22 julho 2017

Catarina Azevedo Rodrigues ― escritiva nº 22

Tinha uns quinze anos e estava numa daquelas festas com pouca luz e muita música. Pouco adepta do abanar do capacete, encostei-me a um sofá de veludo numa de mirone. Com falta do que fazer, decidi brincar com o veludo do sofá ao qual estava encostada. Entretida com a brincadeira, senti o objeto da minha distração mexer-se. Afinal, o "braço do sofá" era a perna de um senhor que vestia bombazina e que, espantado, me olhava boquiaberto.
Catarina Azevedo Rodrigues, 44 anos, Venda do Pinheiro
Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

Ana Mafalda― escritiva nº 22

Era uma vez um sem-abrigo. Daqueles que ficaram sós no mundo, sem ninguém.
Dormia na rua ao relento, muitas vezes ao sabor do tempo...
Um dia, viu uma porta aberta mas lá ninguém. Entrou. Livros, tantos livros!
Seus olhos jorraram lágrimas de água feliz e nelas tomou banho como um petiz.
Então, sentiu tamanha tentação: abriu um livro e leu, sentado no chão.
Num ápice ouviu passos
Surgiu uma segurança galante
Ups, tinha sido apanhado em flagrante 
Ana Mafalda, 47 anos, Lisboa
Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 38

Tu és um prazer, cego mas tacteável!
Tu és especial!
Pensei que eras um homem vazio, igual aos outros, fechado em si próprio. Estava crente que tive o azar de conhecer alguém que era vaidoso, ptico relativamente às capacidades dos outros, egoísta e machista. Amor, estavas sempre revoltado com os factos.
Não vi a tua beleza pelos olhos, mas sentia-se na alma.
Hoje, aprendeste ao meu lado, a ser uma pessoa mais afável, sendo agradável estar contigo.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto 
Desafio nº 38 – partindo de uma frase, utilizar os pares de letras desta para o texto

Joana Duarte ― sem desafio

Pedestal 
Acho que me apaixonei por ti naquele dia. Eu estava com tanto medo de estar ali. Aquele não era o meu lugar... Tu foste atencioso e nos teus olhos não vi nem um julgamento. Nunca. Os dias foram passando. Os meses. Os anos. Tu permaneceste ali, no pedestal em que eu te pus, sem tu saberes. Até hoje. [Talvez para sempre.] Lá estás tu: lindo, motivador, presente. A pergunta é: queres descer daí ou preferes que suba? 

Joana Duarte, Lisboa 

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 11

― Amor, temos que organizar a festa de aniversário do Paulinho.
― O nosso filho já está crescido... vai completar oito primaveras.
― Relativamente ao presente, o que achas de lhe oferecermos uma bola de futebol e chuteiras novas?
― É uma excelente ideia, querida. Podes ir comprar os presentes à loja de desporto, por favor?
― Claro, irei imediatamente.
― Eu vou à gráfica imprimir convites para a festa do Paulinho e, seguidamente, irei distribuí-los pelos amigos.
Partiram então em direcções opostas.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto 

Desafio nº 11 – diálogo com frase final imposta: Partiram então em direções opostas.

Theo De Bakkere ― escritiva nº 22

No nosso escritório cada secretária tinha um computador pessoal, tudo assim colocado para que estivéssemos com as costas orientadas para a secretária do chefe.
Às segundas-feiras começávamos às nove. Em contrapartida, o chefe vinha a bel-prazer e sempre assim acontecia, até que, numa manhã, um jovem empregado foi apanhado em flagrante delito, enquanto enrolava uns cigarros.
― Tens de enrolá-los com um dia de antemão ― dizia o chefe zangado.
― Evidentemente, patrão! Estou a enrolar estes cigarros para amanhã.
Risos abafados no escritório.
Theo De Bakkere, 65 anos, Antuérpia, Bélgica

Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 83

― Amor, naquele quadro proclamaram o meu nome com uma ordem "Venha cá, ó Freitas ". Mas as letras estão ligeiramente distorcidas.
― Querido, o que estás a ver prova que fazes parte do universo masculino, egocêntrico, vê tudo à volta de si mesmo. A ordenação das letras é uma mera casualidade. Estás a ver muitíssimo bem, não precisas de mudar de óculos. A distorção das letras comprova que não podes beber álcool antes de vir fazer testes de visão.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto 

