30 abril 2014

Aula de dança

Não foi por coincidência que participei numa aula de dança.
O meu motivo sincero era a linda Maria Pastorisa que mora no nosso bairro.
O professor chamou:
"Senhoras! Escolham o vosso par.”
Um instante, senti uma opressão, pois Maria olhava na direção oposta. Ergui a cabeça, a minha deusa morena estava de olhos meigos e sorriso inesquecível à minha frente.
Ao dar o primeiro passo, ela dava-me asas e, como cisnes amorosos, dançaríamos juntos a noite inteira.

Theo de Bakkere, 60 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

Graças ao nome

Tinha um nome no mínimo, peculiar o que lhe conferia uma personalidade arredia.
Nos primeiros anos de escola sua grande tortura era a hora da chamada.
Primeiro porque não havia professora que não gaguejasse à primeira leitura! Depois pelos risinhos dos colegas que sempre a incomodavam. Encolhia-se.
Hoje, já adulta, ainda ouve as crianças a gritarem à hora do recreio: – Pastorisa, Pastorisa! Escondia-se.
Por destino ou força das palavras foi pregar na Igreja Universal: Pastora Isa.

Anne Lieri, 53 anos, São Paulo, Brasil

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

A armadilha

– Quem te contratou? – perguntaram-lhe pela terceira vez, e pela terceira vez permaneceu em silêncio. 
Estava habituada a estes exercícios. Quantos fizera? Quinze, vinte? Não sabia e isso pouco importava. O que a perturbava era o facto de se ter deixado apanhar. Ela, Pastorisa, fora a melhor do curso, como não vira a armadilha que se delineava?
Refletia sobre isso, quando sentiu o cão roer a corda que a amarrava. Respirou fundo. Seria vencedora também na vida real.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

O remorso

Após anos sem voltar à sua cidadezinha natal, Pastorisa, ora ruiva, vestido curto, justíssimo, saltos altíssimos, novamente lá chegava.
O funeral de Dona Mariela, sua mãe, que falecera , aguardava sua chegada para ser enterrada.
Parecia fria, insensível. Fazia apenas presença e marcante: os olhares todos em sua direção!
Conseguira assim, o que prometera: Voltar “por cima”!
Acabado tudo, vai à casa da mãe!
Sozinha, vê o quadro, sua foto no colo dela!
Chora. O remorso corrói!

Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil  

Desafio nº 65 – chamavam-lhe Pastorisa

Programa Rádio Sim 247 – 30 Abril 2014

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Depois do fim, começava tudo o resto. Parecera uma batalha sem fim: finalizar a licenciatura e apresentar a tese, não sem vacilar, como quase todos. Agora recebia o diploma. Pela frente, um estágio profissional. Depois disso, outro. Depois disso… não fazia ideia. Poderia fazer as malas, como tantos amigos e colegas, partindo para outros países, outros trabalhos, outros desafios, outras condições. Contudo, o maior desafio persistiria: que sabia ele da vida real de trabalho? Muito pouco mesmo.

Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Desafio nº 65

O que vos peço hoje é que trabalhem uma personagem: podem dar-lhe a personalidade, idade e aspecto que quiserem, mas preciso que me contem uma cena da vida dela. O único detalhe imposto é este: chama-se Pastorisa.


O nome presta-se a imensas interpretações, como calculam. A mim, levou-me a esta história:

A porta do gabinete abriu-se. Ao levantar os olhos, deparei-me com uma miúda magra, de olhar assustado e medo nos movimentos. Tinham-me avisado: seria um caso difícil. Percebi depressa. A dificuldade não seria o comportamento, mas sim a ausência dele. A mão que a segurava não afrouxava a tensão, pois fugiria. Levantei-me, fui até perto dela e ajoelhei-me. Ficámos da mesma altura.
– Chamam-lhe Pastorisa, senhora directora, ninguém lhe conhece outro nome.
– Olá, Pastorisa. Bem-vinda a esta casa.
Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa

29 abril 2014

Programa Rádio Sim 246 – 29 Abril 2014

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A agulha e o dedal
A agulha e o dedal conversam numa prateleira cheia de pó
– Como é possível alguém esquecer-se de mim? Com a falta que faço – disse o dedal
– Convencido! Todos fazemos falta, foi descuido da pobre senhora…
– Não nos liga nenhuma, é o que é.
– Tens de perceber que já não consegue alcançar-nos, com a idade que tem.
– Desculpas para mandriar.
– Não digas isso! Ela nem devia viver aqui sozinha.
E calam-se olhando a senhora sentada tristemente no sofá.

