31 janeiro 2016

Mergulhar rezando...

Nada mais havia a fazer, era evidente que tinha chegado a hora e já não podia dizer que não.
Se tivesse evitado armar-se em corajosa, de certeza que não se encontraria naquela situação, mas tinha a mania de querer impressionar toda a gente. Era uma fanfarrona, uma gabarolas, uma pedante, mas a verdade é que acabava sempre por se safar. E agora? Agora, restava apenas rezar para que o vulcão onde insistira “mergulhar” não entrasse em erupção!

Paula Cristina Pessanha Isidoro, 34 anos, Salamanca

Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem

Voltando atrás

Julieta caminha triste. Nada mais havia a fazer senão pensar na amiga Felismina.
Se tivesse evitado estar em desacordo não se tinham chateado. E podiam ter continuado a conversar, animadamente, naquela tarde ensolarada.
Agora, restava-lhe voltar a casa, sozinha.
Caminhava devagar, por entre as folhas caídas no chão, pensando: como podiam duas amigas inseparáveis estarem aborrecidas por mera teimosia? Era hora de fazerem as pazes! Voltou atrás. Ía pedir-lhe desculpa… não podia viver sem a sua amizade…

Eugénia Baltazar, 45 anos, Sobral de Monte Agraço
Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem

30 janeiro 2016

Fragilidade

Era aquele, então, o momento definitivo do não retorno? Nada mais havia a fazer. Ser forte, prosseguir. Falavam-lhe em coragem. Que a vida continuaria. Mas porque tudo lhe parecia vazio e absurdo? Se tivesse evitado algumas palavras. Construído mais sorrisos, talvez tudo fosse diferente. Mas era tarde. Agora, restava o futuro e o futuro era um lugar que lhe parecia duro, estranho e difícil de encontrar.
Então, na imensa fragilidade da sua alma, um pequeno pássaro cantou…

Paula Coelho Pais, 54 anos, Lisboa

Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem

Ficou a saudade

Nada mais havia a fazer. É doloroso constatar este facto, mas o tempo se encarregará de atenuar a dor, este vazio que deixaste em meu peito. Se tivesse evitado compreender que tudo na vida é efémero, que a vida é apenas uma passagem, agora restava uma imensa revolta, mas tal não aconteceu, encarei tudo como uma situação que pode acontecer a qualquer pessoa, hoje embora me custe muito, peço a Deus força para toda a tristeza ultrapassar.

Maria Silvéria dos Mártires, 69 anos, Lisboa

Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem

Uma mancha daquelas

Nada mais havia a fazer. A coisa estava consumada. Raios! Tão depressa não iria ver um igual ao que perdera. Se tivesse evitado encontrar-se com aquela mal fadada sombra, talvez a coisa ainda passasse. Mas não. Não passou. Claro que não passou! Estamos a falar dele! Aliás, não só não passou como seria coisa certa para sempre. Agora, restava-lhe apenas ver se o troco da lavandaria daria para um único café. Mancha daquelas não sairia barato, claro! 

Carolina Cordeiro, Ponta Delgada

Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem

Ai, Gertrudes

O Gajo era Garboso, parecia um Galo na capoeira com Galinhas aos Gritos como Gramofones.
No cabelo Gel, chapéu como um Girassol, óculos escuros Grenás Guiando um Renault Gt dirigindo-se para Gondomar Gozando o vento Gelado que entrava pelas Gretas da janela.
Passou um Grupo Guiado pela Gorda Gertrudes que olhou Gulosamente, com Grande suspiro de Gata com coração Galopante. Gertrudes desistiu de Galar o Giraço. Que olhar Gelado o Gabiru lhe devolveu.
Pobre Gertrudes. Ai, ai.

Jorge Vera-Cruz, 60 anos, Portimão

Desafio nº 57 – palavras começadas por G em todo o texto, estando entre cada palavra com G, poderá haver até três palavras livres

Desafio nº 103

Nada como regressarmos às imposições…
Mesmo que não concordem, aqui vão: 
estas 3 frases são obrigatórias, nesta ordem.

Nada mais havia a fazer (…)
Se tivesse evitado (…)
Agora, restava (…)

Que texto vos surge?


