16 janeiro 2017

Sem falar

Passavam poucos dias do Natal, quando apareceu por ali e foi visto a dormir na entrada do prédio. Rapaz de cerca de 30 anos, alto, moreno, educado, de gestos elegantes. Tímido, discreto.
Transportava uma mochila e desenhava num caderno. Nunca pedia nada. 
Ela começou por lhe deixar peças de fruta, iogurte, fatia de bolo. Não falavam.
Trocavam olhares, o dele agradecido, o dela preocupado. Passado algum tempo desapareceu dali. Ela passou a apoiar sem-abrigo.
O voluntariado enobrece.
Alda Gonçalves, 49 anos, Porto
Publicada no blog - www.macadejunho-mafaldinha.blogspot.pt

Desafio nº 114 - trocar as voltas ao ditado popular

No andebol

A sua mão esquerda era fenomenal para os remates à baliza nos jogos de andebol.
O seu lugar de ala não estava em perigo, mas aquela entorse no dedo polegar era mesmo indesejada. 
A bola vinha projetada com tanta força que ao segurá-la, o dedo ficou dobrado e sentiu uma terrível dor.
O jogo não pára, a mão direita segura a bola até à baliza adversária. Remata num golo incrível. Afinal conseguiu. Eu sabia que era capaz!
Alda Gonçalves, 49 anos, Porto
Publicada no blog - www.macadejunho-mafaldinha.blogspot.pt

Desafio RS nº 45 – «Eu sabia que era capaz!»

Programas Rádio Sim - semana de 16 de Janeiro de 2017

Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, nas Giras - podem ouvir-se aqui
(ou pelos links que estão em baixo)

Indicativo do Programa - Música e letra: Margarida Fonseca Santos; Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso - Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Horário na Rádio Sim - 17h45, todos os dias


Quer saber que histórias foram lidas? Vá por aqui:

Programa Rádio Miúdos - semana 16 Janeiro 2017

A corrida de bicicleta
Remediar sempre lhe pareceu fácil. Quando tinha 5 anos, o meu pai comprou-me uma bicicleta. Um dia, fui com ele para o parque para fazer uma corrida de bicicletas. Arrancámos ao mesmo tempo. Entretanto, começamos a descer a grande velocidade. A minha câmara de ar rompeu e fui de boca ao chão. O meu pai levantou-me, pegou numas folhas de árvore do chão para estancar o sangue e remediar a situação. Afinal, remediar sempre lhe pareceu fácil.  
Jorge Branco, 16 anos, Liceu Técnico Navegantes, Torres Novas, prof Maria Nicolau
Desafio RS nº 43 - remediar parecia fácil

15 janeiro 2017

Com amor, Daniel!

Daniel corria campo aberto. Passava perna a quem o tentasse ultrapassar. Nos balneários agarrava na toalha e chibatava os colegas... Na sala de aula, escondia-se nas carteiras de trás. Menino travesso ainda tinha coração de oiro. Com conversas e sorriso de fogo brando, o coração de Daniel deixou voar a dor ― sem pena ― e mais um menino confiante se revelou... Traiçoeiro cancro invadiu-lhe a alma. Fogo bravo no amor. Pena densa no peito. Sorriso eterno na memória.
Eurídice Rocha, 50 anos, Coimbra

Desafio nº 1 – palavras impostas: pena, sorriso, fogo

A carteira

Vivia contando as migalhas que a vida lhe dava. Pobre, mas honrada, procurava transmitir aos filhos os valores em que acreditava. O trabalho levava-lhe a juventude e deixava marcas no corpo, que a custo escondia a verdadeira idade. Esgueirando-se pela porta, o procurador sustinha um largo sorriso. A mensagem foi breve. Oferecia-lhe uma reconfortante quantia pelo gesto do seu filho que devolvera intacta a carteira que encontrara. João entendia agora o significado da frase: A honestidade enobrece.
Amélia Meireles, 63 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 114 - trocar as voltas ao ditado popular

Pescador

O chinchorro “Conquistador” debatia-se numa história dura de contar.   
As ondas roubavam infinitas esperanças nas gentes.
Uma loucura ser alguém:
                                            ali... 
                                                    rodeado pela agitação das águas, que cravavam lágrimas no ar...
                                           aqui... 
                                                   que lançava rios de lágrimas, nascentes salgadas, no areal...
Tão próximos dos olhos... tão rasgados nos corações.
Gritos surdos das gaivotas ansiavam o peixe que os homens carregavam para terra.
Quis lengalengar uma reza... nada!
Mas venceram... chegaram.
Sempre vencem ao desespero do prato vazio.