Carla Silva, 40 anos, Barbacena, Elvas
Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

A ti, simplesmente

A ti, que diluis os meus defeitos no carinho verde do teu olhar.
A ti, que procuras o meu colo na calma da tua maciez eterna.
A ti, que olhas as minhas fúrias como simples momentos a esquecer.
A ti, que aceitas todas as minhas propostas sem sombra de alteração.
A ti, que nunca questionas.
A ti, que fazes do silêncio um poema em meu louvor.
Para ti, Rodolfo, meu gato maravilha, estes setenta e sete miados…

Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa

Desafio nº 26 – dedicatória para alguém

A gotinha Miquelina

 “Ai… a geada esta noite foi horrível. Dá cabo do nosso verde! E ninguém faz nada por nós!”
A gotinha Miquelina abre os olhos, sacode as longas pestanas num bocejo e pensa “Conversa tola! Folhas presumidas… Farta! Vou-me embora.”
Mergulha… Troca o verde pelo azul.
Devagar, aproxima-se da lisa transparência que, lá em baixo, saúda a manhã numa gargalhada de água doce. Chega. A alegria transforma-se em abraços bem redondinhos, que a envolvem no infinito da lagoa.


Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa
Desafio nº 43 – imagem de uma gota a cair numa superfície lisa de água

28 abril 2014

Programa Rádio Sim 245 – 28 Abril 2014

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Chegou Abril!
Chegou Abril, mês de mudança. Mês de mudança que veste os campos de verde, decora os montes com papoilas encarnadas. Papoilas encarnadas como o sangue. O sangue que nos dá vida para apreciarmos o azul que se instalou nos céus. Céus de azul sarapintado de pequeninas nuvens fugidias. Nuvens fugidias que dispersam dissimuladamente como a nossa liberdade. A nossa liberdade que vai sumindo, a cada dia. A cada dia – tenho esperança -, e digo sempre: já chegou Abril.

Maria José Castro, 54 anos, Azeitão
Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

27 abril 2014

O apelido da alma

O banco é de madeira. Antigo. Preso ao chão.
O homem é daquilo que é feito um homem. Muito antigo. Preso à vida.
Parecem um só.
O sol cresce para o dia enquanto o Tejo desliza num espelho de luz.
Aqui viu o pai mergulhar para a morte. Aqui chorou tristezas de filhos. Aqui perdeu uma mão cheia de sonhos, gastos no medo. Aqui seu apelido foi ficando preso em arame farpado.
Seu apelido? Ou sua alma?

Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa  
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)


Novo romance - De zero a dez

De zero a dez
A vida no silêncio da dor
Falámos muito na Rádio SIM do livro "De Zero a Dez", eu e Helena Almeida, a minha querida companheira das 77 palavras. 
(Edição Clube do Autor)


Sinopse:
Leonor é uma mulher a braços com uma doença crónica, sem saber como conviver com o cansaço da dor e da dor do cansaço. Vê a sua vida espartilhada por condicionantes que influenciam o dia-a-dia, mas também o futuro.
É através da ajuda de amigos, de uma relação médico/doente equilibrada, que reencontra uma vida a que pode chamar sua, onde a felicidade e o empenho no trabalho passam a ser uma realidade concreta, possível e enriquecedora, uma vida onde a dor deixa de ser o centro.
Este é um romance sobre a dor crónica. É igualmente um livro terapêutico, onde os caminhos e as estratégias para lidar com a doença se revelam a cada passo. É, sobretudo, um romance com esperança por dentro.

Nota de autor:
Há circunstâncias que nos obrigam a parar e mudar. Foi isso que me aconteceu quando percebi que teria de adaptar a minha vida às possibilidades reais deixadas em aberto por uma patologia músculo-esquelética. Não foi fácil, nunca é. Sendo a palavra a minha forma de comunicar, a ideia foi-se instalando em mim: porque não escrever sobre quem coabita todos os dias com a dor crónica, o cansaço e as limitações?
Foi assim que surgiu este livro. É o somatório de experiências pessoais, minhas e das pessoas que aceitaram partilhar comigo o seu viver diário, num entrançado de crises e soluções, sonhos e frustrações, medos e esperanças. Tinha como objectivo dar conforto a quem é doente, mas também ajudar quem com ele convive a entender as limitações e as forças, seja numa vida em comum, no trabalho ou na amizade. Espero ter conseguido atingi-lo. A mim, organizou-me por dentro e deixou-me em paz com a doença.

26 abril 2014

Infernização!

