28 fevereiro 2014

Programa Rádio Sim nº 206 – 28 Fevereiro 2014

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No site da 
Rádio Sim

À espera
Chutou outra pedra. Estava há horas à espera da miúda. Ela? Népia! Silêncio total. Naquele telemóvel, de última geração, ouvia-se a música daquele bacano inglês que bombava decibéis estridentes, que, mesmo assim, não abafaram aquele ronco que lhe saiu das profundezas. Maldito ruído, vinha do estômago. Até o Gimbras, sentado ao seu lado ouviu e sorriu.
– ‘Tá-se? – indagou.
–‘Tá-se! – respondeu-lhe o Gimbras, suavemente.
O bacano riu-se, e, enquanto esperou, conseguiu falar com alguém em português. Really amazing!

Mia dos Santos, 53 anos, Leiria
Desafio nº 52 – uma história com música, ruído e silêncio

Amigo, sabes?

Bom dia, caro amigo desconhecido
Saber pode estar ao teu alcance, basta quereres
É preciso escutar e renovar o teu armário frequentemente
O lazer pode não ser de todo prazenteiro
Calar pode ser vantajoso e prudente ao mesmo tempo
Até porque devemos estar atentos e ser sentinelas do nosso bem-estar
Ser inteligente e perspicaz é uma mais-valia
Tempo não pode faltar
De organizá-lo com certeza, é só por mãos à obra
Falar apenas quando é necessário, certo!?

Carla Monteiro,

Desafio nº 30 – provérbio à esquerda na folha imposto

Mau feito

Como acabar com o mau feitio:
– uma chávena almoçadeira cheia de sorrisos,
– duas chávenas almoçadeiras de boa disposição,
– dois copos de paciência,
– uma colher de chá de inteligência,
– doçura e simpatia quanto baste.
Mexa tudo com amor e dedicação.
Eis então que vai ao lume. Envolva o preparado serenamente. Sente-se e relaxe.
Pois bem! Está quase pronto!
Beba-o com sabedoria a cada dia. Sentirá um grande turbilhão e o azedume sairá como um foguetão. É bem fácil!

Amélia Pessoa, 40 anos, Sierre, Suíça

Desafio RS nº 10 – uma receita em 77 palavras

27 fevereiro 2014

Programa Rádio Sim nº 205 – 27 Fevereiro 2014

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Ups!
Nem queria acreditar: convidaram-me para entrar num torneio de basquetebol inter-turmas. Agora que ali estava, tinha de pegar na bola, desse por onde desse! Que é que eu fiz? Bancadas a abarrotar, a vedeta sai disparada às pernas do detentor da dita-cuja, e, zás, corre para o lado contrário em direção ao cesto. Entrou? Não sei. O árbitro apitou, chacota geral… Ah, pois, com o entusiasmo, esquecera-me de driblar. Desde aí, nunca mais tive medo de errar.

Paulina Salvador, 45 anos, Viana do Castelo
Desafio nº 53 – uma imagem, bola de basquete (literal ou metafórica)

Não!

Não!
– Vá lá!
Não é não!
– Sempre não!
– Começa por merecer.
– Queres falar em merecer?! Não!
Certa manhã, depois de um telefonema, foi em direção ao quarto.
Não posso acreditar! Não vais às aulas há 3 dias! Quero uma explicação!
Não! Não atendeste o telemóvel! Não vens a casa. Não te passou pela cabeça que possa ter acontecido algo? Telefonaste? Não! Não queres saber!
Pensativa, saiu do quarto.
Mais do que dizer não, teria de estar presente.

Amélia Pessoa, 40 anos, Suíça

Desafio nº 59 – 14 vezes a palavra não

Sabes, pá?

– Olá, pá.
– Como estás, pá?
– Sim, estou bem, pá, e contigo, pá?
– Estou bem, pá, o que fazes, pá?
– A falar contigo, pá!
– Havia trabalhos de casa, pá?
– Sei lá, pá!
– Eu também lá sei, pá!
– Então quem sabe, pá?
– Lá sei, pá!
– Não me apetece fazer nada, pá!
– Eh, pá, e a mim!
– ‘Tá ali um boneco, pá!
– Sabias que estamos a falar para o boneco, pá?!
– Agora tenho de ir embora, pá!
– Eu também, pá.

