31 maio 2014

Feitiços

Saltitei sobre aquelas nuvens fofas, deitei-me, rebolei sobre elas. Entrei num mundo de fantasia repleto de enfeites coloridos, feito de sonhos e de feitiços. Continuei – peito e cabeça erguidos – observando com deleite aquela terra de encantos. Procurei, com um medo expectante, a feiticeira. Maravilhosa mas carregada de mau feitio era o que todos diziam. Encontrei-a e senti o seu feitiço: os olhos faiscantes fazendo uma leitura dos meus desejos. Serás feliz! Não era esse o teu desejo?

Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

Desafio nº 67 – 8 palavras com EIT

Uma história verdadeira

A boémia só perguntou por um copo de água para os filhos e sentou-se para aleitar o seu bebé choroso. Nunca vi entrar numa confeitaria uma família tão andrajosa A chegada destes enjeitados provocou uma vaga de solidariedade na clientela, também todas mães. Sem hesitação a conceituada confeiteira trouxe-lhes uns bolos e leite quente. Uma outra mãe preocupada despachava-se para comprar um biberão e fraldas.
E eu! Enfeiticei uma mão cheia com amêndoas confeitos para os miúdos. 

Theo De Bakkere, 61 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 67 – 8 palavras com EIT

30 maio 2014

Programa Rádio Sim 268 – 30 Maio 2014

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Cruzei-me contigo no baile
Cruzei-me contigo à noite no baile
À noite no baile dançaste comigo
Dançaste comigo, tiraste-me o xaile
Tiraste-me o xaile por seres atrevido
Por seres atrevido, roubaste-me um beijo
Roubaste-me um beijo, fui-me logo embora
Fui-me logo embora cheia de desejo
Cheia de desejo de os ir buscar
De os ir buscar, ao beijo e ao xaile 
Ao beijo e ao xaile, que deixei roubar
Que deixei roubar porque me cruzei.
Cruzei-me contigo à noite no baile

Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa
Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

Desafio nº 67

Vamos a um quebra-cabeças?
O que vos peço é que descubram palavras que contenham estas letras seguidas, 
por esta ordem: EIT (não é um sílaba).
Que texto em 77 palavras se pode escrever
com pelo menos 8 palavras destas?


Eu usei estas e ficou assim:
Alfeite Confeitaria Efeito Empreitada Espreitar Feito Parapeito Proveito

Visitar a base do Alfeite?! Está tudo doido? Estávamos aqui tão bem, na Confeitaria Nacional, a encher-nos de bolos e má-língua… Aquela ideia teve o efeito em mim de uma gigantesca dor de cabeça. Podíamos ter ficado ali, aviando doces de empreitada, mas não. Querem sempre coisas diferentes. Espreitar o coração da Marinha parecia um feito extraordinário. São mesmo parvos. Eu permaneci em casa, debruçada no meu parapeito. Espero que lhes faça muito proveito. Raios os partam!

Margarida Fonseca Santos, 53 anos, lisboa

29 maio 2014

Programa Rádio Sim 267 – 29 Maio 2014

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Para além de ti
Depois do fim, recordei-te todos os dias, por momentos breves de arrependimento. Depois do fim, alegrias vieram e inquietações permaneceram. Depois do fim, nada foi igual. Lembrei-me mais de mim, afastei-me mais de ti, ficaram as ilusões ansiosas do que poderia ter sido. Depois do fim, o tempo avançou num começo sem conclusões, sem metas definidas ou destinos traçados. Depois do fim, amanheceu-me esta nova esperança de sonhos por viver, num querer conhecer-me para além de ti.

Clara Lopes, 37 anos, Agualva, Sintra 
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

A fertilidade da imaginação

Olhar tudo sob diferentes perspectivas. “Pensar fora da caixa” Todos o dizem, quase ninguém o faz! Ou melhor, deixaram de o fazer porque se perde este hábito na proporção inversa com que se envelhece.
Para uma criança 99 pode ser 66 e vice-versa, um 5 pode ser um S, um leão ou um dragão, um amigo. Aos olhos dos pequenos génios o impossível é possível.
Acreditem, mentes brilhantes foram aquelas que jamais esqueceram a fertilidade da imaginação.

Vera Viegas, 30 anos, Lisboa/Penela da Beira

Desafio nº 66 – números 66 e 99

28 maio 2014

Programa Rádio Sim 266 – 28 Maio 2014

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Parabéns, Helena Almeida
Juntaram-nos no dia 13 de Maio de 2013. Ficámos de imediato amigas, arrisco dizer. Assim começou esta brincadeira muito séria em torno das histórias, mas sobretudo das pessoas que as escrevem, das que nos escrevem, das que escrevem a nossa vida em cada minuto partilhado aqui. É sempre fácil? Nem sempre, apanho sustos medonhos. Quando a Helena põe carinha de malandrice, tremo! Também me consegue pôr comovida, aí somos iguais. Parabéns, Helena, poder trabalhar consigo é fantástico!