Eu já experimentei, ora vejam:
Nada mais havia a fazer, iria assumir as culpas. Que raio de ideia! Irritara, e muito, os deuses.
Se tivesse evitado a coisa, teria sido mais simples. Os deuses não eram maus, mas detestavam ser incomodados. «Paciência, aprendam», rosnou em surdina.
Agora, restava-lhe explicar tudo ao mestre. Aclarou a voz, encheu-se de coragem e começou:
– Mestre, fiz asneira. Cortei a ligação aos deuses.
– Que dizes?!
– Foi um impulso… Desculpe.
– Bravo, rapaz! És o nosso herói!!!
E esta?!
Margarida Fonseca Santos, 55 anos, Lisboa
Desafio nº 103 – 3 frases impostas por ordem
OUVIR


29 janeiro 2016

Programa Rádio Sim 691 – 29 Janeiro 2016

o programa em podcast na Rádio Sim


Exercício de filosofia
Nem pensar!
Hoje não contes comigo.
Sabes que o descanso é necessário.
Quando a generosidade excede o limite do razoável,
A virtude transforma-se em piedade, que nem sempre é piedosa.
O equilíbrio, entre o sim e o não geram bondade e retidão.
Mas participas, não?!
Sim, talvez ponha em prática,
E comprove filosoficamente, o ciclo da vida.
Crescer é delinear fronteiras e olhar à sua volta.
Manifestar de forma bem clara e distinta o equilíbrio da sabedoria!

Alda Gonçalves, 48 anos, Porto
Desafio RS nº 32 – a arte de dizer não

Minhas amigas

Já nem me recordo de quantos pares de sapatilhas usei ao longo da minha vida. Sim, porque eu sou uma “desportista”. 
Nunca fui federada nem ganhei taças, mas ainda hoje não passa um dia que não as calce para uma corrida à beira mar, uma escalada na serra ou uma partidinha de ténis.
Sem elas a minha vida não seria a mesma. Presto-lhes homenagem por me suportarem há já tantos anos. Obrigada, amigas sapatilhas! Vocês são impagáveis. 

Emília Simões, 64 anos, Mem-Martins (Algueirão)

Desafio Escritiva nº 4 – homenagem às sapatilhas

Não te rias!

Estando eu com grande febrão chamaram o Dr Martins.
Despido o sobretudo, pousado o chapéu, tira da pasta um pequeno funil com que me massacra as costas e, com seu grande vozeirão e pronunciada gaguez:
– D-d-diz trinta e três!!!
Quanto mais se zanga mais eu me rio!
A velhaca da minha prima tinha-me prevenido de véspera: quando o "ventas de assadeiro", assim lhe chamávamos, te mandar dizer trinta e três, tu não te rias!
Foi remédio santo!!!


Milena Falcato, 81 anos, Estremoz
Desafio nº 33 – Pegando em “Diga 33”, ou qualquer outra versão do 33

28 janeiro 2016

Saudades

Com a filha na faculdade, vivia das recordações de quando estavam juntas.
Acariciou as sapatilhas.
A filha queria aquelas sapatilhas rosa com reflexos, queria-as mais que tudo. Hesitou, pois ela nunca gostara de desporto.
Acabou comprando-lhas, pensando que pouco as usaria, mas enganou-se: usou-as no primeiro dia de aulas, nos piqueniques, nas excursões...
Tornaram-se as suas preferidas. Nunca as quis dar.
Sentia-se mais animada ao olhá-las e sorria ao lembrar a menina que outrora corria pela casa.

Carla Silva, 42 anos, Barbacena, Elvas
Desafio Escritiva nº 4 – homenagem às sapatilhas


A recusa

Vou contar-vos uma HISTÓRIA na qual vos mostrarei como UMA boa atitude pode SER mantida, apesar dos obstáculos.
QUIS SEMPRE sair de onde morava. Casa pequena, rua lamacenta que produzia sapatos sujos que tinha de limpar ao chegar ao trabalho. Propuseram-me um negócio onde ganharia bom dinheiro – proporcionar-me-ia uma entrada para uma nova casa. Só que iria prejudicar grandemente alguém, fazendo com que perdesse 1/3 do seu salário, iria fazer muita falta. A minha recusa foi pronta.

Jorge Vera-Cruz, 60 anos, Portimão ​
Desafio nº 2 – “Sempre quis ser uma história”, palavras obrigatórias por ordem inversa

Vista

Já esqueci
onde param os meus olhos.
Eles vêem por mim,
passeiam-se por mim,
mas não os vejo.

Caminhantes por corredores escusos,
e memória,
eis os meus olhos
que não vejo.
Encontro outros,
que os fixam,
olhares fugidios,
verdes,
ou assim,
que logo se desviam,
recusando o jogo.

Não vejo os meus olhos,
mas bem vistas as coisas,
observo,
e o mundo vê-me,
na esteira ensolarada dos dias,
no manto da noite.

Afinal,
quantos eus
sou eu?