Leonor, 10 anos, Colégio Dinis de Melo, Amor, prof Rosário Oliveira

Desafio nº 48 – diálogo em que uma personagem tem um tique de linguagem

Desilusão

Não sei o que aconteceu. Só sei aquilo que senti. Senti-me presa à tua vontade. Senti que estavas a sufocar-me de tanta indecisão. Queria certezas. Queria acreditar em nós. Queria continuar a tecer fios de ilusão na nossa verdade tão própria, repleta de cristais luzidios, de madrugadas breves e sonhos partilhados. Mas, o que ficou de nós? E ti? Talvez um sorriso distante, já que o apelido ficou preso no arame farpado na desilusão de uma vida.

Paula Cardoso, 49 anos, Barreiro

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Receita de bolinhos de coco muito fácil e rápida

Para fazer mais ou menos vinte bolinhos de coco é preciso duzentas e cinquenta gramas de coco ralado, igual quantidade de açúcar e quatro ovos inteiros.
Numa taça, misturo os ovos com o açúcar e em seguida, junto o coco. Não é preciso trabalhar muito a massa.
Enquanto o forno aquece, encho as forminhas de papel (com uma colher de sopa) com a preparação. Coloco no tabuleiro no forno e deixa-se alourar.
Não se querem muito cozidos!

Teresa Gomes Esteves, 52 anos, Bordéus, França

Desafio RS nº 10 – uma receita em 77 palavras

Tarte de requeijão

2 requeijões
350gr de açúcar
50 de manteiga derretida
5 ovos
100gr de farinha
Numa tigela amasse e misture bem o açúcar com o requeijão, à mão; depois de bem amassado junte os ovos, um de cada vez, batendo bem com colher de pau.
A seguir deite a manteiga derretida e por fim a farinha.
Deite na forma e leve a cozer em forno quente durante 25/30 minutos.
Pode-se servir barrado com doce de morango ou framboesa.

Carmo Soares Pires, 53 anos, Oeiras

Desafio RS nº 10 – uma receita em 77 palavras

Já encontrei

Já encontrei um belo ovo azul
azul como o céu
azul como o mar,
o coelho tinha-o escondido
no prado durante o luar.

Já encontrei um belo ovo branco
branco como a neve
branco como a prata,
afinal ,era só um ovo de Páscoa
o coelho tinha-o escondido
atrás de uma mata.

Já encontrei um belo ovo amarelo
amarelo como o ouro
amarelo como o sol,
ele estava dentro do ninho
logo pensei, era de um rouxinol.

Teresa Gomes Esteves, 52 anos, Bordéus, França

Desafio n.º 39 – história que contém a frase: “Afinal, era só um ovo de Páscoa”

Da Silva?!

Por quem dobram os sinos? Foi homem, mulher ou anjinho? Rosa apura o ouvido.
Foi homem. A notícia espalha-se pela aldeia e todos lamentam a morte de Joaquim Aguadeiro.
Faz-se o funeral com missa de corpo presente, à qual todos assistem, consternados.
O padre reza por alma do paroquiano Joaquim da Silva. Da Silva? Neste momento, no momento da partida, a morte retribuiu-lhe o apelido que tinha ficado preso no arame farpado.
Em vida, sempre foi Aguadeiro.

Joana Marmelo, 50 anos, Cáceres, Espanha

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Manelinho

Manelinho, assim lhe chamavam no colégio, estava ansioso pela chegada do seu dia de anos. Queria ver qual seria o presente fantástico que iria receber dos tios adorados, que o visitam neste dia. Os dias foram passando... O seu aniversário chegou! Com ele também chegou a prenda dos seus tios, Manelinho abriu a prenda e… Afinal, era só um ovo de Páscoa... Mas, com ovo de Páscoa, apareceu também o presente fabuloso que o Manelinho tanto ansiava!

