24 setembro 2017

Quita Miguel - escritiva nº 24

Mentira
Tão grande era o desejo de Gepeto de ser pai, que um dos seus bonecos de madeira ganhou vida.
Ora, se era gente, tinha de estudar, pensou o velho e mandou Pinóquio para a escola. Pelo caminho Pinóquio ganhou dinheiro, que depressa lhe foi roubado.
Ao vê-lo a chorar, uma fada quis ajudá-lo, mas ele mentiu e o seu nariz denunciou-o crescendo.
Como seria bom que crescesse o nariz a todos sempre que faltam com a verdade.
Quita Miguel, 57 anos, Cascais
Escritiva nº 24 - mini histórias da infância
Faça aqui o download do conto «Sonho Esventrado» https://www.smashwords.com/books/view/595005


Maria do Céu Ferreira - escritiva nº 24

O Coelhinho Branco
Era uma vez um coelho,
De pêlo branco, branquinho,
Foi à horta buscar couves
Para fazer o caldinho.

Ao bater na sua porta,
Berrou-lhe a cabra malvada
Que se fechara lá dentro…
E o Coelhinho chorava…

Encontrou a formiguinha,
Cansada de trabalhar
Que logo o reconfortou,
Prometendo ajudar.

Bateram ambos então…

― Eu sou a Cabra Cabrês
 Vou aí faço-te em três…
― E eu, a Formiga Rabiga,
Se entro aí, furo-te a barriga.

A cabrita apavorada
Desabriu atordoada.
Maria do Céu Ferreira, 62 anos, Amarante

Escritiva nº 24 - mini histórias da infância

Fernanda Costa - desafio nº 118

O Sol dos amigos
Liana atravessava um momento de incerteza, aquele encontro com Alberto foi uma bênção. Em tempos idos, ele ignorou as imperfeições, demitiu-se do julgamento, calçou inúmeras vezes os seus sapatos, caminhou com ela.
Naquele dia, Alberto soprou as nuvens, o Sol apressou-se a chegar e Liana chorou ― lágrimas doces, tal como estrelas em noite de Natal. De tão genuínas, vivificaram a sua alma.
Liana esqueceu a negrura do tempo, vestiu-se de coragem, agradeceu e acendeu a sua Luz.
Fernanda Costa, 55 anos, Alcobaça

Desafio nº 118 – associação de palavras

Mónica Marcos Celestino - desafio nº 123

O lamento
Qual turbulento tufão brotou da ronca garganta
o triste lamento que, como furtivo fujão,
oculto entre escuras sombras, morava no peito.

Qual retumbante trovão ressoou na densa névoa
a lastimosa queixa que, como berrante fita,
pungiu os corações envoltos em preta capa.

Livre ficou das suas cadeias aquele pranto
tal pássaro engaiolado que escapou da sua prisão
e pôde no fim as assas despregar.

E desligado foi das algemas dos pesares.

Mónica Marcos Celestino, 45 anos, Salamanca, Espanha

Desafio nº 123 – palavras com letras de justificado

Susana Sofia Miranda Santos - desafio RS nº 44

Os pais sempre afirmaram que a saúde é base fundamental da nossa vida. Se não estivermos bem, física e psicologicamente, não podemos estudar, trabalhar, apoiar as pessoas que amamos, ou seja, lutar pelo nosso futuro, pela nossa independência.
Eu acreditava que estavam plenamente correctos.
Mas, apesar de obedecer às demandas clínicas, cumprindo rotinas de consultas, medicação, fazendo inclusive cirurgias, cultivando hábitos de vida extremamente regrados, a epilepsia continua a perseguir-me.
Como posso continuar a acreditar nesta teoria?
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio RS nº 44 – reflexão em 44, contrário em 33

Ana Ribeiro - sem desafio

Espectros e luz
A cidade anoiteceu sob um denso manto de trevas.
Os passos cessaram.
A vida parou.
O vácuo alastrou, ganhando a forma de uma tela negra e morta.
Nada mais restou, a não ser um quadro sombrio suspenso numa parede gasta e sem cor, esperando o brilho do sol da esperança surgir, quando, eis que, o amanhecer finalmente chegou.
Ecos de vontade encheram as ruas desesperançadas, trazendo, finalmente, a luz da aurora e da mudança tão outrora desejadas.