Jaime A., 51 anos, Lisboa

Receita de focaccia de salmão, queijo e beringela

INGREDIENTES
focaccia
salmão fumado
beringelas
fatias de queijo
azeite
PREPARAÇÃO
Cortem a focaccia ao meio, ponham metade na travessa.
Deitem o salmão fumado na frigideira para desengordurá-lo, depois ponham-no na metade da focaccia.
Coloquem o queijo em cima do salmão.
Descasquem as beringelas, cortem-nas em rodelas, fritem-nas.
Acendam o forno – 220º durante 10 minutos.
Ponham as rodelas da beringela em cima do queijo e coloquem a outra metade da focaccia.
Metam-na no forno durante 5-8 minutos mais.

Beatriz, 33 años, Salamanca 
Desafio RS nº 10 – uma receita em 77 palavras

Do crescimento

Aqui estão tuas primeiras sapatilhas. Eu te lembrava do dia certo de usá-las.
Todas as segundas e quartas tinhas aula de ginástica. Então, eu as calçava em teus pés e te levava, feliz, para o exercício da aventura.
Duraram um ano. Quando iniciou o novo período, havias crescido e comprei-te novas sapatilhas. Depois mudaste de esporte. Já ias sozinha.
Agora tu estás sozinha e também eu. Cresceste e as sapatilhas antigas apertaram.
Queres andar distante do aconchego.

Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil

Desafio Escritiva nº 4 – homenagem às sapatilhas

Programa Rádio Sim 690 – 28 Janeiro 2016

o programa em podcast na Rádio Sim


E foi!
protagonista desatara a protestar, incrédulo e ofendido. Não constava de nenhum protocolo que, para representar um simples protão, tivesse que usar uma prótese tão protuberante. Diziam-lhe que era para sua proteção e que o protótipo tinha sido construído com o propósito de afastar as forças negativas.
Protelando a caracterização, distraía-se a pensar que teria sido preferível desempenhar o papel de protozoário ou até, talvez, de proteína.
Soaram as pancadas de Molière. Transformou-se em protão e foi.

Paula Dias, 50 anos, Lisboa
Desafio nº 102 – muitas palavras com PROT

27 janeiro 2016

Programa Rádio Sim 689 – 27 Janeiro 2016


o programa em podcast na Rádio Sim

Já chega!
Já chega!
Basta de dizer sim!
Sim, só porque sim, não quero.
Tenho que ser mais eu, mais isto não!
Igual a mim própria, descobrir-me, navegar-me, compreender este meu eu.
Se tu não queres aceitar paciência. Tens que ser forte, seres tu.
Gostar de ti.
Dizer não também é aceitar.
Porque isto de apenas existir, é treta.
Existes, logo és? Não, nada disso. Existes, logo somos!
Somos aquilo que os "nãos" fazem de nós, as nossas escolhas.

Ana Rita Forte, 34 anos, Loures
Desafio RS nº 32 – a arte de dizer não

Gorda?!

– Gorda! – gritam eles gargalhando impropérios. 
Grande! – murmuro eu. – Grande!
Gorda! – insultam. Pensarão que gosto? Que gozo com isto? 
Gorda: rótulo grudado à pele! É grutesco. Cruel, até… Grito baixinho: 
GrunhosGarotos!
Sou Grande! Posso gabar-me disso! Sou uma governante nacional competente: Sou uma guardiã de grandes feitos, líder de grandes grupos. E (ai garota!), debaixo desta gabardine, que guarda segredos de gueixa, tenho a garra de uma guerreira e a ginástica mental galvanizante da generalidade de despautérios.

Mireille Amaral, 40 anos, Gondomar

Desafio nº 57 – palavras começadas por G em todo o texto, estando entre cada palavra com G, poderá haver até três palavras livres

Luso Jornal 21 Jan 2016

Quer ver o que foi publicado?

Vá por aqui, até ao Luso Jornal 2015

Segredo arrecadado

Escutei no outro dia aquela história interessante, que qualquer um de nós gostaria de ouvir. Uma situação hilariante da qual não fiz parte, nem em sonhos, nem por arte, nem o ansiei ser. Nunca o seu protagonista desejou revelar aquele segredo! Ele quis guardá-lo a sete chaves, fechado com mil portas e ferrolhos ferrugentos. O facto é que o segredo de tão bem arrecadado, sempre foi divulgado, em enigma e a medo, pelo desleal amigo do lado.