Ricardina Gonçalves

Desafio n.º 39 – história que contém a frase: “Afinal, era só um ovo de Páscoa”

Ai, Nina!

O João e a Ana têm uma gata de seu nome Nina. E como é ela? Branca, preta e cinza às riscas. E o que faz? Dorme de dia e mia de noite. E porquê? Porque acha que na casa onde vive há ratos e outros bichos para caçar.
Como podem os donos dizer à Nina que onde moram, nem moscas há? E que de noite é para dormir e de dia é que é para brincar?

Paula Fialho Silva, 34 anos, Badajoz

Desafio nº 44 – palavras com apenas 1 ou 2 sílabas

Balneário Povoense 1

Eles vinham curvados pela força do trabalho com a sachola. Eram gente do interior norte. Traziam o dito papel que o Sr. Doutor lhes dera (receita). Vinham aleijadinhos, mal andavam, outros vinham ao colo. Tinham a esperança de voltar pelo seu pé, para abraçar os filhos de pé. Por lá ouviram dizer que as águas do mar da Póvoa faziam maravilhas contra o temido reumatismo.
Diziam regressando: realmente os banhos no balneário com água iodada fazem milagres.


Cândido Pinheiro, 74 anos, Póvoa de Varzim
(história sobre balneários da Póvoa de Varzim - imagem da maqueta, Cândido Pinheiro)

26 fevereiro 2014

Programa Rádio Sim nº 204 – 26 Fevereiro 2014

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Dantes...
Dantes, nossas palavras eram como beijos. Agora dada como perdida, procuro a tua mão, o teu sorriso. De vez em quando, a toda a hora, espreito à janela. Mais outro dia e mais outra noite, só. Caminharemos nós em sentidos opostos? Ter-se-ão tornado, os nossos sonhos, pesadelos? Sinto falta dos teus abraços.  Culpo minhas lágrimas e nossos segredos. Se um dia regressares e quando isso acontecer, que o tempo tenha perdoado, pois não sei se eu terei.

Raquel Carvalho, 32, Cascais.
"Sei que quando regressares dos teus pesadelos caminharemos outra vez de mão dada, como dantes." – Contos de Eva Luna, Isabel Allende.

Desafio nº 36 – uma frase de um conto de autor, usando as palavras por ordem inversa

Café e chá!

Ana quer Beber um Chá com a Dona da Empresa “Fato Garoto” na pastelaria “Helena”. Instala-se Já numa Larga Mesa. Não há chá. Opta por um Queque. Recusa beber, não tem Sede. Tem Uma Vontade de Xarope para o Zunido da garganta. Zás! Enfia o Xarope Velozmente! Usa o Telemóvel para ligar à Sobrinha Raquel. Quer O Ninho. Maravilhosa Loção. Já Ignora a História da Garganta. Fica à Espera Dentro do Café à Bera do Aeroporto.

Isabel Maria Salvado Zacarias, 44 anos, Neuville en Ferrain – Lille, França

Desafio nº 20 – usar o alfabeto duas vezes no início das palavras e por ordem!

Chocolate preto...

Hum! Eu gosto tanto de chocolate preto!
Hum! Há dias em que não posso passar sem chocolate!
Eu gosto do preto pelo seu sabor intenso e amargo,
Gosto do prazer que me dá sempre que o saboreio,
Tanto sei que ele é saudável para a minha saúde!
De facto, ao tocar as papilas, transmite alegria e o
Chocolate espalha pela minha casa o cheiro delicioso, o
Preto dá-lhe ainda mais força, caráter e sobretudo beleza.

