21 novembro 2017

Elsa Alves ― desafio RS 34

Sonhar designa sempre uma experiência de transformação. Mesmo sem consciência disso, os que sonhamos, ficamos expostos a algo de misterioso ou de maravilhoso, com consequências imprevistas sobre a nossa própria existência. O sonho devolve-nos a imensidão do absoluto; coloca-nos à escuta do inaudito; desprotege-nos das armaduras de todo o tipo que, habitualmente, nos revestem; avizinha-nos, temerariamente, do verbo nascer, esse que, cada vez mais, implica a tremenda ousadia do esvaziamento e a travessia simbólica para a morte.
Elsa Alves, 69 anos, Vila Franca Xira
Desafio RS nº 34 – frase de Mia Couto


Eurídice Rocha ― desafio 34

Culpa tem fim.
Acontece sentirmos esquinas que nunca cogitámos existirem. Vivemos pacientemente a sentirmo-nos atrapalhados num espaço insuportável. Não sabemos se vamos ralhar ou aconselhar, olhar por cima do ombro ou consolar com frases gastas na brisa, … queríamos o tempo passar depressa e que não ponderássemos tal acontecer connosco. Fugimos procurar esquecer. Há um frenesim que nos rouba o sono com recordações simples, a repetirem constantemente frases torturantes. Tantos sítios desgastados…
Respiro fundo… busco contar estrelas sonhadoras… em serenidade!
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra
Desafio nº 34 – grelha de 16 palavras obrigatórias


Maria do Céu Ferreira ― desafio 122

Verdadeira Melga
Um mosquito voador
Gostava de arreliar,
Era como um amor
Que se não quer afastar!

Cheirando aqui e além,
Procurava a Margarida
E sentia-se tão bem
Que não via outra saída!

Ora, cheia de picadas,
Ela afastou-o, enervada,
Ele caiu, batendo asas,
No seu leite com cevada!

― E este leite quentinho
Estava tão delicioso!...
Porque persistes bichinho
Tão enfadonho e teimoso?

Estrebuchando a valer,
Ele então falou assim:
― Se me deixares falecer
Nossa História chega ao fim…
Maria do Céu Ferreira, 62 anos, Amarante
Desafio nº 122 ― um mosquito no leite


Eurídice Rocha ― desafio 33

Rir ou chorar?
Cristina toda vida falou substituindo érres pelos guês. Tó-zé pedia-lhe "diz carro" ao que respondia-lhe"és tão malandgo"... riam em entrelaçada cumplicidade. 
Cristina tinha tia Elvira, endurecida pela frustração das escolhas que, "pareciam bem" aos olhos doutros, furaram-lhe visceralmente o coração. 
Cristina interrompeu chá perguntando afogueada "mamã, viste o meu bichinho da seda tguintei tguês?" "Que nojo, menina... diga 33", observou Elvira. Sentia nojo de quem?, chocou-se Cristina! Mamã escondeu bichinho esmagado pelo pé seco da tia.
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra
Desafio nº 33 – Pegando em “Diga 33”, ou qualquer outra versão do 33



Natalina Marques ― escritiva 26

Sentada no autocarro, ouvia a sua música preferida, suave e romântica, dos tempos que já eram idos, quando entra um grupo de jovens alegres, extrovertidos, como é normal, na idade da adolescência.
Mesmo com os fones postos nos ouvidos, conseguia ouvir o estrondoso barulho, que não podia classificar de música, pois ofendia os bons compositores.
Tirou os fones, e deixou que a melodia fizesse o milagre do silêncio. E conseguiu!!!
Foi assim o milagre da RÁDIO SIM.
Natalina Marques, 58 anos, Palmela
Escritiva 26 – mistérios da natureza humana


Guilhermina ― desafio 37

Meu nome é Lurdes.
Tenho um filho cujo nome é Luís e outro Filipe
Um é médico e o outro é engenheiro. Bem cedo corremos como loucos em redor do nosso condomínio. É simples. Queremos correr sem sermos vistos.
Depois seguimos pelo leito do rio, no bote bem juntinhos.
O Filipe como médico é o primeiro que desce. O Luís tem o percurso um pouco comprido. O meu é bem melhor. Estudo os movimentos do rio dentro do bote.
Guilhermina, 73 anos, Alhandra
Desafio nº 37 – uma história sem usar a letra A


