30 setembro 2014

Programa Rádio Sim 354 – 30 Setembro 2014

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No site da Rádio Sim

Tantas emoções
A amizade conquista-se de forma subtil,
Abstraímo-nos de toda a ansiedade que nos vai na alma,
Esquecemo-nos da crueldade que preenche o lado mais obscuro do nosso ego,
Repensamos o desejo fútil do querer por capricho,
Renunciamos à fúria da nossa verdade,
Vivemos a paixão e
adicionamos-lhe ainda uma boa dose de ternura.
Tantas emoções que preenchem as profundezas da nossa alma!
Oh, quão vãos são os ressentimentos daquele que nunca sentiu nem amou!
Bem-haja, coração apaixonado!

Agostinha Gomes, 42 anos, Luxemburgo
Desafio nº 45 – emoções por ordem alfabética (nesta caso, baralhadas)

Pequeno-almoço frustrado

Olho Miss Universo sentada na minha cozinha.
Decido sozinho.
Não há pequeno-almoço sem sumo de laranja.
Para comer?
Ovos perfeitamente escalfados, tiras de bacon estaladiças.
E mais?
Torradas que exibam uma tonalidade completamente uniforme.
– Desculpa, Joel.
Desculpar-se, quer dizer que algo está errado.
Olho-a triste.
– É que, de manhã, só como fruta.
Roborizo, envergonhado.
Como fora possível esquecer a eterna dieta?
Saio apressado.
Aguardo na fila para fazer o pedido.
Regresso feliz.
E, frustrado, descubro que partiu.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais 

Desafio nº 75 – frases de 7 e 2 palavras

Mar e amor

Quanto tempo não via esse meu amigo!
Saudades muitas.
Ele sempre me tranquiliza, muito me acalma.
Olho, vejo:
Suas ondas desordenadas, azuis, esverdeadas, crista branca.
Olho, gosto!
Cada vez que nele me enrosco, vibro!
Muito bom!
Quando nele estou, sinto ainda  enorme alegria.
Poderoso amigo!
Intercalo, calminho, morno, àquele com ondas fortes.
Emoção garantida!
Melhor ainda, estar nele com ótima companhia:
Meu amorzão!
Ele sabe me aturar, segurar minhas “ondas”...
Ainda bem!
Mar e amor, perfeita combinação!
Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil 


Desafio nº 75 – frases de 7 e 2 palavras.

No jardim

Algo luzia ao longe. Daniel que naquele momento lanchava calmamente com a sua mãe no jardim, levantou-se curioso. Lançou o seu olhar no horizonte em direção aquela tão ofuscante luz. Finalmente a localizaraLamentou-se, apenas o reflexo de um vidro na relva, nada mais. Perto dali, liderava um latir ofegante. Um cachorrinho lesionado preso num arame farpado, a lacrimejar. O rapaz, destemido, limitou-se a libertar a criatura, que logo se levantou e, como agradecimento, lambeu-lhe a face. 

Liliana Macedo,16 anos, Ovar

Desafio Rádio Sim nº 4 – todos os verbos com uma destas letras O, L ou D (só uma!)

Desafio nº 75

Vamos a um quebra-cabeças?
Venham daí!

A ideia é construir um texto em que a estrutura seja esta:
Frase de 7 palavras
Frase de 2 palavras
Frase de 7 palavras
Frase de 2 palavras
E assim por diante…
...
A última tem só 5 palavras.


Saiu-me assim:
Era já noite, e não te calavas.
Ouvias-me falar?
Não, ou seja, falavas só para ti.
Que chato!
Desliguei-me de ti, encostei a cabeça, adormeci.
Quanto tempo?
Não faço ideia, o sono foi muito profundo.
E acordei.
Acordei com uma dor no pescoço, sozinha.
E tu?
Procurei-te no quarto, na cozinha, no jardim.
Não estavas!
Assustei-me, claro, assusto-me sempre, cheia de remorsos.
Onde andavas?
Encontrei então o papel, dobradinho à entrada.
“Não volto.”
Então, fiquei só a pensar…
Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa

Desafio nº 75 – frases de 7 e 2 palavras.