Depois do fim da implementação do novo acordo ortográfico, gramática simplificada, uma língua unificada.
Tarefa ingrata para professores! Somos atores e espetadores, expetantes entre comummente e comumente, hífenes e hífens, cor-de-rosa e cor de laranja. A hifenização transformou-se em infernização!
Escreve o aluno: – Que admiração tenho pelo pelo dos coelhinhos!
Pela manhã, a mãe do João pela a maçã que ele come com satisfação.
Quem para esta confusão para uma verdadeira unificação? O Antônio ou o António?

Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Olhos brilham, lágrimas caem

Sinto-me impotente, olhando-a deitada.
Ultimamente está sempre deitada. Tento conter as lágrimas. Minha mãe definhava dia-a-dia. Só me resta ajudá-la. Tentar aliviar seu sofrimento.
Sempre fora muito alegre. E agora ali estava. Prostrada, alheia a tudo. Doí vê-la assim, imóvel. Lágrimas brilham-lhe nos olhos. Dão sinal de entendimento. Parecia perceber meu sofrimento. Como só mãe percebe. Sofrendo, sofrendo por mim. Toquei seu rosto cansado. Quase juro que sorriu. Pelo menos assim penso. Olhos brilham lágrimas. Lágrimas caem.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio RS nº 12 – texto em prosa com frases de 4 palavras

Dona Antónia

Ali estava Dona Antónia, sozinha após a ida ao hospital. A ida ao hospital foi em consequência da sua pouca saúde. Pouca saúde era o que lhe restava dos 90 anos de vida. 90 anos de vida, parecia uma eternidade. Parecia não, era uma eternidade. Era uma eternidade também o que tinha de esperar cada vez que ia ao médico. Ia ao médico uma vez por mês para passar medicamentos. Para passar medicamentos ali estava Dona Antónia.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

25 abril 2014

Programa Rádio Sim 244 – 25 Abril 2014

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25 de Abril
No 25 de Abril
Dia da revolução,
Nossos valentes soldados
Fizeram livre a nação.

Fizeram livre a nação,
E cravos apareceram.
Nas ruas da Capital,
Uma canção entoaram.

Uma canção entoaram,
Sem medo, com verdade.
Grândola vila morena
Terra da fraternidade.

Terra da fraternidade,
Ouvia-se em todo o lado.
Na boca de muita gente,
Do povo que sofreu calado.

Do povo que sofreu calado,

Cantavam bem mais de mil,
No dia da liberdade,
No 25 de Abril.

Isabel Branco, 53 anos, Charneca de Caparica
Desafio nº 63 – fim de cada frase é igual ao início da próxima…

25 de Abril de 2014

Depois do fim de muitos anos de escuridão apareceu a luz. Foi uma claridade muito intensa: deixou ver novas cores, ler novos poemas – bolorentos dos muitos anos expostos à humidade das gavetas –, cantar cantigas escondidas e engasgadas nas gargantas, abraçar antigos amigos encarcerados por palavras e pensamentos, falar! Hoje cantamos – mesmo que a angústia de alguma luz perdida nos deixe um nó no estômago – e gritamos e falamos. Não deixemos, nunca mais, que nos privem da luz.

25 de Abril de 2014 – Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

24 abril 2014

Programa Rádio Sim 243 – 24 Abril 2014

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O apelido ficou preso no arame farpado
Enquanto o dia não vem, perco-me neste silêncio aterrador.
Imagino como seria viver ali.
O Pai costumava dizer para não me preocupar, mas preocupo-me. A Mãe diz que o papá volta um dia destes.
Sei bem que não, vi quando o levaram. Tapei com toda a força os meus ouvidos mas ainda pude perceber que nunca mais o voltarei a ver.
O apelido ficou preso no arame farpado. Um herói... amador.
Resta-me agora a Mamã, até ver.

Celeste Silva, 43 anos, Coimbra
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Fim e Recomeço

Depois do fim é o recomeço. Depois que algo acaba, acaba porque a sua missão foi cumprida. O espaço antes ocupado, passa a ser preenchido de outras formas que vão moldando os contornos do mundo.
Esgotado o tempo na finitude aparente, são outras as dimensões: um material que é adaptado a outros fins, um ser que cristaliza e enriquece a natureza.
Utilidade e diversidade permanecem, só que sob diferentes conceitos e formas.
Depois do fim, tudo continua.

Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

A encruzilhada

Depois do fim
Surgiu a encruzilhada
Que me lembrava tudo
E não me dizia nada.
E neste silêncio nu, eu
fui em busca do destino
mas o destino eras tu.
Insisti em prosseguir, eu
e o meu sonho preso ao chão
mas outra encruzilhada 
haveria de surgir
pintada pela solidão.
Perdi-me no cansaço
e deixei-me adormecer.
Quando acordei, olhei o Céu,
fez-se Luz dentro de mim e 
foi aí que descobri que no
Amor não há fim.