Ana Ribeiro, 26 anos, Santa Maria da Feira 

Susana Sofia Miranda Santos - desafio nº 97

Encontrei o Carlos, o melhor aluno de Educação Física, a correr no ginásio. Ele informou-me que participará na corrida com obstáculos.
Quando lhe pedi uma opinião sobre o meu vestido novo, apenas me disse que estava a ficar gorda e carecia urgentemente de iniciar uma dieta.
Fiquei furiosa... afirmei-lhe imediatamente que o único obstáculo que necessita de transpor é a má educação. Não passa de um bebezinho que precisa permanentemente que a mãe lhe troque as fraldas!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 97 – galinha de encontro ao vidro

Eurídice Rocha - desafios nº 28 e 29

Os dias são dias e decorrem num tempo que os homens insistem em acrescentar luzes e luzinhas para criarem a ilusão de diferente ou de importante… mas os dias são dias e decorrem num tempo.
Tempos houve em que sentia afronta o ser humano consumir-se em festas enquanto tantos outros rasgavam-se apenas para existir. A contradição do ser e do ter… bichos manipulados por uma máquina que os quer obedientes…
Hoje dias são dias. Decorrem no tempo.
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafios nº 28 e 29 – Natal e Passagem de Ano

Susana Sofia Miranda Santos - desafio nº 87

Hoje sonhei que, numa manhã invernal, estava uma cabra hesitante a meio de uma ponte romana, que atravessava um rio de corrente poderosa.
Meditei sobre este sonho estranho.
Senti-me como a cabra, receando o amor.
As margens representavam o meu coração, ávido por paixão e o cérebro calculista evitando o sofrimento.
Tu eras o rio que já tinha inundado apaixonadamente a minha alma.
Para que necessito eu da ponte? Apenas tenho que mergulhar nas tuas águas cristalinas.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Desafio nº 87 – ponte, rio, cabra


Eurídice Rocha - desafio nº 27

Sobreviver
Josefina todo tempo corria para colo da sua avó, cobrindo-se com suas saias quando mãe a desolhava porque era vazia, apenas
Confortavelmente nas saias da avó, menina viajava por cima do mar por baixo das estrelas. 
Conheceu Marta quando devaneava pelos mares cheios de cabelos de algas e marés de sal. Marta surgiu entre tábuas soltas. Com rocha martela-as. Nada. Constrói uma jangada. Consegue. Agarra mão de Josefina. Divagaram unidas por olfactos e aromas nunca olhados.
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 27 – palavras que crescem (em anagrama)

Susana Sofia Miranda Santos - desafio RS nº 37

Na aula de Educação Visual, o meu lápis de cor vermelha caiu da mesa, rolando para o chão quando ia utilizá-lo para colorir o fato do Pai Natal.
Contudo, quando me baixei para apanhá-lo, não o encontrei... tinha desparecido misteriosamente.
Eu ignorava que tu, meu companheiro de carteira, o apanhaste, guardaste no teu estojo, utilizando para pintar os corações do postal que me ofereceste no Dia dos Namorados, devolvendo-me o lápis em seguida.
Amor, adorei a surpresa!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio RS nº 37 – o lápis caído no chão

Eurídice Rocha - desafio nº 26

Daniel Cortês
A saudade enlaça a tua ausência, corpo de menino que cancro assolou. O teu olhar, a tua vida, as tuas descobertas, os teus medos, o teu sorriso, a tua voz, a tua resistência à solidão, a tua luta, amor, esperança... são a semente que permanece dentro do meu coração, com a certeza que te amo e me darás forças para continuar. Beijo-te eternamente com perpétua ternura e com bastante amor, meu doce Daniel, meu aluno, viva memória!
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 26 – dedicatória para alguém

Susana Sofia Miranda Santos - desafio RS nº 1

Hoje encontrei uma antiga colega do curso de Comunicação Social.
Ela trabalha na televisão pública, eu estou integrada numa estação de rádio informativo.
A minha colega nem sequer redige os textos que transmite ao público no noticiário, sendo um mero pivot.
Eu tenho liberdade total, sei que os meus ouvintes avaliam a qualidade do meu trabalho e não a beleza. Além disso, a palavra tem maior poder de alcance que a imagem.
Eu adoro o meu trabalho!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Desafio Rádio Sim nº 1 – história tem de falar de rádio


Eurídice Rocha - desafio nº 25

Isto há cada uma!
Andava à procura de cogumelos no campo. Deslumbrei a parra da malagueta. Enchi cesto. Passei pelo João da taberna para lhos oferecer para seus petiscos apetitosos. João comia um naco de pão. Pedi-lhe comida para matar bicho, puxei duma malagueta, juntei-a para a provar. A malagueta rolou como um dado sem parar… forte ramo cresceu pela minha boca… fiquei tão dorida… cheio de frutos e folhas… não eram malaguetas ― eram sementes mágicas de damasco! Ai ardeu, ardeu!
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 25 – palavras com sílabas encadeadas