29 setembro 2014

Programa Rádio Sim 353 – 29 Setembro 2014

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No site da Rádio Sim

Dias cinzentos
Não gosto de dias cinzentos, tristes. Dias assim não alegram. Logo pela manhã, não apetece levantar. Que é que vou fazer num dia sem sol? Não sei!
Apesar de 
não me apetecer, levanto-me.
Tomo banho, arranjo-me, em seguida saio, tenho que fazer compras. 
Não tenho pão, não tenho queijo, não tenho manteiga, não tenho leite, não tenho nada para comer.
Não encontro ninguém, não falo.
Afinal 
não tomo pequeno-almoço; Vou ler um livro que não acabei!!

Adélia Alves, 79 anos, Academia Sénior, Estremoz, professora Zuzu Baleiro
Desafio nº 59 – 14 vezes a palavra não
Conheça a Academia Sénior aqui: http://zuzupoesiaecontos.blogspot.pt/

Folhas de Outono

O Verão chegou ao fim, triste e chorado. As suas lágrimas inundaram ruas, casas e almas.
Entretanto o Outono entrou trazendo consigo as mesmas mágoas. Nos jardins, por imposição do vento,  as árvores despem-se à pressa.
No chão amontoam-se folhas sobre folhas, elas que nem tiveram tempo de substituir a sua clorofila pela beleza do ouro velho tão característico do início desta estação.
Também elas, folhas, olhando o arco-íris, choram verificando o nada em que se transformaram.

Rosélia Palminha, 66 anos, Pinhal Novo

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

27 setembro 2014

No nada em que se transformara…

Casara com um homem mais velho e cedo se apercebera que não ganhara um companheiro para a vida, mas um dono, um patrão exigente a cuja palavra ou simples gesto obedecia. Por hábito, amor ou medo? Cinquenta anos tinham passado. Agora, que ele morrera, ainda estaria a tempo de viver, à sua vontade, o seu próprio tempo? Olhando o vaso em que lhe entregavam as cinzas do marido, só conseguia pensar no nada em que se transformara…

Fernanda Ruaz, 66 anos, Lisboa

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

O destino

Há pessoas que nascem com destino marcado e outras que marcam o próprio destino, mesmo que seja com unhas de gel cravadas nele, o destino.
Assim é Ludmila Faneca que tinha tudo para ser uma peixeira da fresca sardinha e do belo carapau, mas que um engano no instituto de formação profissional, onde se inscreveu apenas para usufruir do subsídio, foi requalificada para assistente na Nails Pink, onde agora brilha com seios embrulhados no mais moderno silicone.

Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Desafio RS nº 17 – Ludmila Faneca

26 setembro 2014

Programa Rádio Sim 352 – 26 Setembro 2014

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Só nos resta ralhar
Quis passar ao largo do ombro que me oferecias para me consolar. Ou seria apenas para me distraíres do que acontecera? Querias que tentasse esquecer o que de simples passara a improvável, as frases sem esquinas que se haviam transformado em atrapalhações, os sítios onde já não cabíamos. Quisemos ser pacientes, sem sucesso, arrastando assim connosco o que procurávamos contar. Agora só nos resta ralhar, pois nunca soubemos aconselhar e não nos conhecemos o suficiente para recomeçar.
Margarida Fonseca Santos, 52 anos, Lisboa
Desafio nº 34 – grelha de 16 palavras obrigatórias

A viagem

Visível predominância do Tudo
Reprodução permanente do todo
História convertida do mundo
Fio da vida quase solto.
Fui ver:
Os astros proliferavam,
Os corpos celestes, os planetas, vagueavam;
O cosmos a escorrer-me pelas mãos
Entre as brumas, o Universo, a desaparecer na escuridão...
E quando a Luz brilhou
E o mítico ser se formou,
E quando o drama contemporâneo encarnou
E a alegria se escutou
Pude aperceber-me
Da epopeia da viagem,
No nada em que se transformou.

Ana Mafalda, 44 anos, Lisboa

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

25 setembro 2014

Programa Rádio Sim 351 – 25 Setembro 2014

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Do avesso?!
Estava uma bela manhã, e um dia de praia vinha mesmo a calhar! Levantei-me da cama, ainda a custo, vesti o meu fato de banho (porque a minha mãe não me deixa usar bikini). Fui logo para a praia. Toda a família estava reunida à beira-mar. Despi o vestido e fui ter com a minha mãe. Tal foi o meu embaraço quando reparei que o fato de banho estava vestido do avesso, do avesso! Todos se riram.

Francisca Esteves, 12 anos, Lisboa
Desafio nº 49 – história louca de férias!

