cambaleou e caiu,
Estatelado no chão!

Observando esta cena
Dois mancebos ao passar,
Trataram-no com respeito
Ajudando-o a levantar!

Com a cara esfacelada,
Muito sangue e ferimentos,
Queriam levá-lo ao doutor
Para fazer tratamentos.

O avaro logo disse: Pagar?
P´ra coser cara e cabeça?
Antes levar a reforma
E perder “alguma peça.” 

Sem poder acreditar, 
Afirmaram mesmo ali:
Guarde bem o seu dinheiro
“E boa sorte para si”…

O Velho Avarento, primeiro verso de uma poesia de Bocage (Levando um velho avarento), e segundo verso do Livro "Equador"  de Miguel de Sousa Tavares (E boa sorte para si)
Maria do Céu Ferreira, 59 anos, Amarante

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor! Desenlaça-te de mim se assim o desejas. Já não sinto nosso amor em dobro. Perdi-te ou perdi-me, que importa? Embala-nos o desencanto que desenhaste a cada dia que não me amaste. Desejo-te todo meu, não por metade. Percebo-te desencantado. Se meu amor é maior que a dor de te ver partir, vai… deixa-me olhar-te… e ver em teu rosto…Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Amélia Meireles, 62 anos, Ponta Delgada
Rasga esses versos que eu te fiz, Amor! “Os meus versos” Florbela Espanca
Ah a frescura na face de não cumprir um dever! “A frescura” Álvaro de Campos

A cidade tem praças de palavras abertas, de meninos jogando futebol, de mulheres falando e falando sem terminar, de homens fumando, de carros voltando uma e outra vez pelas mesmas ruas, de janelas guardando os amores dos namorados. A cidade é um conto de mil e uma histórias. De noites sem relógio, de mães chamando os seus filhos. E ao fim? Ao fim, fica vazia, num silêncio a grandes vozes. Ao fim é fácil trocar as palavras.
León, 54 anos, Pobreza, Guiné Bissau.
1º verso, Ary dos Santos; 2º verso, Fernando Pessoa

Tenho razão de sentir saudade!
De lastimar a fortuna, estou farta!
Foi maldade! Foi maldade!
Insólito acontecimento
que me arrebatou o contentamento!
Deste então, sem que perceba a razão,
O meu semblante gelou,
Minha mente parou.
Enegreceu meu coração.
Esvaiu-se pra sempre o rio de amor…
Ai, esta dor… esta dor…
(Dou por mim a amargurar em nostalgia)
Chega! Basta!
E por isso, declaro veemente neste dia,
imersa em ressentimento e melancolia,
Que a saudade não compensa!
“Tenho razão de sentir saudade” «A Um Ausente» Carlos Drummond de Andrade
“Que a saudade não compensa” «Tomara» Vinicius de Moraes
Andrea Ramos, 39 anos, Torres Vedras

Os navios existem, e existe o teu rosto
Existe a Terra, e existe o Céu
Na boca da lua
Vejo o teu reflexo puro
Radioso 
Quase inacessível
É aqui que tudo muda
A minha alma errante
Parte sem medo
Sem medo da inadiável procura
E inventa mil caminhos
Ladeados de lilases
Desenhados pelo vento
Sinto o mar esgotar-se no corpo
E é neste momento que eu
Me abandono em ti
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa (1940) - Os navios existem, e existe o teu rosto
+ Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962) - Para atravessar contigo o deserto do mundo
Carla Augusto, Alenquer

A cena é muda e breve,
pode ser um reflexo de estrela ou um brilho de neve
Um sonho que nos damos em partilha
Um livro, uma cartilha,
um projeto feliz.
Que cresça como flor ou como árvore
E voe como sonho ou como ave,
Eu não sei
Mas terá sido amado e desejado
em profusão no meu olhar
como águia inicial ansiando a manhã,
verdes frutos por ser, agarrados à seiva
eterna, terna,
que a escreve.
Paula Coelho Pais, Lisboa, 54 anos
(Miguel Torga, Instante, - A cena é muda e breve. / António Ramos Rosa, Entre o Silêncio e o Espaço, in Horizonte Imediato (1974) - que a escreve.)