Desafio nº 83 – texto sobre imagem de Francisca Torres

21 julho 2017

Margarida Fonseca Santos ― escritiva nº 22

Era fascinada por agendas. Naqueles tempos, ainda com agendas de papel, trazidas em carteiras ou bolsos dos casacos, não conseguia desviar o olhar quando alguém puxava da sua. Tudo lhe interessava: as cores usadas, a foram de riscar, de apontar, as horas. A única coisa que nunca lhe despertara curiosidade era… o conteúdo. Na sua visão, não prejudicava ninguém. Na dos outros, era uma coscuvilheira. Bisbilhotar a agenda do seu chefe fora um delito grave. E agora?
Margarida Fonseca Santos, 56 anos, Lisboa
Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante


20 julho 2017

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 76

A entidade masculina que habita na minha alma excede qualquer representante da espécie humana em determinadas características da individualidade: inteligência, sensibilidade, fraternidade.
Mas, apesar de ter quase metade de vida secular, é parca a sua maturidade... parece uma criança, prefere prestar vassalagem à família em vez de pugnar pela sua independência.
Sabes, amar-te implica guerra permanente, mas qualquer luta que enfrente para chegar até ti será justificável! Tu mereces qualquer renúncia.
Amar-te é e será sempre especial.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 76 – escrever sem a letra O

Natalina Marques ― escritiva nº 22

Chegou a casa com a lista do nutricionista. 
Começaria a dieta prometida, durante anos, mas sempre adiada.
Nesse dia, era aniversário de casamento,
faria um jantar especial, com sobremesa preferida.
Terminado o jantar, não comeu sobremesa.
Nessa noite não conseguia dormir, a pensar no doce. 
Fazia-lhe crescer água na boca.
Esperou que ele adormecesse,
foi ao frigorifico, já vinha com a taça na mão quando apareceu:
― Acho que vou dar ao Sanção, para não haver mais tentação.
Natalina Marques, 58 anos, Palmela

Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 89

A avó ofereceu-me um ramo de lírios no aniversário, mas devo ser alérgica, porque provocou-me uma tosse seca horrível!
Os pais ofereceram-me o livro " A Ilha ", tendo usado um agrafador para anexar no interior um envelope com dois bilhetes de avião para os Açores. Foi uma surpresa fantástica!
O namorado ofereceu-me um pijama vermelho e um elefante de peluche, pois sabe que é o meu animal preferido - apesar do seu porte gigantesco, nunca perde a sua graciosidade!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 89 – hist c tosse+lírio+elefante+agrafador

Mireille Amaral ― desafio nº 38

A MORTE CONTA-SE VIVENDO (Ungaretti G. Poeta italiano)
A M|OR|TE| CO|NT|A-S|E V|IV|EN|DO

A morte conta-se vivendo… Este ano não tem sido fácil… De repente, a vida ficou AMarrada a despedidas e a ORações, deixando-me TEmerosa em relação ao futuro e triste COm a ausência dos meus eNTes tão queridos.
ASsim, aturdida me sinto, EVitando porém, quedar-me, porque a vida é uma dádIVa demasiado preciosa para ser ENcarcerada na DOr.
Hoje, só hoje, é o momento em que consinto que as lágrimas se sobreponham às lembranças maravilhosas de quem partiu.
Mireille Amaral, 41 anos, Gondomar

Desafio nº 38 – partindo de uma frase, utilizar os pares de letras desta para o texto

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 94

A ventania excessiva bateu, com força, a porta de minha casa. Eu estava a refletir sobre questões do passado e fiquei aterrorizada com esse barulho estrondoso.
Contudo, interpretei aquele ruído como um sinal sobrenatural para mudar de vida, como um clarão do espírito para esquecer factos antigos e concentrar-me no presente e no futuro.
Não posso temer consequências da ventania. Vou deixar o sonho entrar pela porta e sair a voar, nas asas da ilusão, pela janela!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 94 com clarão, porta a bater e ilusão

Escritiva nº 22

Nunca lhe aconteceu estar parado no trânsito e sentir aquela tentação de “limpar o salão” com jeitinho, para ninguém o ver? E nunca tentou ouvir uma conversa atrás da porta? Não? De certeza? Eu sim!  E o pior não é admiti-lo, o pior é a vergonha que se passa quando somos apanhados em flagrante. Nem sempre é fácil sair do apuro.