A Bela do Espelho

Encontraram o espelho da linda princesa Sat-Hator. Quando se olhava  no espelho de prata e lápis-lazúli, Sat-Hator  procurava a beleza divina de Hator, e, como ela, ser senhora do Amor, da Beleza, da Música, da Maternidade e da Alegria. De Sat-Hator já nada existe. Só ficou o espelho. Mas, talvez porque na velha língua egípcia, a palavra “espelho” se diz “ankh”, igual a “vida”, ninguém deu conta no nada em que se transformara.

Fernanda Ruaz, 66 anos, Lisboa

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Apenas memórias

Temia permanecer no esquecimento, juntamente com aquele fantasma que o perseguira durante toda a vida. Sempre com aquele desassossego que lhe sussurrava que não mais o recordariam quando desvanecesse da superfície e se tornasse em, nada mais, nada menos, que mais um componente do húmus daquele solo que antes viera a pisar. Tentou escrever algo tão harmonioso que fosse impossível olvidar. Descontente com o resultado, queimou o documento, restando apenas memórias do nada em que se transformara.

Liliana Macedo, 16 anos, Ovar
Desafio nº 74 – nada em que se transformara


A Varina

Ludmila Faneca, varina do mercado da Ribeira, não gosta de lamechices.
Alfacinha de gema, afoguenta os estafermos dos clientes “oferecendo-lhes” uma lamparina.
Quando o António, cliente querido e antigo, aparecia na bancada de cimento, soprava uma lufada de ar fresco.
Por ele esquecia o bairrismo, a chacota das colegas, fazia regime e viveriam noites de pecado e paixão.
O seu amado tratava-a como uma rainha, queria recompensá-la abrindo um salão de esteticista.
Salão Faneca Manicure e Pedicure!!!

Cristina Lameiras, 49 anos, Casal Cambra

Desafio RS nº 17 – Ludmila Faneca

24 setembro 2014

Programa Rádio Sim 350 – 24 Setembro 2014

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No site da Rádio Sim

Desacertos
Era uma vez um relógio que tinha sempre as horas erradas. Um dia, estava a passear e sentiu-se tonto. E afinal porque é que se estava a sentir tonto?! Porque tinha as horas erradas.
Então encontrou uma folha que tinha três braços. Mas a folha tinha sempre os braços entrelaçados uns nos outros. O relógio insistiu em pedir:
– Folha, ajudas-me a acertar as minhas horas?
– Ah! se eu conseguisse...
Então, o relógio continuou o seu passeio triste.

Vasco Pinto Gonçalves, 7 anos, Lisboa
(história sem desafio)

Memórias

Como recordava tempos de outrora, em que se sentia vibrar
Com a vida, com um sorriso, com uma melodia com uma paisagem,
Com o cantar dos passarinhos, hoje deambula cansada arrastando-se
Pesadamente com dificuldade por sítios sombrios e solitários.
A idade afastou-a de tudo e de todos, vivendo em completa solidão
Hoje só um pensamento a invade.
Mocidade, onde estás tu?
Que me abandonaste assim
O tempo não perdoou
E olha no nada em que se transformou.

Maria Silvéria dos Mártires, 68 anos, Lisboa

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Amigas de Infância

Seria possível?!
Sim, era ela.
Estava um pouco diferente.
Talvez porque estava mais velha!
Mas tinha a certeza, era ela.
Os mesmos traços suaves, o cabelo loiro...
E o inconfundível sinal castanho junto ao nariz.
Passaram tantos anos, que duvidava se lhe devia falar.
Duvidava ainda mais que se recorda-se dela, passaram tantos anos!
Morreria de vergonha se lhe fosse falar e ela não a reconhecesse.
Antónia? – ouviu chamar –, és mesmo tu?, há quanto tempo, não me reconheces?!

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas

Desafio nº 71 frases de 2 a 12 palavras

23 setembro 2014

Programa Rádio Sim 349 – 23 Setembro 2014

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Palavras ocas
Palavras ocas caem em saco roto.
Dá-me asco quando fala; só para se ouvir... quer plateia.
Não sabe nada de nada. Opina sobre tudo. Esgota-nos a paciência.
Chega  a ser o caos. A animadora fazia uma soca em barro para cada uma.
Ela, não se calava. Queria das holandesas... as minhotas não eram assim.
A “cosa” não ia mal até que:
– Levas essa, caso não... a “coas” complica (as palavras não saíam nada bem quando se enervava).