Cecília Alves, 47 anos, Voinsles, França

Desafio nº 5frase de sete palavras, cada palavra está depois de 10 em 10 palavras

O mundo à nossa volta

Bom dia, disse a menina envergonhada!
Saber que tenho amigos, é sensacional.
É bom abrir os olhos… 
O mundo gira colorido à nossa volta!
Calar a boca é esconder-se da vida, é fugir à liberdade.
Até que alguém surge e nos desperta
Ser gente é ter vida, ter alegria!
Tempo existe para amar, para correr e brincar!
De vez em quando perdemo-nos e assustamo-nos com tudo o que vemos à nossa volta.
Falar enaltece a nossa alma!

Paula Matos Santos, 42 anos, Lausanne, Suíça
Desafio nº 30 – provérbio à esquerda na folha imposto

Bolos de leite da avó Ana

2 ovos inteiros, açúcar – 2 chávenas, azeite e leite – 1 chávena, manteiga – 1 chávena, cálice de aguardente e farinha necessária para ficar massa medianamente consistente, juntando um pouco de bicarbonato e/ou fermento. Batem-se os ovos com o açúcar, juntam-se os outros ingredientes, e no final a farinha. Põe-se a massa num tabuleiro com uma colher de sopa. Passa-se pincel molhado numa clara, bem como areias de açúcar. Vão ao forno até ficarem castanhos de barriga em cima.

Cecília Duarte, 53 anos, Unhais da Serra
Desafio RS nº 10 – uma receita em 77 palavras

As histórias

As crianças adoram ouvir uma bonita história antes de dormir.
Naquela noite, enquanto a mãe da Ritinha procurava entusiasmada uma história fascinante, a menina surpreende:
– Essa não, hoje tem de ser uma história inventada por ti, mãe!
A mãe, que não quis entristecer a menina, falou-lhe de um caracol amarelo que passava os dias a brincar com os outros bichinhos seus amigos.
Nesse dia, a Ritinha aprendeu que basta ter imaginação para fazer nascer sempre uma história.

Paula Matos Santos, 42 anos, Lausanne, Suíça
Desafio nº 2 – “Sempre quis ser uma história”, palavras obrigatórias por ordem inversa

A promessa

Ontem, disse que não voltaria a fazê-lo. Prometi, que não o faria. Como disse que não o faria, hoje não tenho a consciência tranquila… Não, não cumpri com o prometido. Não, não resisti… Não me soube controlar. Não fui forte. Não sei o que aconteceu. Na verdade sei, mas não quero admitir! Não lutei o suficiente e pequei. Não tive forças. Mas confesso o meu pecado: devorei um delicioso… pastel de nata! Mas, amanhã é que é!

Brigite Rodrigues, 35 anos, Luxemburgo

Desafio nº 59 – 14 vezes a palavra não

Determinação

Estava confusa, não sabia bem que fazer…
Dinis era simpático e de boas famílias.
Conhecido na cidade, era seu salvo conduto para uma vida mais franqueada que a sua.
Porém, aquela paixão não lhe saía da cabeça. Discreto, reservado, Luís enraizara-se no seu âmago. Um pobre diabo, havia quem dissesse! Mas era ele que iluminava seus dias mais sombrios. Desta vez, não poderia vacilar, este era o apelido que ficaria preso ao arame farpado do seu coração.

Graça Pinto, 55 anos, Almada

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Criar uma associação...

Sou um bule rachado, sou um objeto sem voz que não se pode queixar das injustiças. Devido ao meu defeito já ninguém gosta de mim. Até já compraram outro bule, novinho em folha e que cumpre o serviço na perfeição. Não me deitaram fora, é verdade, mas também nunca mais me tiraram do horrível louceiro onde me encontro. Se eu pudesse falar, criaria uma associação para dar voz aos bules rachados que são discriminados, ignorados e abandonados.

Paula Fialho Silva, 34 anos, Badajoz

Desafio nº 4 – começando a frase “Sou um bule rachado, sou”

25 fevereiro 2014

Programa Rádio Sim nº 203 – 25 Fevereiro 2014

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A Máscara
Cristiana cumpriu o ritual.
Decidida agarrou na chave do cacifo e abriu o armário.
Por lá proliferavam ou procriavam bichinhos verdes com um cheiro a humidade terrível.
Respirou fundo, apertou os lábios e retirou a máscara. Ao colocá-la no rosto, viajou no tempo num silêncio cúmplice e privado.
A máscara era o seu refúgio, com ela enfrentava qualquer cenário e escondia-se do escândalo.
Em êxtase olhou para o relógio e resolveu enfrentar a realidade…
Sem subterfúgios… Simplesmente!

