25 março 2014

Até o pó assentar as memórias

Na penumbra do quarto, esvaziado de vida, o pó ia cobrindo todo o resto. Numa prateleira do toucador, um pequeno espelho reflectia a sua tristeza.
– Sinto falta do seu rosto.
A escova, a seu lado lamentou-se.
– Conheci-lhe cabelos de prata até ficarem como neve.
– As maças do seu rosto foram ficando como a terra lavrada. O seu olhar sempre foi doce, mesmo quando perdeu a alegria de me olhar.
Assim recordavam, até o pó assentar as memórias.

Paulo Roma, 50 anos, Lisboa

Desafio nº 62 – dois objectos, numa prateleira cheia de pó, conversam

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