Margarida Fonseca Santos, 52 anos, Lisboa

27 maio 2014

Programa Rádio Sim 265 – 27 Maio 2014

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Aula sentida
Depois do fim já não podia começar de novo. Levantei-me, explodi no meio da sala da aula tudo o que me andava a preocupar. Via a professora a sorrir, feliz por “soltar” um texto tão bom de repente. Quando acabei aquele discurso, vi o seu sorriso desligar-se lentamente, um pouco sentida. Eu, envergonhada, sentei-me lentamente e deitei os braços na mesa para chorar. E chorei, chorei tudo o que nunca havia chorado. Estava a passar uma tortura…

Francisca, Vila Fonche, Viana do Castelo
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

A reunião

O 99, número de idade considerável, escutava pacientemente as divagações do 66 que parecia atravessar uma crise de meia idade.
– Temos de fazer greve! – gritava 66. – Não nos respeitam, só jogos. Matemática nada!
– Acalma-te, uma greve nada resolve. Tudo começa no berço...
– Tu e as tuas ideologias. Estou farto! Greve. É o que precisamos.
– E as crianças que querem aprender?
– Poucas, bem poucas. Não se justifica tanto trabalho.

– Poucas ou não merecem o esforço, não te parece?

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas
Desafio nº 66 – números 66 e 99

26 maio 2014

Programa Rádio Sim 264 – 26 Maio 2014

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Recordar 
– Lembras-te colar de pérolas quando a Princesa Alexandra nos usava quase todos os dias?
– Claro que lembro, tiara de diamantes! Foram dias maravilhosos, estava sempre na vanguarda da moda, nuns dias discreta noutros exuberante e vaidosa.
– Sempre linda, mesmo quando fugia dos paparazzi.
– Envelheceu e ganhou novos hábitos. Transformou o palácio num museu.
– Temos de respeitar! A memória começa a falhar-lhe e já não precisa de nós…
– E nós para aqui esquecidas nesta prateleira cheia de pó.

Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra
Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

Agora

Agora,
nasceu o Sol,
já as nuvens
se esfarriparam para algures,
e o vento,
(ah o vento!)
esse foi-se esmorecendo
pelos caminhos do sul.
Agora,
é o tempo das colheitas,
do trigo 'prenho',
da claridade
e do assalto da alegria.
Agora,
é o tempo das redes luzentes,
faiscantes de vida,
de esperança.

Agora,
é o meu tempo
e o tempo desta terra
em que nasci,
pai-mãe dos meus sonhos
e chão-minha-Pátria,
e terra a que chamo Nação!
Jaime A., 50 anos, Lisboa


História sem desafio

25 maio 2014

As mulheres (também) não se medem aos palmos

Foi há uns três anos que “Uma questão de azul escuro” foi apresentado no colégio onde trabalho. Professores e alunos reuniram-se para assistir ao evento.
Margarida, com a simpatia que a caracteriza, apresentou-se, recostou-se e encantou miúdos e graúdos com a história de uma folha branca de papel que queria ser especial... e foi!
Eram mais de 500 crianças, e nem um professor precisou de intervir para que todos a ouvissem com atenção.
Que grande pequena mulher!

Catarina Azevedo Rodrigues, 41 anos, Lisboa 

Desafio nº 26 – dedicatória para alguém

Obrigada, Catarina, um grande beijinho para si!
Margarida

Carlitos, o imparável

– Carlitos, toma atenção – chama Aurora. – Olha que digo à mãe!
– Oh, pá, não sejas chata.
– Ainda por cima. Estou a ajudar-te e... Não adianta. Olha, resolve mas é o problema: No pomar há 66 macieiras e... – lia Aurora, mas Carlitos já sonhava.
Vai Néné, passa para Ronaldo que lança para Carlitos, grande finta! Carlitos está imparável. Remata. Goloooo! Incrível! É o 99º golo de Carlitos. Nunca se viu nada assim, a multidão está ao rubro grita por...
– CARLITOS! ACORDA!