Eurídice Rocha, 50 anos, Coimbra

Desafio nº 2 – “Sempre quis ser uma história”, palavras obrigatórias por ordem inversa

Liana ressuscitou

Liana quase morrera, agora queria viver!
O brilho da novidade confidenciava-lhe oportunidades.
Um momento, um olhar descuidado, algo misterioso acontecera. Os sentimentos, em desvario, tomaram as rédeas.
Oscilava entre a esperança e a condenação. Contraste pouco sadio! Ficou aflita, disseram-lhe que o motivo da sua alegria poderia tornar-se "bode expiatório". Que desolação!
Entontecida, afastou-se!
Sentiu a dor da separação, o desespero do erro, o flagelo dos olhares.  
Refugiou-se no amor aos que mais precisam! O amor enobrece!
Fernanda Costa, 55 anos, Alcobaça

Desafio nº 114 - trocar as voltas ao ditado popular

Qual é a receita?

Minuciosamente, elaborou a lista para o grande jantar. Estava apostada em brilhar. A conquista da sogra traria dividendos incalculáveis. A tarefa não era fácil, mas valia o esforço. Arroz de marisco era a sua árdua tarefa. Procurou manter-se calma, atenta aos pormenores decorativos. A brevidade da chegada da sogra levou-a à cozinha e… como era possível? Como? Não tinha arroz! Mas a feijoada de marisco foi um sucesso estrondoso! Pasmem, a dita senhora pediu-lhe a receita, acreditam?
Amélia Meireles, 63anos, Ponta Delgada

Desafio Escritiva nº 15 – falta um ingrediente e o jantar é dali a nada…

Emocionalmente pobre

Clara retocou a maquilhagem, o espelho devolveu-lhe a imagem de uma mulher que ela não reconhecia mais.
Treinou o sorriso e voltou para a festa, para junto do marido. Viveu sempre em função dos demais, primeiro os pais, depois os filhos, o marido, que deixara de amar há muito devido às constantes discussões. Mas ficou pelos filhos.
Hoje sentia-se uma mulher vazia, sem nada que acrescentar à vida, pior, sentia-se emocionalmente pobre.
E acreditem, o sofrimento empobrece.
Carla Silva, 43 anos, Barbacena, Elvas

Desafio nº 114 - trocar as voltas ao ditado popular

Bule adorado

Tenho um bule rachado
Branco e imaculado
É mais velho do que eu
Foi a minha avó que mo deu

A racha é pequenina
Fiz-lha eu ainda menina
Mas ninguém dá por nada
Ponho a tampa fica logo bem vedada

Sirvo o chá à minha prima
Cidreira, tília ou lúcia-lima
Seja limão ou canela
Ninguém dá por ela

O meu velho bule rachado
Por todos nós é adorado
No seu tom esbranquiçado
Tem na bica um dourado
Ana Maria Troncho, 66 anos, Academia Sénior de Estremoz

Desafio nº 4 – começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

O leitão assado

Luísa pegou no leitão, colocando-o no tabuleiro. Tirou a rolha à garrafa e regou-o com o vinho.  Começou a preparar no almofariz a massa de alho, pimenta e sal.
Estava ensonada, acordou irritada com o barulho do despertador.
Meteu-o no forno.  O cheiro espalhou-se por toda a casa.
O enorme bicho assado dormia no tabuleiro, sobre a mesa, com uma bola de ténis na boca. A vespa voava à sua volta.
Luísa tapou-o com um grande papel.
Zuzu Baleiro, 68 anos, Academia Sénior de Estremoz

Desafio nº 23 – percurso de palavras obrigatório: leitão + rolha + almofariz + despertador + bola de ténis + vespa +papel

Joguete

Em tempos idos, o destino dos Homens no mundo existiu por intermédio dos Deuses. Zeus governou nos céus e o seu querer moldou todo o universo. Porém, Prometeu roubou o fogo dos Deuses e com ele presenteou o Homem. O Homem livre dos Deuses do Olimpo, semideuses e heróis, dono do seu próprio destino, do seu senso, é um presente de Prometeu. Lembremos o herói que nos livrou do pior do mundo: ser um joguete do destino.
Rita Teresa Oliveira, 16 anos, 11º CT3, Escola Secundária José Saramago, Mafra, prof Teresa Simões

Desafio nº 37 – uma história sem usar a letra A

Nem sempre o diabo está atrás da porta

Atrás da minha porta
Tenho uma bruxa pendurada
Se o diabo quiser entrar
Leva logo uma marretada

Foi meu pai que ma ofereceu
E comprou-a lá para o norte
Num passeio que lá deu
E disse que era para dar sorte

Para me trazer uns euros
Que jogasse na raspadinha
Mas só gasto os meus
E de volta nada nadinha

A sorte que eu tenho
Aproveito bem aproveitadinha
Tenho de comer e beber
Na minha pequena casinha 
Ana Maria Troncho, 66 anos, Academia Sénior de Estremoz, prof Zuzu Baleiro

Desafio Rádio Sim nº 3 – um dos provérbios dados no fim