Cristina Lameiras, 48 anos, Casal Cambra
Desafio RS nº 8 – juntar cacifo, cheiro a humidade e êxtase


O que é a beleza?

Beleza associada à realeza,
pois a beleza é riqueza, será?
Beleza é o esbelto,
o sufisticado, o inteligente...
Beleza é arte que se esbate em cada pintura,
traduzida em mil e uma cores. Talvez?!
Beleza será a natureza
com uma melodia e luz
que ninguém iguala?
Será antes quando alguém
nos faz sorrir...

beleza é tudo
o que queremos que ela seja...
pois cada sujeito que a contempla,
em busca de felicidade e prazer
é único!!!

Virgínia Martins, 30 anos, Luxemburgo

Desafio nº 12 – uma palavra que aparece meia-dúzia de vezes, pelo menos

Vida de cão

Era um cão vadio que vivia na rua e ainda assim era um cão feliz.
Já tivera uma dona e um apelido com muito pedigree, mas a solidão era a sua verdadeira companheira.
Um dia a dona abandonou-o num local deserto, perdeu tudo… até o apelido ficou preso no arame farpado da ignorância dela.
Agora faz parte de uma matilha e amigos não lhe faltam. Rebola-se na relva, corre à chuva, uiva à lua e é livre.

Maria de Fátima Esteves Martins, 45 anos, Coimbra

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Uma sombra espelhada

Uma sombra espelhada,
um resto de penumbra,
[também]:
havia muito que os céus
despejavam significantes
sem significado,
e as trovoadas
gritos,
sombras,
e as chuvas
suspiros
penumbras;
trevas,
cortina de palco,
bailador  anónimo
a rabiscar,
a garatujar
[e sempre a perder],
um apelido
preso no arame farpado do tempo;
em ciclo veloz,
desbaratando,
precipitando-se pelos significados,
arrastando-os
esmagando-os
contra o arame farpado…
cilindrando-os,
num cume escarpado,
vertigem, poço…
Já em paz
caminho agora
pelas volutas da morte.

Jaime A., 49 anos, Lisboa

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

À tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, voltariam as borboletas e os passarinhos e desapareceria o inverno em que vivo. Não vês o quanto sofro? Não percebes o mal que me fazes? Preciso de sol, de calor e não desta escuridão sombria e fria que me congela o coração. Não sei mais viver, arrasto-me pela vida que um dia me sorriu. Devolve-me a esperança, faz-me renascer. Preciso que venhas, para em ti me encontrar e me perder.

Paula Fialho Silva, 34 anos, Badajoz
Desafio nº 35 – partindo de dois versos de autor


Florbela Espanca, “Se Tu Viesses Ver-me…”, Charneca em Flor (1931) - 
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha Manuel Alegre, “Teoria do Amor”, Obra Poética (1999) - para em ti me encontrar e me perder.

24 fevereiro 2014

O Sétimo Selo

Todos temos um sétimo selo para quebrar, algo que está por descobrir ou por contar, talvez perdido na força das ondas do mar, no brilho de cada luar,  na curiosidade de cada olhar, no sonho esquecido pelas mágoas...
Esta busca incessante conduz-nos à infinidade do universo, que se define pelo seu perpétuo mistério, que nos embarca num destino único, na descoberta de novos selos para quebrar, numa procura contínua de sentido, entre picos afiados e suaves melodias.

Virgínia Martins, 30 anos, Luxemburgo
Desafio nº 15 – com frase retirada de um livro


Todos temos um sétimo selo para quebrar – retirada do livro: O sétimo selo, de José Rodrigues dos Santos (2007), Gradiva Publicações.