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 66 – números 66 e 99

66 versus 99

Para escrever setenta e sete palavras há 66 formas diferentes de pensar e 99 textos possíveis para o dizer. Vou deixar apenas um. É um desafio apaixonante, é como amar à distância e parecer próximo. Entranha-se na pele, adormece connosco e acordamos com ele. Ajuda-nos quando estamos tristes e acompanha a solidão das noites difíceis, celebrando juntos as conquistas e as vitórias. São palavras onde entram os algarismos, são a vida do blogue numa capicua de emoções.

Alda Gonçalves, 46 anos, Porto
Publicado aqui: http://macadejunho-mafaldinha.blogspot.pt/

Desafio nº 66 – números 66 e 99

23 maio 2014

Programa Rádio Sim 263 – 23 Maio 2014

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A velha escola
Olhou, de cima, a pequenina figura.
– Reguadas por não saberes a tabuada – disse: voz esganiçada, sorriso prazenteiro.
A miúda olhou-a: apavorada. Inundou-se de medo. Procurou-lhe os olhinhos minúsculos, de cor indefinida, no fundo daquelas lentes espessas que os deformavam. Aventurou-se a olhar-lhe o carrapito – tão ralo quanto a sua escassez de bondade. Parecia-lhe o esqueleto perfilado na sala.
Os olhos transbordaram de lágrimas mas pensou: “Dói-me. Vai passar. Tu, tão ruim, hás-de ser Pastorisa toda a vida.”

Maria José Castro, 54 anos, Azeitão
Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

Mensagem para a humanidade

No bilhete de identidade foi carimbado pelos nazis, em letras grandes, JUDIA. A partir de então tudo mudou. "Verboten fur juden" – não tinha nenhuma liberdade.
Num dia, o comboio da morte levou-a junto com muitos outros para Auschwitz. Ali foi tatuado no seu antebraço KZA 66.99
Dos vinte cinco mil judeus belgas transportados para Auschitz apenas mil e trezentos sobreviveram a este flagelo.
Não o deixemos acontecer de novo, esta é sua a mensagem para a humanidade.

Theo De bakkere, 61 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 66 – números 66 e 99

22 maio 2014

Programa Rádio Sim 262 – 22 Maio 2014 – Desafio nº 64

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A fuga
Depois do fim desta passagem haverá um caminho?
Preso no tempo e no espaço, estranhamente protegido, é desconcertante não poder fazer nada. Descobri entretanto, que, se me mover muito lentamente, ninguém dá por isso.
É um processo doloroso mas poderá ser a minha fuga.
Sinto que perco o controlo do corpo e uma onda de dor toma conta de mim.
Que luz fortíssima é esta que me fere os olhos?
Grito e ouço gritar: é um menino!

Concha Cassiano Neves, 67 anos, Lisboa
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

99

Bastaram 66 segundos para me apaixonar por ti. Fulminado pela tua presença, um turbilhão de sensações levaram-me para longe. Consegui levar-te comigo. Os tempos que dedicamos um ao outro realizaram-me plenamente. No entanto tudo se resume num número, 99, estes foram os meses da nossa relação. Colecionei-os todos na minha memória. É tudo o que me resta, já não te tenho a meu lado, eras a melhor parte da nossa relação. Um vazio tomou o teu lugar. 

Paulo Renato, 38 anos Maia
Desafio nº 66 – números 66 e 99

Velas trocadas

As velas de aniversário não tinham ponta de pavio para se poderem acender. Pudera,  a avó Celeste tinha-as virado ao contrário. O ar maroto desmascarou-a. Filhos e netos, fingindo-se indignados, reclamaram:
– Já tem idade para ter juízo!
– Por isso mesmo, se não me ponho a pau, fico uma velha de cem anos. Falta um número aos 99, mas enquanto der, vou enganando as dores dos ossos...
Todos aplaudem e felicitam a avó Celeste pelas suas 66 primaveras!

Regina Graça, 50 anos, Coimbra
Desafio nº 66 – números 66 e 99

Emergência nos números

Reinava a confusão no mundo dos números. Era o desafio 66, mas ninguém o encontrava. Algum invejoso resolvera estragar o desafio das 77 palavras...
Chamaram o 112, número respeitado que só convocavam nas urgências! Este reuniu todos os números. Um a um foram interrogados. Até que chegou ao 99... Atrapalhado acabou por confessar: Tinham-se apaixonado. Viviam juntos e tinham resolvido dividir tarefas. Assim iam alternando entre o 66 e o  99.. E o desafio acabou em boda!!!!

Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa
Desafio nº 66 – números 66 e 99

Amor de mãe

Acariciava-lhe as mãos cheias de calos, mãos de quem trabalha a terra.
Durante muitos anos envergonhara-se delas, melhor, de a quem pertenciam!
Aprendera com a vida a reconhecer-lhe o valor. Arrependia-se da sua futilidade.
Nunca quisera ir a casa nas férias, nem no natal. Preferia ficar em Lisboa com os tios. Sua mãe tudo desculpava. Mas ela não se perdoava, nunca esqueceria que hoje, graças àquelas mãos, aos sacrifícios da sua querida mãe Pastorisa, era advogada.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas
Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

1948

Exactamente, 66 anos!
Fui almoçar ao restaurante,  encontrei  um amigo que por acaso faz anos no mesmo dia.
Fiquei  satisfeita pela oportunidade de comemorarmos juntos.
Todos os familiares eram amigos comuns.
Surpresa. Haviam mandado fazer um enorme bolo, com velas e tudo.
Mas foi uma grande confusão!
Punha-me dum lado, 99, ia para o outro, 99. O meu amigo fazia 99 anos e cada vez que me virava, via as velas de pantanas! 
Foi mesmo uma festa...

Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo  

Desafio nº 66 – números 66 e 99

21 maio 2014

Programa Rádio Sim 261 – 21 Maio 2014

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Diagnóstico
Jovens estagiários de medicina, acompanhados pelo professor, à enfermaria do hospital:
– Agora vão observar a doente e digam-me qual é o vosso diagnóstico – diz o professor.
Um a um começam a relatar um rol de doenças e consequências à frente da paciente, numa atitude desenfreada para agradarem ao mestre. Inesperadamente, sem que ninguém esperasse, ouve-se lá ao fundo:
– Desculpe, como se chama? – Todos se afastam.
– Pastorisa – responde apreensiva.
– Invulgar o seu nome. Sossegue, não tem nada grave.

Isabel Branco, 53 anos, Charneca de Caparica
Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

Inesperado Reencontro

– Mizé!! Oh, Olga... Não acredito!  O átrio do Hotel àquela hora concorrido e formigando, susteve o rumor, tal a efusão do reencontro das duas amigas. O tempo que as transcendeu – trinta e três anos – não lhes apagou a amizade nem as feições. Recordações da escola, agora evocadas num hotel de férias.
Conversa feita, estavam afinal no mesmo andar.
O destino a uni-las,  coincidentemente o número trinta e três a separá-las: Mizé no quarto 66, Olga no 99.

Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa
Desafio nº 66 – números 66 e 99

Os TPC

Rita, quando chegou a casa, encontrou os avós maternos, sorridentes para a receber.
Foi uma surpresa para ela, amava os avós...!
Mais tarde, já cansada e com sono, lembrou-se que não tinha feito os TPC... Ainda por cima tinha que escrever os números até 100... e agora?! A muito custo começa a escrever, chegou ao 66 adormece. Quando acorda, olha para o caderno e continua a escrever os números, e no 99, chega a mãe... Vamos Rita!

Prazeres Sousa, 51 anos, Lisboa

Desafio nº 66 – números 66 e 99

20 maio 2014

Programa Rádio Sim 260 – 20 Maio 2014

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Depois do fim
Depois do fim… afinal não acabou, o fim não existe, tal como pensava que ele seria.
Continuo sendo quem sou, apenas me libertei dos limites que julgava serem os meus.
Acreditava que a nossa relação me definia, que a minha vida girava em torno de ti, que eras o meu mundo. Eras o ar que alimentava o meu existir e quando me deixaste, o fim que tanto temia na verdade não me consumiu.
Descobri que sou livre.

Paulo Renato, 38anos, Maia
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Apanhado

A irmã, sem cerimónias, enfiara-lhe a mão no bolso do casaco e, agora, exibia os malditos números 66 e 99.
– Juro que não sei como isso veio aqui parar.Desculpas, já as arranjara melhor. Estava perdendo qualidades. Sentia a face queimar como no inferno, e suava em bica debaixo da camisola, ao mesmo tempo que contemplava a prova do seu delito. Pior do que fazer batota, é ser-se apanhado.
Mais uns minutos, e teria conseguido fazer bingo.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Desafio nº 66 – números 66 e 99

Rebeldes

– Olá 66!
– Olá 99!
– Porquê é que estás ao contrário?
– Para ser diferente dos outros todos. Sabes como é, sou do contra!
– Gostava de perceber essa tua cabeça, tens sempre umas ideias viradas do avesso.
– Sou original, o que me torna único. Não te cansas de ser como os outros?
– Só sou como os outros aparentemente, mas cá dentro sou como tu, rebelde.
– Então mostra o que és, surpreende-me!
– Zás! Que tal te pareço? Sou o 00.