22 setembro 2017

Carlos Alberto Silva - desafio RS nº 23

Em campanha
As comitivas das duas listas concorrentes à associação de estudantes do colégio feminino cruzam-se num corredor. Um encontrão incendeia os ânimos. Começam as provocações. Esgotando-se os argumentos, vêm os insultos, que sobem de tom e baixam de nível.  
― Sua esta, sua aquela!
― Isso és e a tua mãezinha!
Até que surge o ultraje mais rasteiro, a ofensa suprema:
― Sabes o que és, sabes?
― Não, mas tu vais dizer-mo, não é?
― Vou. És uma grandessíssima e refinadíssima… po-lí-ti-ca!
Carlos Alberto Silva, ​59 anos, Leiria
Desafio RS nº 23 – história de mulheres

Mais contos aqui: ​ficcoesbreves.blogspot.pt

Helena Pereira - escritiva nº 24

A Lebre e a Tartaruga nos nossos dias...
Estavam a Lebre e a Tartaruga a jogar no telemóvel…
Amiga tartaruga queres fazer running comigo?
Vamos até ao final da Baía e voltamos,
quem ganhar publica a foto no Facebook.
Boa Lebre, comecemos…
A meio da prova a Lebre que levava algum avanço diverte-se a tirar selfies…
A Tartaruga que agora fazia trail, lá passou despercebidamente pela baía e regressou.
Quando a Lebre chegou já a Tartaruga festejava nas redes sociais e já contava 77 likes!!!
Helena Pereira, 44 anos, Seixal

Escritiva nº 24 - mini histórias da infância

21 setembro 2017

Lourença Oliveira - desafio nº 125

O jardim de Marta, na sala dos livros, era feito de peças de dominó em
pé disposta em forma de coração. Um momento feliz da vida plantava uma
peça de dominó.  E estas pulsavam ao ritmo da vida. Naquele dia,
sentada na poltrona junto do jardim com um livro na mão, um alerta
soou: ― Lamentamos, nada mais podemos fazer por Pedro. A última peça
desequilibrou-se com uma única lágrima e o jardim desmoronou-se num
tornado de emoções.
Lourença Oliveira
, 45 anos, S. João do Estoril
Desafio nº 125 – tornado no jardim

EB Galveias, 3º/4º B - escritiva nº 24

O Pedro e o lobo
O Pedro era um menino mentiroso e adorava pregar partidas.
Ele disse que o lobo o estava a atacar mas era mentira. Disse isto durante vários dias.
Os amigos tentaram sempre ajudá-lo. Mas descobriram que era tudo uma grande mentira.
Certo dia, o lobo atacou-o mesmo, mas os amigos não acreditaram e não o socorreram.
A sorte é que o avô estava perto e salvou-o.
O Pedro prometeu que nunca mais mentia.
Mentir é muito, muito feio!!!
EB Galveias, 3º/4º B, professora Carmo Silva

Escritiva nº 24 - mini histórias da infância

Eurídice Rocha - desafio nº 24

Ai amiga
Estavam duas melgas brincando
Quando um jacto ali passou
Melga escanzelada travou
melga gorda embateu e tropeçando
esmagou a outra até chiar
fraco zumbido... pobre escanzelada
― Acho que estou achatada
Será que te podes desviar?

― Não sei como te vais safar
na entrevista do primeiro emprego…
mas eu tenho-te tanto apego
Conta comigo que te vou ajudar!
A melga gorda sempre a ponderar
Falou com tal confiança
Pôs-lhe ar adentro com perseverança
lá recomeçou escanzelada a voar.
Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Desafio nº 24 – duas melgas à conversa, uma gorda e outra escanzelada

Carlos Alberto Silva - escritiva nº 24

O desatino de Vermelhusca
Vermelhusca foi levar uma bucha à avó enferma. Ignorando as advertências da mãe, deambulou pela mata. Apareceu-lhe um lobo de falinhas mansas e ajustaram uma corrida.
Em três tempos, o bicho alcançou a casa da velha. Atemorizada, a senhora encafuou-se no guarda-fatos. Com artes de transformista, o carnívoro aninhou-se na cama dela.
Ao chegar, Vermelhusca desatinou com aqueles preparos: era tudo em grande, sobretudo os dentes...
Acudiram uns lenhadores, que escorraçaram a fera, salvando avó e neta.
Carlos Alberto Silva, 59 anos, Leiria
Escritiva nº 24 - mini histórias da infância