Andrea Ramos, 39 anos, Torres Vedras

Desafio nº 2 – “Sempre quis ser uma história”, palavras obrigatórias por ordem inversa

Gosto de gelados

GOSTO de GELADOS e GELATINAS. GLOBALMENTE são sobremesas agradáveis, das quais é fácil GOSTAR. Mas o nosso GOSTO é cada vez mais GENÉRICO nesta aldeia GLOBAL em que vivemos. GOSTAMOS de muitas coisas que achamos GIRAS de um modo GERAL. Sabores comuns que são GOSTOSOS ao nosso paladar. E GLOSAMOS as mesmas notícias, GRUDADOS que ficamos aos múltiplos ecrãs das nossas vidas, GERINDO o nosso GRITO primitivo que permanece lá atrás, nas GRUTAS iniciais que nos acolheram.

Paula Coelho Pais, 54 anos, Lisboa

Desafio nº 57 – palavras começadas por G em todo o texto, estando entre cada palavra com G, poderá haver até três palavras livres

A despedida

Gritei! O gancho desprendera-se…
Foi tamanho o granizo…
Gemia só…permaneci naquela gruta fria, gelada, sem gabardine ou garra de existir.
Gotejava…gélida noite no globo.
Arrepiada, grunhia em ganidos de dor. A garganta, essa? Ganhava gangrena… gengivas putrefactas! Gigantes gretas na pele, grave infeção!
Ganância, foi isso… Gambuzinos cobicei garimpar. Genial maluqueira!
A garota germinava a morte, garantia grande pranto às gentes da terra.
Em glaciar morte, gastou a vida, sem gozo, gargalhadas ou glórias… veio a despedida.

Andrea Ramos, 39 anos, Torres Vedras
Desafio nº 57 – palavras começadas por G em todo o texto, estando entre cada palavra com G, poderá haver até três palavras livres


Garganta...

Gabardine aos ombros, abre a garagem, tira o Galaxie, mastiga goiaba, transporta guitarra, o gabarola.
– Gavião ou gaivota? – Dei uma gargalhada, ele gemeu. – Gafanhoto ou gabiru?
– Graciosa és.
– Gabarola sois.
– Gado eu tenho.
– Galos, galinhas e gansos em gaiolas.
– São galopantes, garanto.
– Grilos, talvez. Esses não galopam.  Grande queres ser, grandeza tens.
– Toma gladíolo e dá-me a tua graça.
– Gafe a tua, guarda-o na gaveta, gosto de garantias.
– Guardo no gabinete com as galochas.
– Tudo garganta.

Margarida Monge, 53 anos, Vila Verde de Ficalho
Desafio nº 57 – palavras começadas por G em todo o texto, estando entre cada palavra com G, poderá haver até três palavras livres


Uma história

Tratava-se de escrever uma HISTÓRIA. Imaginá-la, construí-la de raíz. UMA, especial, que ninguém tivesse escrito; algo de diferente e original. Tinha mesmo de SER! Divagava entre o querer e a obrigação de o fazer. E todos sabemos que aquilo que sempre se QUIS fazer, nem SEMPRE é o que se faz melhor. Essa ideia paralisava-me. Mas tinha também tantos sonhos, tantas ideias e a verdade é que nunca fui de desistir. Então, devagar, a medo, lá comecei.

Paula Coelho Pais, 54 anos, Lisboa

Desafio nº 2 – “Sempre quis ser uma história”, palavras obrigatórias por ordem inversa

26 janeiro 2016

Borbolito

Havia um pequeno bicho que vivia no Brasil, numa floresta. O Brobolito (assim se chamava) brincava quando viu um brilho no céu. Era bastante colorido… Era um beija-flor! Aquela inocente e boazinha ave amedrontava qualquer bicharoco, incluindo o valente Borbolito, que fugiu numa borboleta, rapidamente. Mas o beija-flor era super veloz. Bravamente rodopiou até ao bico do ornitorrinco dando-lhe beijinhos. Deslumbrado com a beleza estranha do astuto Borbolito, deambularam numa caminhada. Bastava rasgar céus, amar, benzer a diferença.

Raquel Ferreira Alves, 12 anos, Escola Básica D. Pedro I Canidelo – Vila Nova de Gaia, prof Arménia Madail

Desafio RS nº21 – de 3 em 3 plvrs 1 começada em B

Tabata

Tabata acarinhou o pinto preto e juntou-o à ninhada perto da lareira. 
Despiu a bata, já estava muito suja... teria de lavá-la com presto.
– Pressinto que esta chuva esteja para durar, Silvestre.
O cachorro latiu e deitou-se perto da ninhada
– Tenho de ir ao médico, esta tosse não me larga, sinto um frio enorme.
Silvestre voltou a latir, molengão. 
– Já sei, é preciso batata! Que tal vires à cidade comigo, preguiçoso?
Silvestre ajeitou-se, ignorando-a.
– Grande companhia eu arranjei, sim senhora!