Isabel Pinela, 41 anos, Amadora
Desafio nº 66 – números 66 e 99

Publicado aqui: http://rabiscosdeletras.blogspot.pt/2014/12/rebeldes-ola-66-ola-99-porque-e-que.html

A importância de um tracinho

Essa história dava comigo em doida, quando jogava ao loto improvisado. Ter de colocar uns tracinhos por baixo para se distinguirem os números era uma boa estratégia. Mas lá havia uns espertinhos que não assinalavam nenhum dos blocos. O primeiro número que saía passava a 66 ou a 99, consoante a conveniência. O número marcado, diziam eles, era sempre o que permanecia  no saco.  E a marosca só se descobria quando mais um bloco não sinalizado aparecia...

Elsa Rodrigues, 41 anos, Lisboa

Desafio nº 66 – números 66 e 99

Inversões

Os 2 amigos dobravam-se sobre si próprios com as mãos amparando-lhes os ventres.
– Ainda me saltam as vísceras com tantas gargalhadas: mais do que 66! – dizia o Rui numa linguagem que o riso abafava.
A brincadeira durava há 3 semanas. Resultava sempre. O Manuel, mais franzino, trepava para cima do muro. Num golpe circense encavalitava-se no Rui. Caminhavam, tipo gigantones, até à porta da Silvina e… invertiam os algarismos de metal: deixando o 99 num equilíbrio periclitante.

Maria José Castro, 54 anos, Azeitão
Desafio nº 66 – números 66 e 99

66 é igual a 99

66 vezes contei e recontei
confirmando valor recebido
sei que exagerei
valor não era tão comprido
É que sempre fui desconfiada
dessa pessoa em questão
entre muitos era discutida
sua falta de atenção

O valor da prestação
de minha máquina de lavar
era 99 reais, pagamento exato, que aflição
melhor conferir antes de na loja chegar
Pra completar meu dia
nas "Lojas 99" cheguei
66 pessoas na minha frente, que alegria
66 vezes, de novo, 99 recontei

Majoli Oliveira, 53 anos, Caçapava, São Paulo, Brasil

Desafio nº 66 – números 66 e 99

Razões para não acordar!

Deitou-se ensonado com a pressão do preconceito, qual diabo procurando a pureza dos céus. Queria dormir o sessenta e seis e repousar as costas largas das maleitas. Inverteu-se nos sonhos e encontrou um mundo de pernas para o ar, no qual havia noventa e nove razões para não acordar. As nove dezenas adoravam as novas unidades. Viviam juntas, pois eram as derradeiras na composição dos dois algarismos... Despertado pelos sete anões, pediu o desejo da irrevogável hibernação.


Hélder Rodrigues, 35 anos, Vila Nova de Gaia 
Desafio nº 66 – números 66 e 99

Superticiosa!

Ela olhava para a folhinha.
O tempo passara depressa demais, voara!
Supersticiosa, que nunca estacionava de frente à  carros cuja placa final 66, estava para completar tal número de anos.
Como faria? E toda sua família, nas festinhas colocava as famosas velinhas com os números indicadores.
Chega o dia, todos  jantam felizes.
Hora do bolo.
Eis que ela surge carregando-o com as velinhas viradas. Nem se importava de mostrar 99.
Todos diriam o quanto ela estava bem!
Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil  


Desafio nº 66 – números 66 e 99

Caminhar

Caminhava há muito. Há muito avançava sem chegar perto do fim. Há muito que não via ninguém e não ouvia o som de uma palavra, nem a sua. De súbito, à beira da estrada, um mendigo salta ao seu encontro e exclama, com ar esperançoso: “há muito que não vejo ninguém, posso caminhar contigo?”. A explosão de sensações foi demais e as palavras atrapalharam-se dentro de si. Fez uma pausa e seguiu. A solidão é companhia consoladora.

Tiago Viana, 36 anos, Parede

Desafio RS nº 13 – … palavras atrapalharam-se dentro…

Busca sem querer

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Nem sei se quero.
Maçã de pecado?
Tempo de agosto?
Ou rumba sem corpo?
Nem sei sequer se quero.
Mas procuro.
Laranja agreste em boca sem dor?
Outono verde em palha sem cor?
Dança cantada em tempo de amor?
Nem sei sequer se é isto que quero.
Fruto quadrado? Nuvem em linha? Redonda música?
Ou apenas o mundo?
Sei tudo. Sinto pouco. Faço nada.
E dormem mil gestos nos meus dedos.

1º verso – Procuro-te, in As Palavras Interditas, Eugénio de Andrade
Último verso – Hora, in Dia do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen

Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa  

Desafio nº 35 – partindo de dois versos de autor