Originalidade

Aquele domingo primaveril convidava a passear. Veio-lhe à memória a seara de papoilas brancas que vira antes, decidiu voltar.
Perdido no labirinto dos pensamentos, Miguel interrogava aquela existência como se procurasse a solução do seu caso naquelas papoilas. Às vermelhas nem ligava mas brancas… Que raio! Mal sabia que o apelido iria ficar preso no arame farpado daquela seara devido a um impulso feliz. Joana recebeu a papoila branca com agrado naquele aniversário. Afinal a originalidade vale.

Teresa A., Azeitão, 46 anos
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Programa Rádio Sim nº 202 – 24 Fevereiro 2014

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Rádio Sim

O melhor dia da minha vida
O despertador não tocou e perdi o autocarro, não cheguei a tempo e o chefe não gostou.
Ao almoço, apesar de não ter forme, pedi lasanha. Não havia. Comi peixe e não gostei. Não tinha tempero. 
À tarde, não vieram clientes. Não havia trabalho. Não me sentia bem e pedi para sair mais cedo. A resposta foi: NÃO!  
Quando saí não chovia. Agora sim. Não preveni e constipei!
Fui à farmácia e atendeste-me tu! Não resisti: apaixonei-me!

Pedro Emanuel Santos, 30 anos, Valongo
Desafio nº 59 – 14 vezes a palavra não

Trapeira

Afastou os fantasmas do pensamento. Bocados do tempo em que, pobre, lhe chamavam Trapeira. Agora era Beatriz VASCONCELLOS!
Nessa noite, iria ser a Rainha da festa...
– Deseja uma bebida? – perguntou alguém.
Virou-se sorrindo.  Foi quando o viu . Ali estava, vestido de criado, o noivo que há muito abandonara na terra. Sentiu a alma gelar quando ele, num impulso, a chamou de Trapeira.
Fugiu, mas naquela corrida desenfreada, percebeu que o seu apelido ficara preso no arame farpado...

Isabel Lopo, 67 anos, Lisboa

Desafio nº 59 – 14 vezes a palavra não

A minha vez

Porque me dizes tu não!?
Se, a cada não teu, eu te digo sim!
Não, não repetes tu incansavelmente.
E eu, forma positiva desse teu não, aceno que sim.
Murmuras não, gritas não, prenuncias não suavemente, como se esse não fosse o sangue que corre em tuas veias.
Mas o que significará esse teu não!?
Esse não que me inquieta e enlouquece.
Para mim chega de tanto não.
É a minha vez de gritar, dizer-te não, não.

Margarida Sousa, 37 anos, Paris

Desafio nº 59 – 14 vezes a palavra não

Nome próprio

Podemos compreender a vida como um imenso emaranhado de acontecimentos todos ligados entre si. Qual arame farpado com as suas arestas cortantes e gritantes quando nos enroscamos nela. Nesta existência o apelido ficou preso no arame farpado, ele representa senão um ponto de separação de algo que é indivisível em essência. Deixemos as farpas criar a ilusão de solidão, desviando a nossa atenção para a dor contida num nome próprio. Nada no entanto retira brilho da luz.

Paulo Renato, 38 anos, Maia

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Código genético

O apelido,
Código genético,
Mero acessório,
Quando não é sentido.

É ser-se,
Mas não sentir-se.
 É chamar-se,
Mas não ouvir-se.

O apelido ficou preso no arame farpado,
No momento em que me traíste.
No dia em que fingiste.
Na noite em que partiste.

Agora que me reconstruí,
Só quero voltar ao princípio,
Ao dia em que te conheci,
Para me livrar deste suplício.

Sou forte, sou do Norte
E contra ti posso.
Vai-te embora:
Ó Pouca Sorte!