Teresa Silva Isabel, 65 anos, Caldas da Rainha
Desafio Rádio Sim nº 7 – anagramas com S C O A

22 setembro 2014

Programa Rádio Sim 348 – 22 Setembro 2014

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Meu estafermo
Meu querido Estafermo,
Dou gás à lamparina, deixada pela avó Maria Joaquina, para escrever que o regime de part time expirou. Entrar e sair quando te apetece, sentar, comer e abalar. Acabou!
De hoje em diante, prestas assistência à tua (que se quer) estimada Faneca: da lima ao verniz, mãos de molho incluídas, até ao secante. De sorriso pronto!
Apesar do cimento que tens no lugar do cérebro, espero que leias esta carta com afeição.
Tua Ludmila

Joana Leitão, 33 anos, Lisboa, Portugal
Desafio RS nº 17 – Ludmila Faneca

Uma estrela

Adormecera tarde. Sentia-se estranha como se precisasse urgentemente de viajar para longe, esquecer tudo. Fechou os olhos esperando que o sono chegasse para não ter de pensar. Foi feliz. Num repente navegava por outros mundos. Cores em turbilhão moldavam-se aos seus olhos e escutava sons maravilhosos. Não percebia se voava ou mergulhava no mais fundo dos oceanos… diluía-se e era uma estrela… um ponto de luz… e afinal sentia-se tão viva no nada em que se transformara…

Paula Coelho Pais, 53 anos, Lisboa

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Desalento

Nenhuma solução havia que o animasse. De inteiro, cheio de atitude e galhardia, tornou-se num gato frouxo, que, de felino passara a gato manso, sem nervo nem alma.
Robustecia-o a certeza de que não era culpa sua, mas daquela airada gata, de pêlo solar e pose de bailarina que, do muro vizinho, atrevida e confiante, espicaçava a gataria.
Para ele, nem uma inocente piscadela.
Serigaita abusiva...
Triste e acabrunhado, cogitava agora, no nada em que se transformara.
Elisabeth Oliveira Janeiro, 70 anos, Lisboa
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Num laivo de lucidez

Ligou o televisor. Aguardou, de raciocínio vazio, o som e as imagens. O aparelho devolveu-lhe aquilo a que já tinha assistido: os insultos, os rostos cuspindo ódio, a ansiedade transbordando dos olhos daqueles que, em tempos, tinham sido seus colegas. Deixou-se invadir pela culpa, pela sensação de incompetência. O surrealismo da situação acorrentou-o num imenso buraco negro. Não lhe ocorreu nada que não fosse um pedido de desculpas. Por momentos, percebeu o nada em que se transformara.

Maria José Castro, 54 anos, Azeitão

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Tristes Realidades dos Dias de Hoje

Ninguém poderia prever que a sua vida se desmoronasse como um castelo de cartas. Desde o fatídico dia, em que se vira sozinho neste mundo, lutando contra a maré, tudo caíra por terra. Sem  trabalho, contas amontoando, depressa desgastou seus sonhos, entrando num espiral colapso. Hoje, num fugaz assomo, ao vê-lo, válido, legítimo, portador de dois braços de trabalho, doeu-me a sua dor, afligiu-me sua mendicidade, a qual teimava em torná-lo no nada em que se transformara. 

Graça Pinto, 56 anos, Almada

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

21 setembro 2014

O adversário do pintarroxo

Não há um dia que o pintarroxo não bata no vidro.
– Olhe mãe, ele deseja entrar.
– Oiça, querida, gosta da presença humana mas não quer estar consigo. Vê a sua própria imagem refletida e torna agressivo. Este xenófobo não suporta outros congéneres.
– Ó mãe, então combate moinhos.
– Exatamente, menina.
No dia seguinte, está pegado um moinho ao vidro. Porque o nosso pequeno dom Quixote não viu adversário, foi-se embora. Do adversário sobrava o nada em que se transformara.

Theo De Bakkere, 61 anos, Antuérpia, Bélgica
Desafio nº 74 – nada em que se transformara


No nada em que transformara

A escola de Joana ficava a poucos metros de casa.
Era o 2º dia de aulas e ainda não tinha professor. Estava triste, algumas das suas amigas já tinham começado as aulas e estavam contentes.
Acordou pouco entusiasmada e saiu de casa para a escola. Quando chegou ao portão, deparou com um aglomerado de pessoas... parou.
Pais desesperados e preocupados com os seus filhos, argumentavam a falta de professores...
Não há resposta... no nada em que transformara.

