29 julho 2011

agosto - histórias recebidas


A sirene de nevoeiro que tocava era dum livro do Maigret, mas o homem que descia da ponte era real e enorme.
A senhora loira com as jóias era a Bianca Castafiore, dos livros do Tintim, mas a faca dele era real, comprada na rua dos Bacalhoeiros.
Ele apanhou-a pelas costas, não houve gritos, mas o sangue jorrou. Fugiu com as jóias, mas na casa de penhores disseram-lhe logo: “não queremos, são a fingir, não são reais”.
João Paulo Chora, 52 anos, Cascais



A sirene de nevoeiro que tocava era dum livro do Maigret, mas o homem que descia da ponte era real e enorme.
A senhora loira com as jóias era a Bianca Castafiore, dos livros do Tintim, mas a faca dele era real, comprada na rua dos Bacalhoeiros.
Ele apanhou-a pelas costas, não houve gritos, mas o sangue jorrou. Fugiu com as jóias, mas na casa de penhores disseram-lhe logo: “não queremos, são a fingir, não são reais”.
João Paulo Chora, 52 anos, Cascais 

Susana ansiava pelo dia de aniversário, regularmente perguntava:
- Quantos dias faltam para os meus anos, mamã?
- Menos um do que ontem querida!
Susana era como o pensamento, voava a todo o instante.
Até que o dia chegou.
Teve um presente especial, um livro encantador, onde vivia um peixinho - brilhava como as estrelas, cristalino como a água.
Contava-lhe as mais belas histórias do seu mar, todos os dias lhe oferecia um sorriso.
Susana pescava Felicidade...

Susana Assunção 37 anos e sou de Vila do Conde

Toda a tarde a correr pelo jardim, a trepar às árvores, a jogar à bola… mas a energia de Catarina estava longe de acabar.
– Catarina! São horas… – chamava a mãe.
Mas o jardim oferecia novas árvores para trepar, mais relva para correr, outros campos para jogar… e Catarina não conseguia dizer que não a tais convites.
– Vou já! Só mais um bocadinho – pedia.
E o sol ajudava, demorando a deitar-se, só para a ver feliz.
Rita Vilela, 46 anos, Paço d’Arcos

Entrámos no carro depois de uma ida surpreendentemente rápida ao Hospital público. Diagnóstico confirmado: otite. Cansada e com calor, eu estava concentrada nas manobras necessárias para tirar o carro do parque de estacionamento subterrâneo ao mesmo tempo que pensava nas dores de ouvidos que o Miguel estaria a sentir. Dores aos quatro anos deveriam ser proibidas! "Mamã..." – começou ele. "Nos teus tempos, quando tu e o papá viviam lá em Lisboa, as casas eram feitas de palha?"
Helena Rocha, tenho 31 anos e vivo em Lagos.

07 julho 2011

julho 2011 - pais e filhos


– Não acredito!!! A vossa roupa de ginástica ficou nas mochilas todo o fim-de-semana!
Os filhos entreolharam-se. Caldo entornado…
– Se não for eu a tratar destas coisas…! – queixou-se a mãe, frustrada.
O mais velho levantou-se e agarrou nas mochilas.
– A culpa é tua, mãe. Se não estivesses sempre a fazer essas coisas, nós não nos esquecíamos. Amanhã vamos assim, sujos. Vais ver que resulta…
A mãe foi apanhada de surpresa. Magoou-se com a frase, depois entendeu. Talvez resultasse!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

03 julho 2011

julho 2011 - pais


– Então? Não vens dormir?
Clara sorriu. Ia, mas parara ali, encostada à porta, a espiar o sono do Filipe.
– Ele não foge, sabes? – gozou o marido.
– Juras? Mesmo…?
Não era uma pergunta, era uma brincadeira. As pernas mal cabiam na cama, o quarto estava num desalinho, os posters enchiam as paredes e os sonhos. Estava quase no tempo de abrir a gaiola e deixá-lo voar.
O marido abraçou-a.
– Lamechas… – disse-lhe ao ouvido, tentando disfarçar os olhos comovidos.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

01 julho 2011

julho 2011 - filhos


É a quarta vez! Ou será a quinta…? Não me lembro, recordo-me apenas de já ter caído muitas vezes. Sou um urso de peluche remendado, que se arriscou a reviravoltas molhadas para ficar limpinho, sou um peluche valente! Defendi a minha menina de sonhos assustadores e barulhos estranhos. Não me lembro bem de quantos…! Muitos!
Agora, a miúda está a crescer, ficamos apertados na cama…
Agarrou-me de novo, boa. Adormeceu…
Cuidado, cuidado ao virar… Bolas!
Sexta? Sétima…?
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

julho - histórias recebidas


Quem gosta de cobras? Se não gosta, é porque ainda não conhece a Samanta. Nunca, em toda a selva, se viu bicho mais querido e disposto a ajudar.