Júlia Braga, 57 anos, Oeiras

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Depois do fim o que há, Avó?

Depois do fim o que há, Avó?
Depois do fim, há um lugar mágico onde voltamos a encontrar os nossos amigos. Não há frio, não há fome e as estrelas são a nossa luz.
Lá, os pais têm tempo para os filhos e os Avós contam histórias de encantar...
Não há guerras, não há dor e não há medo, pois só existe amizade. Mas há sonhos luminosos que nos preenchem o coração. E esse lugar chama-se AMOR!

Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

23 abril 2014

Programa Rádio Sim 242 – 23 Abril 2014

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A primeira viagem
Eras o meu marA tranquilidade que me aquietava o coração, partilhando confidências  numa encruzilhada de sentimentos sem regras, sem limites, sem a sede de vivermos outras palavras, que não as nossas. Partiste. Sem remorso, sem compaixão e desmentiste o “nós” imenso que fomos.
Sou agora o susto da minha pequenez, vivendo uma anarquia de desencontrosuma coleção de reservas amedrontadas numa concha vazia. Um marinheiro de primeira viagem à procura de mim mesma. Da essência de mim.

Sandra Évora, 40 anos, Sto. António dos Cavaleiros  
Desafio nº 54 – pares de palavras com sentido contrário

22 abril 2014

Programa Rádio Sim 241 – 22 Abril 2014

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Sempre
Sempre que a noite chega me entristeço e me pego entre poesias...
Sempre me ponho a pensar em ti, tão distante de mim.
Sempre enfronho-me em meio aos meus travesseiros e bagunço os pensamentos.
Sempre imagino serem eles os teus braços, teu abraço que vicia!
Sempre me surpreendo ao ver que não:que ironia do destino!
Sempre aninho-me feito uma criança embirrada e deixo a lágrima cair.
Sempre rezo pedindo para contigo sonhar: feliz ao te reencontrar!

Anne Lieri, 53 anos, São Paulo, Brasil
Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida
Publicado aqui: http://asasdosversosereversos.blogspot.com.br/2014/03/sempre.html

Luzes da Ribalta

Depois do fim, os aplausos, cai o pano, o público aplaude, ela agradece.
Apagam-se as luzes. A peça acabou, tira a maquilhagem, liberta-se das vestes, aos poucos vai despindo a personagem. Sente-se nua, desamparada, só. O palco é a sua casa, a personagem que interpreta é ela própria, aquela peça é toda a sua vida.
Ela sabe que um dia aquelas luzes se apagarão para sempre, depois da derradeira e maior ovação de toda a sua vida.


Isabel Branco, 53 anos, Charneca de Caparica
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Depois do fim, nem o céu existe

Depois do fim, nada mais restou. Foi uma história de amor, como tantas outras. Para uma história de amor terminar, basta um desistir, e a história termina logo ali. E nesta, já não havia olhares cruzados, nem se cruzavam os sentidos. Já nada se cruzava naquelas vidas. Todo o fim tem um começo, com os mesmos corações, os mesmos olhares cruzados, as mesmas vidas, os mesmos corpos. Apenas uma coisa despareceu, o céu que existia nesse sentir.

Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

21 abril 2014

Programa Rádio Sim 240 – 21 Abril 2014

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Eu pedi...
Eu pedi a um pintor que me pintasse o amor... 
Eu pedi a um inventor que me construísse o amor...
Eu pedi a um cantor que me cantasse o amor...
Mas, nem pintor,  cantor, muito menos o inventor me demonstrou o amor. 
Agora, enquanto escritor, desenho palavras de forma cuidada, construo uma linda canção para que alguém a possa cantar. Porque amor é tinta que escorre, música que toca, é uma construção inacabada de um texto inexplorado. 

Ana Sofia Cruz, 16 anos, Valongo
(sem desafio)

Depois do fim, era a incerteza.
Irma olhou em volta, a perplexidade estampada no rosto.
Para dizer a verdade, guardara uma réstia de esperança de que alguém a aguardasse. Contudo, viu-se sozinha, parada num amplo vazio, diante do portão que se fechara, devolvendo-lhe a liberdade. Ali o ruído era bem diferente do constante zumbido da prisão.
«Fantástico», quis gritar ao sentir-se dona da sua vida, mas não conseguiu. Olhou à direita, à esquerda e seguiu em frente.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Talvez...