Prazeres Sousa, 51 anos, Lisboa

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

O velho dicionário

Do alto da estante, o dicionário  lamentava-se: «Aqui estou, abandonado, eu que tanta sabedoria debitei nesta casa...»
«A culpa é dessa internet», opinou a gramática. «Ela que mal sabe escrever...»
«Ordinária, é o que ela é», acrescentou a enciclopédia. «Lê-se cada pouca vergonha!»

Nisto, o Dono da Casa vem buscar o dicionário. «Preciso de
ti», murmura-lhe. «É que sou do tempo antigo, não entendo estas
modernices...»
Orgulhoso, o livro sorri, esquecendo-se do nada em que se transformara...

Isabel Lopo, 68 anos, Lisboa
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

O trim...

– Ai a terrinha… sabes?, é por isso que acho o teu nome tão bonito, terrina.
– Pois, se eu me chamasse garfo também acharia.
– Não sejas assim, olha que não deixaram cá mais ninguém para falar contigo, até as tuas queridas saladeira e molheira já partiram.
– Também queres que te fale das colheres e das facas, é? … Porque é que tu ficaste aqui, afinal?
– Foi o destino, eu ia voltar para a cozinha quando o telemóvel fez trim.

Ana Rita, 23 anos, Porto

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

As borboletas

Desde criança, corria sempre que uma borboleta esvoaçava por entre as azáleas que debruavam a entrada, separando o caminho de terra do pátio de pedra, onde em tempos era uma eira comum. Depois a falta de trabalho empurraram-no para longe. Longe de tudo. Até de borboletas. No alto mar elas não chegavam. Apenas ia vislumbrando alguma quando faziam escalas em pequenas ilhas floridas. E agora enquanto observava o seu bailado meditava no nada em que se transformara.

Alda Gonçalves, 47 anos, Porto

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Confusões

Sentou-se pensando que fazer depois do jantar.
Apercebeu-se que andava pensando muito depois de tomar qualquer decisão.
Às vezes ficava pensando no antes e depois dos 40!
Como se, pensando, os 40 ficassem para depois, sabe-se lá do quê!
Olhou Banzé e deu-lhe a ideia que até ele estava pensando que fazer depois de comer!
Dava que pensar o facto de ficar pensando sempre depois de qualquer coisa!
E levantou-se rapidamente pensando que fazer depois de amanhã.

Carla Silva, 40 anos,  Barbacena, Elvas
Desafio nº 73 – frases com sabendo e depois

20 setembro 2014

Jardim de pedra

Um dia falei dessa ausência. Desse sentir aparente. Dos seres que falam muito da palavra amor.
Não basta a palavra, o corpo. É preciso alma para senti-lo verdadeiramente. Que adianta falar de amor aparente tentando enganar os sentidos, a alma da gente.
O meu corpo tremeu e a minha alma gemeu com as tuas palavras tão carentes de amor.
És um jardim vazio. Sem cor.
Mostraste o teu verdadeiro eu e no nada em que se transformou.

Sílvia Mota Lopes, 44 anos, Braga

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Adelaide

Discreta (muito discreta), os olhos baixos, a roupa simples, uma
semi-voz que escorregava rápida para o chão: assim era Adelaide,
De tal modo era mimética que nunca se sabia se estava (e onde) no
escritório. A sua figura dissolvia-se, escapava-se aos olhares.
Memorizava rapidamente os pedidos e trazia os cafés e afins num
Um dia atrasou-se: espanto na repartição. Os saltos matraquearam
o solo encerado, um vulto felino, impositivo, arrogante: herdara.

Jaime A., 50 anos, Lisboa
(sem desafio)

Ria-se às gargalhadas

Andara durante anos com medo de assombrações, surgidas nem sabia de onde, nem porquê; sempre tentando coarctar-lhe a liberdade e impedir-lhe os passos soltos e os sonhos livres. À pendura do tecto, escondidas num quadro, lá estavam bem escondidinhas à espera que passasse para lhe meter um susto.  Fartou-se e transformou-se em assombração.
Hoje ria-se às gargalhadas ao pensar no nada em que se transformara o seu medo de reviver as emoções, a alegria e o amor. 