Francisco Santos ― desafio 37

Eu, como tio de um menino muito lindo, prometo protegê-lo de seres vivos cruéis e perversos.
Como tio vou substituir os tecidos que se põem num bebé com depósitos nojentos que ele depositou.
No futuro eu quero que ele fosse um bom menino, que fosse bom com os outros seres vivos, que lhes tivesse respeito, com o deficiente e com o inteligente.
E deste modo o meu sobrinho pode ser um bom indivíduo e um bom homem.
Francisco Santos, 6ºA, 6ºA, Escola Dr. Costa Matos, prof Cristina Félix
Desafio nº 37 – uma história sem usar a letra A


Quita Miguel ― desafio 128

Serões de ontem e de hoje
Durante anos guardou segredos. Pasmada, releu o que a gaveta escondera no quarto materno. Azedume que a deixara amarga, idiotice sabia-o bem. Nem o sol punha termo àquela tremenda asfixia, que lhe apertava a garganta, lhe ocultava qualquer pequena réstia de esperança. Era como ficar com os velhos mistérios arquivados, destruindo histórias mágicas do rio, com que antigamente eram finalizados os serões. Hoje, as reuniões eram à volta da televisão e as conversas haviam-se transformado em monólogos.
Quita Miguel, 58 anos, Cascais
Desafio nº 128 – 12 palavras com 4 no meio
Faça aqui o download do conto «Sonho Esventrado» https://www.smashwords.com/books/view/595005

Guilhermina ― sem desafio

Linda de olho azul, estava escondida num canto.
Tinha sido maltratada ao pontapé, tendo as feridas bem visíveis na cabeça e corpo.
Foi descoberta por uma criança, que passeava com a avó ali à beira-mar.
O barco abandonado foi o refugio da Mimi.
Carlota estava a comer um queque e as maminhas do bolo caíram; ao ir apanhá-las lá estava a Mimi a comê-las.
Foi amor à primeira vista. A gatinha agora vive na casa da Carlota.
Guilhermina, 73 anos, Alhandra


Susana Sofia Miranda Santos ― escritiva 26

Eu sou uma apaixonada pela música, por isso, apresento como mistério da Humanidade, um estudo efectuado por dois investigadores da Universidade de Mc Gill, no Canadá, afirmando que realizar actividades laborais ouvindo música torna o ambiente mais agradável, aumentando consequentemente o rendimento produtivo.
A música reduz o nível de stress, eleva o grau de oxitocina, produtor de bem-estar físico, melhorando ainda o humor do ser humano, facilitando as suas interacções sociais.
O poder da música é fabuloso! 
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Escritiva 26 – mistérios da natureza humana


João Torres ― desafio 37

Estou muito orgulhoso com o sucesso do meu clube. O meu clube só pode ser o Porto. Tem desenvolvido um bom desempenho no solo. Penso que é sintético. Porém visto de longe é verde puro em vez do colorido do boxe. Porém nem só o futebol é o único desporto que me seduz, pois gosto muito de ciclismo. No futuro, o cicloturismo é um sonho que penso poder desenvolver.
De momento é tudo que me ocorre escrever.
João Torres, 6ºA, 6ºA, Escola Dr. Costa Matos, prof Cristina Félix
Desafio nº 37 – uma história sem usar a letra A


Domingos Correia ― desafio 129

Olá
As palavras podem ser afetos ou maldades… Um simples olá, sorrindo, embala-nos a alma e nós deixamo-nos levitar rumo à felicidade… mas há palavras e esgares que nos entristecem, nos tiram as forças e lá vamos nós, infelizes, chorando…
Olá soa a Natalino, a Natalnatalício… a outras palavras, como as que, antigamente, diziam os poetas nas serenatas cantadas às donzelas…
― Olá Tatiana… olá Anita
Olá… palavrinha tão antiga, tão simples, tão fácil… no entanto, tão mágica!
Domingos Correia, 59 anos, Amarante
Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA


Elisabeth Oliveira Janeiro ― desafio 129

Dos Sítios que Fascinam
Em direcção ao rio, firmadas em corredor atlante, as colunatas graníticas, iriam deixar-se enrolar pelas videiras que, nesta altura do ano, eram rubras de rubi. Ao longe, e ainda descarnadas, pareciam antas de triste porte, tangenciais ao solo obediente.
Havia a antropologia explicado eficazmente os povos por ali andados, fiéis e agradecidos ao pedaço natalino. Estudiosos tinham igualmente redigido antologia sobre o sítio digno de referência. E as nativas mais ilustres, tocavam sonatas de júbilo e gratidão.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 73 anos, Lisboa
Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA


Margarida Freire ― desafio RS 23

Umbelina acabou de arrumar a cozinha, olhou para o relógio e bradou:
― Co’ a breca, a esta hora ela já meteu pés a caminho. E eu ainda aqui, presa aos tachos e às panelas… Sorte mafarrica a minha!
Fechou a janela – por via dos gatos – e abalou porta fora.
― Senhora Bina, oh, senhora Bina… Que lhe aconteceu, Criatura? Aonde vai vossemecê nesses preparos?
Umbelina estacou. Olhou para as pernas… e ficou verde.
Não é que ia em combinação?
Margarida Freire, 75 anos, Moita
Desafio RS nº 23 – história de mulheres


20 novembro 2017

Ana Beatriz ― desafio 129

Eunice era violentada pelo marido. O filho pequeno e o respeito pelas tradições impediam-na de abandonar aquele antro. Após várias tentativas, acomodou-se num recanto, mas acalentava a esperança de ser feliz.  
Estava muito calejada, alguém a esmagara em lágrimas!
Um acidente despertou-a, voltou a acreditar.
Num dia de ventania, Eunice apaixonou-se perdidamente. Que tontice! Tanta alegria! Deixou de respirar ― sufocava, tremia ― fugiu.
Desencantadalamenta-se, mas perdoa-se. Mentaliza alguém que, curando as suas fragilidades, destape o seu fascínio.
Ana Beatriz, 39 anos, Lisboa
Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA


Chica ― escritiva 26

A natureza humana é comprovadamente cheia de mistérios.
Atualmente convites para reuniões, encontros de amigos e ou família, de repente, ao olhar para o lado, vemos pessoas cada uma com seu celular, absortos com o olhar na pequena telinha, e dedos ágeis digitando. Ao lado, cônjuges, mães, pais são relegados à segundo, terceiro ou décimo plano.
Há de se promover a volta à presença EFETIVA! Nada substitui conversas, trocas de opiniões ao vivo!
Haverá esse retorno? Tomara!
Chica, 67 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Escritiva 26 – mistérios da natureza humana


Elsa Alves ― desafio RS 33

A história deles começou num poema. Foi-se fazendo de palavras, imaginando-se para elas um rosto e escrevendo-se a vida com as cores de cada dia. Caíram ambos em muitas metáforas, em correntes que os levaram duma margem do rio para a outra; era, afinal, uma separação. Sobreviveram algum tempo, agasalhados pela esperança duma ponte, mas alargaram-se as demoras e as desilusões. Finalmente, naufragaram em terra firme. Hoje são apenas um texto que não acabou de ser escrito.
Elsa Alves, 69 anos, Vila Franca de Xira
Desafio RS nº 33 – uma história de enganos


Margarida Freire ― desafio 121

Luísa pousou o livro. Endireitou-se, respirou fundo e leu tudo novamente.
NADA MAIS HAVIA A FAZER. O erro tinha de ser corrigido, antes que houvesse mais ‘acidentes’.
SE TIVESSE EVITADO… mas, o quê? O que é tinha acontecido?
Fora tão cuidadosa! Seguira rigorosamente as instruções, pesara tudo….
Afinal, o que correra mal?
AGORA RESTAVA tentar outra vez, porque…
De repente deu um salto. Fizera-se luz.
― Burra, burra… então não é que me esqueci de ligar o forno?
Margarida Freire, 75 anos, Moita
Desafio nº 121 – 3 inícios de frase impostos



Amália da Mata e Silva ― desafio RS 39

Meu Deus, como gosto de ti! É um sentimento muito forte que nem sequer sei onde se conclui. Voo no céu por ti, mergulho em profundos e misteriosos sítios, corro por estreitos ou imensos trilhos pedestres... Sonho no negrume do meu triste dormitório, sozinho, sem ti, nem ninguém. Onde e como vou obter, meu bem, o teu porte físico junto de mim?
Por fim, desperto coberto de suor do esforço que fiz em remexer tudo por ti. Amália da Mata e Silva, 62 anos, Vila Franca de Xira
Desafio RS nº 39 – história de amor sem A!


Susana Sofia Miranda Santos ― desafio RS 12

Joana tinha 6 anos. Era uma menina sonhadora. Possuía uma alma criativa.
Durante as noites, sonhava. De manhã, lia imenso. De tarde, escrevia poesia. Era uma romântica nata! 
Os livros faziam-na feliz. A escrita dava-lhe inspiração. Era uma criança talentosa!
Gostava de brincar sozinha.
Apreciava somente ler, escrever. 
Sonhava, lia, escrevia, divagava. Era uma mente intelectual.
Mas... abominava a escola. Aquelas disciplinas eram entediantes. Tudo era demasiado simples.
Estudava o que desejava.
Lutava contra imposições.
Liberdade... sempre!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Desafio RS nº 12 – texto em prosa com frases de 4 palavras