Depois do fim do nosso tempo nesta lindíssima planeta azul. Onde ninguém possui a eternidade e o relógio de tempo faz tiquetaque sem parar. O ponteiro aponta para cada hora e tempo, mas não indica a hora que devemos à morte! Com cada tiquetaque decorrido, menos sobeja do nosso tempo neste prodigioso globo. Ora! Aproveite, carpe diem. A última badalada pode vir mais cedo que alguém pense. Uma viagem mágica entre as estrelas está à espera, talvez.

Theo De Bakkere, 60 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

20 abril 2014

Um segredo tão bem contado!

Há muitos segredos, mas uns são mais importantes do que outros.
Desloquei-me a Braga para assistir a um espectáculo que tinha como base o meu livro "O Segredo da Floresta", levado à cena por 100 alunos do antigo liceu Sá de Miranda, dos cursos profissionais, com direcção artística de Ana Sofia Vieira e Vasco Otero, no Theatro Circo.
Queria dizer-vos a todos, alunos, professores, ajudantes, que foi um dia muito importante para mim.
Parabéns a todos! Obrigada.

Margarida Fonseca Santos, depois de assistir a um espectáculo magnífico.

Visita à Eb1 Bracara

Não queria deixar de vos enviar uma história em... 77 palavras.
Conta a história que fui à Eb1 Bracara mesmo quase no fim do período lectivo.
E que encontro eu por lá?
Leitores de todos os tamanhos, que fizeram dos meus livros teatros, brincadeiras e textos, que fizeram do meu dia algo que não esquecerei.
Como se faz isto?
Com pessoas especiais. Obrigada a todos os professores e todos os alunos, às vigilantes que connosco estiveram e sorriram como nós.
Foi um dia muito feliz, sabiam? Obrigada!

Margarida Fonseca Santos, depois de uma visita de autor absolutamente memorável...

Depois do fim

Depois do fim ela suspirou!
Não pode deixar de chorar...E chorou muito!
Entretanto, sabia que havia sido o melhor que o destino poderia fazer.
Há momentos que o futuro nos reserva mais dores se permanecermos do mesmo jeito.
Ele se foi e iria sofrer se vivesse. Ela sabia.
Agora estava sozinha na grande casa...Que engraçado! Antes não parecia tão grande assim...
Ele ocupava todos os espaços, mas o coração dela reclamava de dor: nunca estivera tão vazio!

Anne Lieri, 53 anos, São Paulo, Brasil

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”
Publicado aqui: http://asasdosversosereversos.blogspot.com.br/2014/04/depois-do-fim.html 

E depois do fim?

Depois do fim é tempo de eterno recomeço. O dele, chegou depois do adeus.
Memórias surgem-lhe como cenas num filme.
Na rádio, falava-se em golpe de estado. Na televisão, os personagens vestiam farda. Em casa, a vida ficou suspensa… O ministro rendeu-se, o regime morreu. Uma espingarda floriu vermelho.
Segurava a mão da mãe com força. Os portões abriram-se. A prisão gritava liberdade. O pai corria para eles. Não o abraçava ia p’ra três anos.
Era Abril.


Fernanda Elisabete Gomes, 58 anos, Lisboa
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Sentido das Coisas

Depois do fim, recomecei ali. A vida não dá duas oportunidades iguais diz-se…, mas naquele dia, tudo volatizou. Renasci…
Até ali, o mundo era-me pequeno, os objectivos imensos, inatingíveis. Vivia ambicionando chegar-lhes, ultrapassá-los, porém, inesperadamente, algo nos faz mudar de rumo, suavizando esperas, atenuando danos. Despertei a cegueira que habitou meus olhos, irrompendo mundos ignorados. Hoje, o mundo é-me maior, meus olhos vagueiam na sua beleza, compreendem-lhe o sentido, porque depois desse dia nada mais foi igual. 

Graça Pinto, 55 anos, Almada

Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”

Páscoa dos pijamas?

Depois do fim do feriadão de Páscoa, ela que sentia seu coração apertado, pensava...
– Não havíamos combinado que seria uma Páscoa dos pijamas?
As crianças em lugar de ovos ganhariam pijamas, sempre necessários quando o tempo lá fora começa a mudar e esfriar.
Todas ganharam! Ficaram felizes.
Porém, ao olhar sua mesa de Páscoa, o que via? Chocolates, ovos de montão!
Agora? Sabia que ao fim dos festejos, não apenas o coração apertava: as roupas igualmente, rs...

Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil  
Desafio nº 64 – texto começando por “Depois do fim…”