Rosa Maria Pocinho dos Santos Alves, 51 anos, Coimbra
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Reformado

Por mais de quarenta anos, repetira aquela rotina. Hoje, pegara nas chaves do carro e, só quando se preparava para abrir a porta, se recordara que era apenas um reformado.
Lembrou, com saudade, os dias em que se levantava de um salto, porque sentia o barulho da chuva. Sempre adorara conduzir com o piso molhado e, nesses dias de dilúvio, o táxi nunca ficava vazio.
Olhou-se ao espelho e sentiu pena do nada em que se transformara.

Quita Miguel, 54 anos, Cascais

Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Cara de anjo, nada diz

Prá cozinha, rapidinho!
Hoje faremos doces, tortas, biscoitinhos.
Amanhã, a festinha do vovô!
Vovô feliz e como uma formiguinha, claro, se a imaginarmos de brancos cabelos, adora beliscar doçuras.
Todos na cozinha a esticar massas, outras a confeitar.
A maior folia e grande alarido por lá.
À noite, tudo pronto, o perfume da casa era doce...
Dormem! Ao acordar, espanto!
CUCA, cachorrinha gulosa, tinha o mesmo gosto do vovô;
Não podiam crer no nada em que transformara.

Chica, 65 anos Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Desafio nº 74 – nada em que se transformara

Desafio nº 74

Para hoje, trago-vos um final imposto… É isso mesmo, um final.

O texto terá de acabar assim:

––– no nada em que transformara.


Outras hipóteses podem ter "do nada em que se transformara" ou então "no nada em que se transformou". Assim há mais liberdade.


Saiu-me este texto:
Abriu o armário. Que estranho! Não pensou que uma assombração pudesse desaparecer sem recorrer a bruxas, diabos ou exorcistas. Espreitou melhor. Ainda via a marca do fogo na madeira, de quando a assombração a assustara pela primeira vez. Tudo começara por causa daquela frase, «as crianças têm medo de armários», dizia a vizinha, de braços cruzados sobre o peito. Estúpida! Não há mais assombrações! Fechou o armário com força, sem reparar no nada em que se transformara…
Margarida Fonseca Santos, 53 anos, Lisboa 
Desafio nº 74 – nada em que se transformara
OUVIR

19 setembro 2014

Programa Rádio Sim 347 – 19 Setembro 2014

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No site da Rádio Sim

Uma tarefa difícil
Rodrigo e Teresa, ambos de pouca idade e sempre juntos na secretária da escola, aliavam-se nos trabalhos propostos pela professora, que tolerava a situação como o resultado de vários anos de convivência permanente.
Certo dia, uma das tarefas de aula consistia em verbalizar o amor. Teresa levantou o dedo, prontificando-se de imediato para ir ao quadro, onde escreveu com letra miúda:
– As palavras atrapalham-se dentro do coração, que não nasceu dicionário. Rodrigo, tu és a maior delas!

Miguel Jerónimo, 15 anos, Portimão
Desafio RS nº 13 – … palavras atrapalharam-se dentro…

O regresso de Ludmila

Ao ouvir os saltos altos no cimento, muitos olhos seguiam o corpo estafermo daquela faneca. Todavia, ninguém reconheceu o gordinho de vinte anos passados, e não só por causa dum regime persistente. Ludmila, especialista de beleza, voltava para casa paterna.
A mãe, ao pé da lamparina sentada, gritou de alegria quando viu aparecer Ludmila no vão. Até da cara pálida do pescador,   desapareceu toda a mágoa.
"Ó João, querido."
Um abraço de ternura.
"Ludmila, pai, chamo-me Ludmila".

Theo De Bakkere, 61 anos, Antuérpia, Bélgica

Desafio RS nº 17 – Ludmila Faneca

18 setembro 2014

Programa Rádio Sim 346 – 18 Setembro 2014

OUVIR o programa! 

No site da Rádio Sim

Só, no jardim
Mão que treme, perna que manca, sorrisos baços de cansaços, o velho chega e senta-se no banco do jardim, todos os dias, para ouvir o trinado das aves, a única música que lhe dá brilho ao olhar e lhe apazigua a solidão.
E aquele rosto muda o semblante à medida que o tempo escorre. O relógio é rápido e cruel.
Chega o implacável inverno. Os pássaros vão e deixam-no só no jardim.
Dói-lhe o ruído do silêncio.

Ana Paula Oliveira, 53 anos, S. João da Madeira  
Desafio nº 52 – uma história com música, ruído e silêncio