07 junho 2011

junho 2011 - pais e filhos

Levantar, banho, um sorriso depois de um beijo rápido, acordar os miúdos, lavagens rápidas, roupa escolhida de véspera, pequeno-almoço rápido, um adeus ainda mais rápido.
Trânsito, quatro piscas, indicações na escola, chegar ao escritório, assuntos, reuniões, trabalhar rápido.
Sair, quatro piscas, trânsito, entrar. Preparar o dia seguinte, na escola e na casa, banhos.
Então sim, a calma. Sentar no chão, de volta dos brinquedos. Todos. Minutos que valem o dia. Adormecer com um sorriso ao lado, lento.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)

03 junho 2011

junho 2011 - pais


Podia pensar que eram boatos, ou podia pensar que diziam verdades. Freitas nunca ouvira o que se dizia. Limitava-se a adivinhar. Os dias passavam, cheios de palavras escondidas. Reconhecia rostos inquisidores a cada instante. Preocupou-se. Preocupou-se até àquele dia:
– Ó Freitas, é mesmo verdade que você faz voluntariado nos tempos livres?
Respondeu que sim, desconcertado.
À volta, rostos que o observavam, impressionados. E uma palmada nas costas atirou-lhe as dúvidas ao chão. Diz-se que nunca mais voltaram.
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres) 

01 junho 2011

junho - histórias recebidas

Minha avó Mariana ofereceu-me um pintainho. Tinha eu quatro anos. Tratei-a, pois de uma pintainha se tratava: baptizei-a de Maria. Cresceu e começou a piar e eu disse à minha avó "a Maria pia". Ficou "Maria Pia".
Comigo andava sempre na brincadeira.
Fui para a escola e ela insistiu em seguir-me.
Aprendeu as horas de saída e todos os dias lá estava, á espera. Punha a mala ao ombro e a "Maria Pia"... debaixo do braço.
Vitória Gonçalves, 63 anos (história verídica passada na aldeia de Albernosa, Alentejo)

Perdeu-se na floresta. Assustado, bate a uma porta. Vivia lá um velho solitário.
- Perdido? Entra. Sou um velho sábio, quero salvar o mundo, li muitos livros, fabriquei muito ouro. Farei um mundo feliz, todos terão um tesouro...
- Ser rico é correr livre, amar e gozar a natureza, ser leve como um passarinho. É abrir os olhos e o coração, ter água para a sede, alegria e pão...
O velho sábio só disse:
- Sabes bem mais que eu...
Elsa Soares, 37 anos, Vila do Conde

junho 2011 - filhos


Era uma vida simples de lagarta. Acordar, comer, rastejar, conversar… Vivia entretida no meio das folhas, tinha tudo o que precisava.
Certo dia, quis viver num mundo só seu. Construiu um casulo e isolou-se. Mas não estava triste. Numa cabeça de lagarta, não há tristeza. Assim ficou, imaginando-se linda… Que tonta!
De repente, apeteceu-lhe romper tudo e… voar?! Nova tontice, pensou. As lagartas não voam… Ai não?, perguntou a Natureza. Voam, pois.
E voou, não conseguiu resistir!
(texto: Margarida Fonseca Santos; ilustração: Francisca Torres)