Pássaros
Os poemas são pássaros que chegam. Chegou um agora de manhã no meu computador, que ficou rosado, depois dourado, depois lilás e depois violeta.
Superaqueceu-se, explodiu, o pássaro saiu voando em círculos e fez ninho em mim, no coração.
Nasceram passarinhos-palavras, que mandei voando, rápidos, leves, para o outro lado do mundo. Eles pousaram noutro vídeo e de lá vão aninhar-se e multiplicar-se, graciosos, em emplumados filhotinhos, que novamente vão voar. Tem sangue eterno a asa ritmada.
Os poemas são pássaros que chegam.  Mário Quintana, "Os poemas"
Tem sangue eterno a asa ritmada. Cecília Meireles, "Motivo"
Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil.

ENTRAVA O MAR NO MEU QUARTO
Para comigo falar
Mas, desconfiada,
lá o deixei entrar.

Falou-me do segredo,
que eu queria revelar.
com um pouco de medo
comecei a contar.

És imenso e profundo,
revelo-to, com medo,
por tudo que há no mundo
guarda bem este segredo.

Vivo um amor perdido
onde me deleito,
que. por ser proibido,
trago-o escondido no peito.

Abri-te meu coração
para contigo partilhar,
não contes a ninguém,
NEM À SEREIA NO MAR.
Natalina Marques, 56 anos, Palmela
ENTRAVA O MAR NO MEU QUARTO
JOSÉ RÉGIO – fado – romance Vila do Conde
e
NEM ASEREIA DO MAR
ALMEIDA GARRET – Romanceiro – Conde Nino

Poema em grupo
Em cima do meu telhado
Existia uma canção
E com o passar do tempo
Se tornou uma paixão.

Em cima do meu telhado –
Não pude evitar –
A paixão foi morrendo
E eu tive de aceitar.

Agora, sem minha paixão,
Morrerei sem ninguém,
Cansado,
Sem sonhos.
Mas segue a viagem
E a vida também.

Felicidade levo nas malas
Junto com coragem
E esperança – cedo!

Amanhã será novo dia!
A vida é tão bela que chega a dar medo.

“Em cima do meu telhado” – Mário Quintana
“A vida é tão bela que chega a dar medo.” – Mário Quintana
 Letícia Galvão, Anne, Lucas H., Lucas M., Diogo, Fabrício, Marcos Fontenele, 13 a 15 anos, 8º ano A, CEF 04 de Brasília, prof Celina Silva Pereira, Brasil

A alma viajante
A minha vida é um barco abandonado
que, entre as matreiras ondas,
luta, bravio, soçobrando à deriva.

Tentando sulcar, airoso, perigosos escolhos,
prossegue, entre algas e limos,
as peregrinas sendas do seu sino.

Embala-o o enfurecido vento na noite escura
e, vagando como náufrago entre cinzentas névoas,
arribará, um dia, ao seu ermo destino.

E ao fim daquela longa viagem,
cansada já de tanto navegar, perguntar-te-ei:
aonde é que foste parar
alma minha gentil, que te partiste?
Mónica Marcos Celestino, 43 anos, Escuela Oficial de Idiomas, Salamanca (Espanha)
(“A minha vida é um barco abandonado” de Fernando Pessoa e “Alma minha gentil, que te partiste” de Luís Vaz de Camões)

Eles não sabem que o sonho
é um pensamento feliz,
umas vezes pode ser medonho
outras, emblemático como a torre de Paris.

Eles não sabem que o sonho
é um pensamento que nos ilumina
e que nos dá força
para atravessar a Muralha da China.

É um pensamento que nos dá tranquilidade,
que nos faz acreditar que é possível
subir à Estátua da Liberdade.
Atingir a plenitude da mente
e dizê-lo cantando a toda a gente!
Miguel Sousa e Pedro Teixeira, 12 anos, Escola Básica 2,3 do Castelo, Sesimbra, prof Carla Silva
O primeiro verso é de António Gedeão e o último de Florbela Espanca

Eles não sabem que o sonho
é o que transforma o mundo
mesmo que seja medonho
nunca nos deixa ir ao fundo.

Eles não sabem que o sonho
é um mapa por decifrar
para encontrar o caminho
e no mar não naufragar.

Eles não sabem que o sonho
alimenta a nossa vida
e dá luz à alma
de uma forma desmedida.