A ajudar?! Mas afinal para que serve uma cobra?

Bem: podes saltar à corda com ela; fazer quebra-cabeças; enrolá-la no braço como uma pulseira; serve para afastar os indesejáveis; e pode ser uma amiga, que se enrosca a ti quando estás triste.

Acredita, a Samanta é uma amiga fabulosa.
Rita Vilela, 46 anos, Paço d'Arcos 

Estava ansiosa por chegar a casa e contar a novidade do que me acontecera na escola. Corri com um enorme sorriso na cara. Assim que cheguei, encontrei a minha mãe sentada à mesa. Dei-lhe dois doces beijinhos, sentei-me a seu lado, respirei fundo e comecei a falar:

- Sabes mãe, hoje aconteceu-me uma coisa fantástica!            O meu melhor amigo pediu-me em namoro e eu aceitei!

Assim que acabei, um sorriso surgiu desenhado nos lábios da minha mãe! 
Ana Jesus, 16 anos, Seixal e ando na Escola Secundária Dr. José Afonso


A mãe, sempre que saía com os seus bebés, munia-se de todos os apetrechos que ele pudessem precisar: fraldas, roupinhas, toalhetes, repelente, babetes, casacos, chapéus...
O pai, cansado de carregar o malote, atrevia-se: “Agora que deixaram as fraldas, talvez não precisemos do malote...” – “Não, não. Podem sujar as mãos, ou ter sede... E se lhes morde um bicho?” – insistia a mãe. Olhava os filhos, já rapazes e espreitava para dentro do malote à procura dos seus bebés...
Marta Pereira, Sintra e tenho 33 anos.

A minha Mãe. A minha Mãe é a pessoa mais espectacular do mundo, é magnífica! Ela é linda, e não estou só a falar fisicamente. Tenho que te agradecer, Mãe, por tudo o que tens feito por mim, pelo mano. Apenas um simples «obrigada» não chega, tenho a perfeita noção disso. Peço desculpa por todos os erros que já cometi. Perdoa-me se alguma vez te magoei a sério. EU AMO-TE MUITO MELHOR MÃE DO MUNDO!
Débora Espadaneira

Os ponteiros, de um relógio de sala, saíram do mostrador, aproveitando a escuridão da noite. Perderam-se pela cidade gozando a liberdade, tão desejada.
De elegantes cartolas triangulares, caminharam lado a lado pelas ruas estreitas e pelas movimentadas avenidas, espreguiçaram os olhos nos miradouros, penduraram-se nos eléctricos, sentaram-se nas esplanadas e cansados adormeceram num banco de jardim.
Pela manhã, acordaram surpreendidos… estavam estranhamente presos um ao outro, no cimo de um telhado. Alguém os tinha transformado… num cata-vento!
Maria João Amante – Tenho 57 anos e vivo no Sobralinho.

Pela mão do pai, a Inês viu pela primeira vez o irmão.
Não quero o mano!
Anda cá à mãe. Já viste como ele é pequenino? Sabes que ele precisa muito de ti, querida? A mãe não consegue cuidar do mano sozinha. Achas que me podes ajudar?
Olhou para o irmão, tão minúsculo.
E os meus miminhos, mãe?
Os miminhos do mano estão agora a nascer. Tu terás sempre os teus. Os do mano são outros, amor.
Ana Mafalda Catita Lamas. Tenho 41 anos. Sou mãe da Inês e do Miguel, e madrasta da Ana e do João.

Maria apaixonou-se por António, que vivia apaixonado pelos barcos que construía.
Aproximaram-se e ele fez-lhe um barco.
O barco, castanho, lindíssimo, evitava graciosamente os obstáculos que pareciam grandes sabonetes na água, no meio da espuma.
O riso de ambos ouvia-se muito para além do barco.
Quando os chamou para lancharem a mãe dela riu-se imenso ao ver a filha de 4 anos na banheira com o amiguinho do jardim-escola, a brincarem com um barco de cortiça.
João Paulo Chora, Cascais, 52 anos