Carla Silva, 42 anos, Barbacena Elvas
Desafio nº 101 - partindo das palavras BATATA e PRESSINTO


Olhos suplicantes

A enfermeira ouviu um leve bater de dedos no vidro. Olhou naquela direção, mas só o vazio da outra parede lhe correspondeu o olhar. Continuou então a cuidar dos recém-nascidos.
Ali eram muitos, chegados antes das quarenta semanas determinadas. Os pais, apreensivos, também os avós, eram os que sempre alcançavam ansiosos a barreira transparente.
Tlim-tlim. Desta vez dirigiu-se à janela envidraçada, a tempo de ver uma menininha, que se voltou. Com os olhos suplicantes, perguntava pelo irmãozinho. Chamou-a.

Celina Silva Pereira, 65 anos, Brasília, Brasil
Desafio RS nº 25 – dedos que batem no vidro (cena)


Programa Rádio Sim 688 – 26 Janeiro 2016

o programa em podcast na Rádio Sim


A chuva cai incessante.  
A minha rua inunda-se como um lago onde navegam as últimas folhas de outono impelidas pelo vento, que brame na tarde o inverno frio e ventoso. Ao longe, na serra, a neve cai e os montes reflectem uma luz branca como o luar.
Chamo-te.
– Vem amor, abre as janelas e deixa entrar o céu azul e o vermelho do sol-posto que como labaredas parece incendiar o horizonte!
Desfrutemos o momento mágico do entardecer!

Emília Simões, 64 anos, Algueirão Mem Martins

Desafio Escritiva nº 3 – texto com: chuva, vento, amor, azul, vermelho e rua

25 janeiro 2016

Sapatilhas favoritas

As minhas sapatilhas favoritas eram umas de cor vermelha. Usava-as para jogar futebol e marcar golos, elas acompanharam-me durante dois anos, mais chegou um momento em que parecia que elas iam falar, tinham uma pequena boquinha na sua entrada, e qualquer dia iam dizer que queriam reformar-se, que já estavam fartas de bater na pobre bola que não tinha culpa de nada! Então eu decidi trazer umas novas companheiras de pés, mais elas estarão sempre no meu coração.

Jesús Rey Aneiros, 22 años, Ferrol-España, prof Paula Pessanha Isidoro
Desafio Escritiva nº 4 – homenagem às sapatilhas



Adeus!

Homenagem aos meus ténis, sim aqueles com que comecei a jogar futebol, aqueles com que tanta água pisei, pontapés dei numa bola e a tanta gente.
Nunca irei esquecer aquele dia em que vos arranhei e senti que ia morrer, quando cheguei a casa pensei que o meu pai me ia matar, mas ele pôs graxa e ficaram novos outra vez.
Aquele fatídico dia em que me apertastes os pés, com lágrimas nos olhos disse:
-Adeus ténis.

Ivan Grande Thompson, 24 años, Madrid, prof Paula Pessanha Isidoro
Desafio Escritiva nº 4 – homenagem às sapatilhas


Que leveza

Queridas sapatilhas, ainda me lembro do dia em que, com ilusão, eu vos comprei, há só alguns meses atrás. Eu tenho jogado desde que era pequena, mas vocês são as primeiras sapatilhas que eu tenho, especiais para jogar futebol. Peço-vos perdão por todos os golpes com a bola, todos os tropeções e, por vezes, os jogos em campos de terra. Agradeço-vos muito a leveza, velocidade, precisão e conforto que vocês me dão. Espero que durem muitos anos.

Noemí Alonso Hidalgo, 20 anos, Salamanca, prof Paula Pessanha Isidoro

Desafio Escritiva nº 4 – homenagem às sapatilhas

Programa Rádio Sim 687 – 25 Janeiro 2016

o programa em podcast na Rádio Sim

Abolição da escravatura
Certa manhã, toda a ferramentada da cozinha decidiu fazer greve: a batedeira, a varinha mágica, os talheres… panelas… e até o velho e dedicado saca-rolhas, vejam lá… quem diria!
“Trabalho diário, só com salário!” 
Ri-me, achei que sonhava. Mas não. Era mesmo greve! 
Acabei por ceder… enfim…
Agora, tinham vida própria! Chegavam às nove, iam-se às dezassete.
Serviam-me o lanche,
punham-se a andar, 
ficava eu sem jantar!
Que saudades da escravatura! Tinha-os à minha disposição… eram meus!...

Domingos Correia, 57 anos, Amarante
Desafio Escritiva nº 2 – greve na cozinha