Desejo pôr-te comigo a sonhar,
envolver-te na minha mente
e dizê-lo cantando a toda a gente!
Juliana Panão e Margarida Gonçalves, 12 anos, Escola Básica 2,3 do Castelo, Sesimbra, prof Carla Silva
O primeiro verso é de António Gedeão e o último de Florbela Espanca

Eles não sabem que o sonho
é a chave da imaginação
e alguns, nem pensam, nem sonham
o quão maravilhoso é sonhar.

Um mar de realidades,
uma floresta de emoções,
universos paralelos,
um planeta de canções.

Tu aí, que pensas que os sonhos
são coisas banais,
digo-te que eles são os responsáveis
pela evolução e outras coisas que tais.

Sonhar é voar num céu imenso,
algo presente na nossa mente
e dizê-lo cantando a toda a gente!
Isadora Quaresma e Inês Garcia, 12 anos, Escola Básica 2,3 do Castelo, Sesimbra, prof Carla Silva
O primeiro verso é de António Gedeão e o último de Florbela Espanca

Santuários de amor, luzes sombrias. São assim teus olhos, simultaneamente poços de ternura e rebeldia, fontes de constante inconstância.
Mesmo não estando comigo, a recordação de teus olhos acompanha-me por todo o lado.
Teu corpo está distante, mas tua alma anda comigo, teu olhar vive dentro do meu coração, é o farol que me concede um brilho no escuro.
Mas, viver somente de lembranças é doloroso! A distância é mãe das saudades...
E que saudades, Deus meu!

Santuários de amor, luzes sombrias - verso extraído do poema "Olhos suaves, que em suaves dias", Manuel Maria Barbosa du Bocage;
E que saudades, Deus meu - verso extraído do poema "Balada da neve", Augusto Gil.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Círculos
Pelos teus círculos
Vagamos sem rumo.
Oh, doce vida,
Onde iremos parar?
Rodando e dando voltas,
Fico pensando
Onde as voltas infinitas
Vão me levar?
Para onde, não sei,
Uma hora em um lugar
Vou chegar.
Nessa caminhada
Alguém especial
Vou levar.
Quando ao destino chegar,
Sozinha não vou estar.
Assim os círculos infinitos
Vão me guiando
para algum lugar.
Seguir em frente,
Somente circular
E perguntar.
Onde iremos parar?
Oh, vida, por você
Vagamos sem rumo.
Maísa Luana, 13 anos, 8º ano, CEF 2 de Riacho Fundo 2, Brasília, Brasil, profª Celina Silva Pereira.
“Pelos teus círculos/vagamos sem rumo.” José Paulo Paes

Escola
Vagamos sem rumo
Pelos corredores da escola,
Inspirados e cansados
Dos dias de aluno.

Cada aula um novo aprendizado,
Com colegas e professores
Continuamos,
motivados.

Entre salas de aula
Cheias e vazias,
Encontramos o nosso
Lado da vida.

Com várias atividades,
Descobrimos amizades,
Histórias da alma
E do tempo.

Olhando para o quadro,
De certa forma vemos
O nosso futuro.
Oh, escola afinal
Achamos o rumo.

Aprendemos em ti,
Grandes lições para a vida.
Pelos teus círculos.
Érika Cipriano, 13 anos, e Samara Tavares, 14 anos, 8º ano, CEF 2 de Riacho Fundo 2, Brasília, Brasil, profª Celina Silva Pereira
“Vagamos sem rumo”, “Pelos teus círculos” – José Paulo Paes

Purpurina e glitter
Pelos teus círculos
Vagamos sem rumo
À procura das mercadorias,
Cores e variedades
E opções de consumo.

Luzes, cores e sons!
Estou sendo induzida
A entrar e comprar.
Não quero nem ver
Quando a conta chegar.

Cada andar um tiro,
Cada loja um túmulo.
Não quero nem ver
A cara do meu marido.

Purpurina e glitter
Chamam minha atenção
Queria levar tudo
Mas não tenho dinheiro, não.

Meu Deus, até quando?
Oh, quando chegará
A grande liquidação?
Marielly Sales, 13 anos, e Anna Gabriela, 14 anos, CEF 2 de Riacho Fundo 2, Brasília, Brasil. Profª Celina Silva Pereira.
“Pelos teus círculos/vagamos sem rumo” -  José Paulo Paes.