Brigite Rodrigues, 35 anos, Luxemburgo

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Joaquim Manolido

Joaquim Manolido tinha dado com ele enfiado no tubo escape do trator e daí ao nome de batismo foi um instante. Não fora um ganido esganado de fome, e aquela brincadeira tinha dado em canicídio.
Um dia, o bicho ficou preso no perímetro da horta. Amélia, aflita, correu a chamar o marido. Joaquim largou a lâmina da barba, assustado com tamanho desconcerto.
– Que é isso, mulher de Deus?
– Ai! O Ape, Lido, ficou preso no arame farpado!

Célia Costa, 42 anos, Malveira

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Em desgaste

O apelido ficou preso no arame farpado do resto do meu nome, suspenso por um fio. Permaneceu ligado aos meus dias, em agonia, como resultado de um dia feliz que correu mal.
Foi, enquanto corria em direcção à liberdade, que o arame teimou em guardá-lo refém. Manteve-o seguro e doente, unindo-o ao resto das palavras que perseguiam outro rumo. Em desgaste, continuou pendente, sem destino certo para pertencer. A luz nem sempre tem o brilho que significa.

Clara Lopes, 37 anos, Agualva, Sintra 

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

23 fevereiro 2014

Alforria Sonegada

Antes assim fosse: como pontes que tudo levam, tudo trazem, onde do outro lado as brumas se dissipam.
Antes assim fosse: como as pontes que têm abraçados às grades os cadeados do amor, cujo selo desenha o fundo dos rios.
Mas não. A linha impura, álgido equador a separar vidas, nega travessias.
Ele ousou saltar e, o apelido ficou preso no arame farpado, gritando ao mundo e aos deuses que a vida só ao seu dono pertence.

Elisabeth Oliveira Janeiro, 69 anos, Lisboa

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Mulher, consegui!

António Tira Picos, morador numa vila Alentejana, chega a casa.
– Mulher, consegui.
– Sim? O quê?
– Lembras-te de eu dizer que queria livrar-me do apelido? Consegui.
– Conseguiste? Como? – pergunta-lhe a mulher, intrigada.

– Foi a psicóloga.
– Sim, e depois?
– Depois, ela disse-me que se o apelido me afligia tanto, que o escrevesse num papel e o aventasse.
– E tu?
– Assim fiz e o apelido ficou preso no arame farpado.
– E agora?
– Agora sou António Tira, os Picos ficaram lá.

Isabel Branco, 53 anos, Charneca da Caparica

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Holocausto

Diz o escritor que a estrada para Auschwitz foi construída pelo ódio e pavimentada pela indiferença. Pela indiferença de dois povos e de uma geração de intelectuais alemães, que se limitaram a olhar para o lado perante a purga nazi a alvos bem definidos após a sua chegada ao poder, e que dizimada foi por Martin Niemöller num seu poema. O final desse sinistro caminho tem um nome próprio. Holocausto. O apelido ficou preso no arame farpado.

Miguel Melo, 54 anos, Lisboa

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

22 fevereiro 2014

A história repete-se

Entrou e lançando um olhar circundante aproximou-se da mesa do fundo, despiu o casaco e sentou-se. Sem palavras, o empregado trouxe um café. Segurou a chávena e bebeu de um gole só. Abriu o jornal e durante uma hora não levantou os olhos. Apenas o movimento de virar as folhas. Quando terminou dobrou-o cuidadosamente deixando a primeira página voltada para cima, onde se lia: Cavaleiro teutónico sobrevive ao holocausto.
Pensou: O apelido ficou preso no arame farpado!

Alda Gonçalves, 46 anos, Porto

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

Nem sabes o que eu vi!

Vou ligar à Maria... ela precisa de saber.
Trrim... Trrim... Trrim...
Alô, Maria! Tudo bem contigo?!
Estás por casa?... Nem sabes o que vi a caminho da escola...
Vi o te apelido.... imagina onde?! O teu apelido ficou preso no arame farpado,
na Quinta das Freiras de São Vicente... Lol.
Era mesmo o teu... reconheci o cartaz. Aproximei-me e observei, só vi o teu último nome.
Mas não fiques triste, voltamos a colá-los. Fica bem amiga!
Beijinhos...

Prazeres Sousa, 50 anos, Lisboa

Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)