Eu resolvi a situação assim:
Fora discreta, esperara até que todos estivessem a dormir, desceu sem fazer ruído, fechou a porta devagarinho, abriu a gaveta, tirou os talheres, um prato e atirou-se à vítima sem piedade. Sem restos que a incriminassem, voltou terrivelmente satisfeita. Dormiu como nunca, sem qualquer remorso, mas a liberdade durou pouco:
 ― Minha menina, estás de castigo! Comeste o bolo todo e não digas que não, porque tens o corpo cheio de borbulhas.
― Oh não, o bolo tinha nozes...
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 36 anos, Salamanca
Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

17 julho 2017

Programas Rádio Sim - semana 17 julho 2017

Todos os programas, sempre com Helena Almeida e Inês Carneiro, 

nas Giras e Discos, podem ouvir-se aqui (ou pelos links que estão em baixo).


Indicativo do programa:








- Música e letra: Margarida Fonseca Santos; 
Arranjos, direcção musical, piano e voz: Francisco Cardoso
- Histórias de Cantar CD - Conta Reconta

Horário na Rádio Sim - 17h45, todos os dias

Quer saber que histórias foram lidas? Vá por aqui:

Isabel Lopo ― desafio nº 121

Era a mim que devias ter oferecido as flores naquela noite. Talvez não saibas, mas toda a minha vida esperei por esse momento. Desde o tempo em que brincávamos lá na aldeia e trocávamos guloseimas com juras de amizade e de amor...
Contudo, tu preferiste escolher aquela pindérica, só por vaidade. É rica, bonita e isso para ti basta. Para trás ficaram os nossos sonhos como se um sopro de vento os tivesse varrido do teu coração.
Isabel Lopo, 71 anos, Lisboa

Desafio nº 121 – 3 inícios de frase impostos

Sérgio Felício ― desafio nº 4

Sou feliz
Sou um bule rachado, sou de fina porcelana muito delicada, de tamanho médio e pintado em dourado cintilante. Quando fui rachado senti uma grande tristeza por não poder servir. Fui colado para continuar a ter capacidade de servir diversos chás.
Sirvo numa casa de chás que pertence a uma família nobre inglesa. O chá que mais gosto de servir é de camomila porque é calmante.
Fico mesmo muito feliz por contribuir pró bem-estar de todas as pessoas.
Sérgio Felício, 36 anos, Coimbra

Desafio nº 4 – começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 81

Julinho Pitorra queria ser famoso como um rei humorista. E era, realmente, um rei humorista... sem graça nenhuma!
Como as suas inúmeras chalaças não tinham gracejo, os habitantes locais ficaram estupefactos pelo xerife contratar Julinho para animar a festa referente à transição anual.
Na festa apareceu um rato gigante e o humorista começou a gaguejar.
A expressão aflita e fala titubeante originaram o riso fácil e aplausos.
Graças a um acaso, Julinho alcançou o sucesso como cómico.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 81 – Julinho Pitorra, humorista sem graça

Vera Saraiva ― desafio RS nº 18

Tens toda a razão! Sempre que nos esforçamos demasiado, mais tarde ou mais o corpo acaba por ceder!
Ontem dupliquei o número de quilómetros e hoje já nem me mexo. Tens toda a razão! Se eu te ouvisse, evitava estas situações.
Mas o que vale é que consegui finalmente perder o peso que tinha em excesso. Tens toda a razão, o esforço acaba por compensar.
Vou ter mais cuidado com os próximos treinos, tens toda a razão!
Vera Saraiva, 37 anos, Redondo

Desafio RS nº 18 – frases repetidas no texto

Susana Sofia Miranda Santos ― desafio nº 6

De dia, viam-se pouco!
Quando o sol despontava, a chuva, sentindo-se ofuscada pela sua beleza, preferia manter-se afastada. Mas o sol admirava a sua capacidade para se multiplicar em várias gotas e distribuir frescura pelo mundo inteiro.
Um dia, cansados de se observarem à distância, decidiram aproximar-se para conhecerem melhor alguém que admiravam.
Dessa amizade resultou um lindo arco-íris, irradiando o brilho das suas cores no céu.
Quando vencemos a timidez, conseguimos alcançar o sucesso.
Quem diria!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio nº 6 – Início e fim: De dia viam-se muito pouco …….. Quem diria!